Os testes

Ontem dei os testes no 8º ano. Quatro horas seguidas a vigiar os alunos. O que é uma grande seca. O relógio parece que não avança. Pelo menos para mim. Mas, o mais chato vem agora. A correcção. 4 turmas. 160 testes. Vai ser um fim de semana em cheio.

Contudo, enquanto vigio os testes, acabo por observar coisas muito interessantes. Uma delas é o uso do corrector. Os alunos adoram usá-lo. Acho que até se enganam de propósito. Quem fica a perder são os, dois ou três, donos dos correctores. Porém, nunca vi um aluno recusar emprestar, o que quer que fosse, a um colega.

A este propósito dos testes, recordo-me da primeira vez que usei cábulas na minha vida. 8º ano, teste de biologia. As cábulas eram daquelas pequeninas que se colocam na palma da mão. A verdade é que nem as consegui usar de tão nervoso que estava. O pior foi quando o professor foi recolher o meu teste, fui um dos últimos a sair, e me pediu para abrir a mão e mostrar o que estava a esconder. Recordo-me perfeitamente de ele olhar para mim e dizer – Fecha a mão e não digas nada a ninguém.

Talvez o meu amigo esteja certo

No outro dia, dizia-me um amigo americano que as mulheres só querem homens com poder e/ou com dinheiro e/ou com fama. Argumentei contra. Disse-lhe que possivelmente ele tinha tido más experiências e que nem todas as mulheres são assim.No entanto, não posso deixar de concordar com ele em parte. De facto, o que faz mover os homens é a ambição de ter poder. Nem que seja um poder relativo, sobre qualquer coisa ou grupo. Sob diversas formas. Através de dinheiro, de um emprego, de bom ou mau aspecto, de humor ou charme, de simpatia ou autoridade, de luxo ou bens materiais, de uma posição social ou um estilo de vida,... Esta procura de poder talvez tenha que ver com a necessidade de satisfazer o nosso eu, através de mulheres ou de elogios (vaidade, talvez), na procura desesperada da felicidade. Talvez seja por isso que existem tantos frustrados e tantas infidelidades. Não sei. Talvez.

Desabafos (II)

Lembro-me de, quando era criança, pensar que não tinha problemas. Melhor, os meus problemas eram, apenas, os problemas outros. Pensava então que se os outros não tivessem problemas eu também não teria. Hoje, além dos problemas dos outros, já tenho os meus. E, estes, chegam. Possivelmente, agora os meus problemas serão também os problemas de alguém. Porém, faço por isso não acontecer, porque sinceramente sei que os problemas de cada um são mais do que suficientes. Chego mesmo à conclusão que, por vezes, a ignorância, de certas coisas, faz de nós pessoas mais felizes. Não quero dizer que não se deva partilhar problemas e pedir ajuda. Claro que se deve. Mas só no caso de daí advir algum beneficio, para nós ou para o outro. Se não, num acto altruísta, mais vale ser egoísta e ficar com os problemas só para nós. Tenho dito.

As propinas

Acabo de sair de uma reunião de directores de turma, com o fim de esclarecer algumas questões relativas ao pagamento de propinas. Sim, porque aqui, apesar (ou por isso) de Cabo Verde ser um país pobre os alunos que querem estudar pagam propinas. Desde o 7º ano até ao 12º ano. As propinas variam entre os 12 e 180 Euros anuais. O critério é o rendimento do agregado familiar. Ou melhor, deveria ser, mas, de facto não é. À escola interessa ganhar dinheiro, pois é deste dinheiro que a escola faz o seu orçamento. Assim, considera-se como agregado familiar os que estão a viver em casa e os, eventuais, pais emigrantes (mesmo que vivam com outra família e/ou que não enviem dinheiro). A Situação é de facto muito complexa, e na maior parte dos casos injusta. Ainda para mais, não é considerado nem o número de irmãos (que, aqui, varia entre os 10 e os 15!), nem sequer o números de irmãos estudantes, nem outras variáveis importantes.

Como deve calcular, este esquema de propinas gera muitas injustiças. Pior, condiciona o ensino a apenas aqueles que têm posses. Para muitas famílias 5 Euros por mês é muito dinheiro. Ainda para mais, como só existe um liceu na ilha, muitos alunos têm de pagar transporte para se deslocarem até à escola (cerca de 2 Euros diários). Assim, muitos alunos, alguns com enormes capacidades, ficam de fora do sistema de ensino (apesar de haver um sistema de apoio social).

Neste aspecto, Cabo Verde faz-me lembrar o Portugal que o meu pai me falava existir à 50 anos atrás. Um Portugal discriminatório dos mais carenciados, incapaz de fazer justiça social. Talvez seja esta uma das diferenças entre países sub-desenvolvidos e países desenvolvidos. Em países ricos e países pobres. Ou então não.

Desabafos (I)

Gostava de ter o talento dos grandes escritores para poder traduzir em palavras tudo o que me passa pela minha cabeça. Ideias. Sensações. Sentimentos. Opiniões. Dizem que tenho outros talentos. Desaproveitados. Subaproveitados. De facto, não passo de um daqueles gajos que se desenrasca em quase tudo, mas que não se consegue destacar numa só coisa. Até podia. Bastava, talvez, me dedicar a uma coisa que gostasse a sério. Mas para isso é preciso perseverança. E eu sou pouco perseverante. Sempre me bastou saber que era capaz de lá chegar. Sem nunca lá chegar. Se eu provar, para mim mesmo, que sou capaz de uma coisa, isso me chega. Não preciso fazê-la. Não sou gabarolas. Talvez seja convencido. Ou então, talvez não tenha coragem de perder. Por uma vez.

Um dos poucos exemplos tristes de São Nicolau

Por viver na vila, local mais importante da ilha de São Nicolau, nem sempre me apercebo das carências e das dificuldades que as pessoas passam. Mas a vila não é um exemplo do modo de vida da maior parte dos Cabo verdianos. De facto, a realidade é muito diferente. A maior parte da população vive com enormes dificuldades, colocando muitas famílias, e até localidades, em situações de pobreza extrema.

Apesar de muitas situações estarem escondidas, há sempre algumas que se vêm a saber. Em São Nicolau, descobriu-se agora um caso de abusos sexuais com menores. Ao que parece, três meninas, de idades compreendidas entre 10 e 14 anos, actuais, foram aliciadas para terem relações sexuais com um conjunto de homens, inclusive um professor primário, de uma determinada localidade da ilha. A situação permaneceu escondida durante anos, tendo vindo a ser descoberta agora.

Esta situação agora descoberta, apesar de não ser frequente, não me espanta. Penso, no entanto, que as coisas mais graves ocorrem dentro das próprias famílias, no interior das suas casas e que só não se sabem por cumplicidades familiares, vergonha e pelo facto de a mulher ainda ter um papel menor perante a sociedade. Aliado ao problema do alcoolismo existem muitos outros factores que favorecem estas situações. Existem famílias inteiras a compartilharem apenas uma divisão ou mesmo uma só cama. Ainda para mais, aqui é muito normal uma mãe ter filhos de outros relacionamentos a viver consigo. Além disso, existe uma cultura de promiscuidade entre homens e mulheres completamente aceite e enraizada na sociedade. A vida sexual começa muito cedo, sendo a gravidez precoce uma realidade. Aqui a palavra pedofilia também tem um significado diferente, pois não está associada à idade mas sim ao corpo.

Estou certo que esta realidade não é exclusiva de África. Muito menos de Cabo Verde. Infelizmente, esta realidade está em todo a lado. No entanto, a cultura de um país, por muito diferente que seja, não pode ser desculpa, nem escape, para situações completamente reprováveis e contrárias aos direitos dos homens e das crianças.

Alunos portugueses são dos piores na Matemática

O relatório do PISA coloca, novamente, Portugal nos últimos lugares do "ranking" da OCDE. Segundo o Público, mais de metade dos alunos portugueses com 15 anos têm níveis de literacia matemática baixos, ou seja, não conseguem mais do que fazer tarefas simples.

Contudo, desconfio da forma como foram feitos estes testes. Sei muito bem como é que em Portugal funciona a escolha dos alunos que vão fazer as provas. Normalmente, são voluntários, muitos deles desinteressados, que procuram apenas uma dispensa justificada das aulas. Não sei como é nos outros países, mas tenho quase a certeza que os alunos não são seleccionados com esta leviandade.

Página de um diário - 6/12/2003

Estou deitado na cama. Estou super cansado. Procuro a palavra certa para descrever o que sinto mas não encontro. A noite anterior foi muito mal dormida. A ansiedade e o medo de perder a hora do avião fizeram com que apenas dormisse 3 horas. Os meus pais, a Fernanda, a Marta, o Pedro e o meu irmão Cláudio acompanharam-me até ao aeroporto. A Helga chegou depois, e pela sua expressão, acredito que chorou muito. Na hora de embarque não consegui evitar uma lágrima, ao sentir o abraço apertado da minha mãe. Carregado de malas nas mãos, parti sem olhar para trás.

Nunca tinha andado de avião. Confesso que fiquei com medo. O avião era velho e inseguro (pelo menos para mim). A hora de descolar foi a mais difícil. Depois tudo bem. Pelo menos até á aterragem ... mas as palmas foram merecidas. Quando chegámos à Ilha do Sal, a minha primeira impressão foi a de ter entrado num filme de cowboys e de estar no western. Tudo muito calmo, um sol quente mas suportável. Um deserto. No entanto fiquei com uma boa impressão. A receber-nos estava o representante da embaixada, o Dr. Mário. Fomos com ele, de táxi, até a uma esplanada no centro, onde estava marcada uma reunião com os cooperantes do Sal. Após comermos qualquer coisa os nossos colegas chegaram. Só uma rapariga é que nos fala, os outros parecem ignorar-nos. No final já todos pareciam mais simpáticos. Senti, em quase todos, uma expressão de solidão. Será que é isso que me espera?

A hora da ligação do voo para São Nicolau aproximou-se rapidamente. Apanhámos um táxi e embarcámos num avião que ainda parecia mais velho. São Nicolau vista de cima parece um deserto montanhoso. Tudo é castanho e não parece haver vegetação. Chegados em terra rapidamente nos apercebemos que estamos numa zona pobre muito carenciada de infraestruturas. Durante alguns momentos ficámos suspensos sem saber para onde ir e o que fazer. Todos nos perguntavam se queríamos um táxi. Até que o director da escola, Luis Morais, nos aborda. Acho que é porreiro. Deve ter uns 30 anos e parece ser uma pessoa muito calma e acessível. Do aeroporto até à Vila de Ribeira Brava são 4 km de distância que são percorridos em 15 minutos. Viémos de Hiace, que são os autocarros daqui. A Ilha é muito acidentada e tem imensas montanhas. Avista-se alguma vegetação. A estrada é de calçada e com muitas curvas. Curvas que evitam enormes precipícios. Talvez seja por isso que numa dessas curvas avistei um cemitério...

Ribeira Brava comemora hoje o seu feriado municipal. De longe reparei numa bancada, de um jogo de futebol, cheia de gente. As ruas da vila são estreitas rodeadas de casas humildes quase todas inacabadas. As pessoas pareciam que nos ignoravam. Até que ficámos parados no trânsito. O jogo de futebol tinha terminado e as pessoas, essencialmente homens, ao sair do campo provocaram um caos no trânsito. Muita gente passou por nós. Confesso que foi muito intimidatório ao ponto de a Helga me pedir para a abraçar.

Chegámos à pensão onde está o nosso apartamento. Pensão Jardim, tal qual a Helga tinha apostado. Deve-lho uma lagosta. O apartamento tem as condições mínimas e tem tudo o que é necessário, excepto uma barata ... O jantar foi aqui mesmo na pensão. Peixe, claro. Eu comi garoupa grelhada e acompanhada por batatas fritas e arroz. Estava bom. Hoje, decidi dormir cedo, pois estou cansados. Continua-se a ouvir a festa e a música, mas não me parece que a oiça por muito mais tempo ...

A Sexta-feira

Adoro os fins de tarde de sexta feira. Parece que o cansaço, acumulado ao longo da semana, se esvai com o toque do sino da última aula. A sensação de não ter nada para fazer me invade e me devolve a liberdade. Confesso, que gosto não ter nada para fazer, para poder fazer o que me apetece. E neste momento, apetece-me deitar, e ficar a olhar para o tecto até os meus olhos fecharem de vontade. Até logo.

A Sida na escola

Em Cabo verde, o dia mundial de luta contra a sida é vivido de uma maneira especial. Este ano não fugia à regra. Na escola fizeram-se algumas actividades significativas sobre a sida e a sua prevenção. Além de os alunos terem oportunidade de participar num colóquio sobre sida, com a presença de uma médica e um seropositivo, puderam, na escola, realizar o teste da Sida. A maior parte dos alunos aderiu, sem preconceitos, sem medo. Note que em Cabo Verde a vida sexual começa muito cedo (tenho alguns alunos do 8º ano que já são pais!), sendo a gravidez precoce muito frequente. Além disso, culturalmente, o povo Cabo-verdiano é muito promíscuo quanto aos relacionamentos sexuais, pois a maior parte dos homens têm várias mulheres (e as mulheres vários homens).

Na ilha de São Nicolau, são do conhecimento da delegação de saúde apenas 3 casos de pessoas infectadas com o vírus da sida. Contudo, só 1% da população se sujeitou ao teste de controlo. Aqui os preservativos são gratuitos e, pelo menos, os estudante estão bem informados quanto aos riscos que correm ao terem relações sexuais sem protecção. No entanto, isso não garante nada por si mesmo.

A este propósito, recordo-me de ter assistido ao testemunho de um homem, com cerca de 50 anos, que contava que nunca tinha usado camisinha. Dizia ele que não precisava. A razão era simples. Vivia uma vida de fidelidade com a sua esposa. Um exemplo.

Perguntas retóricas

Como devem calcular, um professor, tem a tendência para fazer perguntas retóricas enquanto explica a matéria. Pois bem, em Cabo Verde é escusado. Nenhuma pergunta que faço fica sem resposta. Seja retórica ou não. Pior, as retóricas, normalmente, são respondidas em coro. Já tentei explicar que algumas perguntas que faço não são para responderem. São perguntas para ficarem no ar. Para eles pensarem para si. Mas acho que eles não perceberam a lógica da coisa. Se é que há lógica nisso!

Educai-os ou suportai-os!

Quando eu fui aluno do ensino básico e secundário era um pouco indisciplinado. O palhaço da turma. Quase todos os dias vinha para a rua. Porém, nunca fui mal educado e até sentia uma certa simpatia dos professores por mim. Além disso, conseguia tirar boas notas nos testes o que aliviava a pressão em casa. Contudo os professores teimavam em baixar-me a nota por causa do comportamento. Recordo-me de nessas alturas discutir com os professores e defender que os comportamentos não deviam ser avaliados. A minha tese era esta: Se aprendo, mesmo não estando com atenção, o professor não tem nada a ver com isso. Imagine que é essa a minha maneira de aprender!

Agora que estou no papel de professor vejo-me confrontado com a situação de avaliar comportamentos. Se a início tinha dificuldade em compreender tal avaliação, agora compreendo e aceito-a perfeitamente. Ora se queremos que os nossos alunos aprendam mais que a simples matéria, então temos que avaliar mais do que os conhecimentos científicos. Se exigimos que os alunos tenham um comportamento adequado então também teremos que o avaliar.

Existe muitas vezes a ideia de que a disciplina não deve ser imposta aos alunos, devendo ser instaurada de uma forma que eles entendam o sentido e a razão para o qual é necessária. Contudo, se este princípio é válido para alunos mais velhos, para alunos mais novos, as coisas tornam-se mais complicadas... De facto não cabe às crianças definir as regras da disciplina. É demasiado para elas. Ao professor é que cabe enunciá-las e impô-las. Pretendo deixar marcas positivas nos meus alunos, que têm que ir muito mais além do que os simples conhecimentos matemáticos...

A diferença entre os gajos e as gajas

Durante os 6 anos que passei em Lisboa a estudar fui a muitas festas universitárias. Como vivia numa residência universitária, quando saíamos, íamos em grandes grupos. Foi nessas festas que me apercebi da real diferença entre homens e mulheres.

Os homens quando estão juntos e reparam num grupo de raparigas, normalmente, combinam entre si quem fica com quem. Normalmente, não há grandes problemas em chegar a acordo. Utiliza-se a técnica do mais feio, para a mais feia e assim sucessivamente. Sempre no maior espírito de solidariedade.

Já as mulheres quando estão em grupo e reparam num grupo de rapazes, quase sempre, escolhem o mesmo rapaz como o seu alvo. O espiríto de competição apodera-se delas. E a partir daí é um desfile de exibicionismo e atrevimento. Quase sempre a mais atrevida fica com o rapaz em causa. As outras com quem aparecer.

Também não se pode ter tudo: as férias e ordenado!

Hoje, ser professor é mais do que um desafio é um acto de coragem. As condições de vida dos professores degradaram-se, ninguém duvide. Aliás, toda a gente reconhece que o ensino está em crise. Parece-me óbvio: se quisermos um melhor ensino, temos que ter melhores professores. Ter melhores professores implica dar à profissão condições mais atractivas.

O único critério para a colocação de professores é a média. Um número. O computador trata do resto. Desta forma, a colocação de professores faz-se sem o mínimo de subjectividade. Mas isto acontece em mais alguma profissão? Mas há alguma empresa que recruta alguém sem fazer uma entrevista, sem conhecer os candidatos, sem saber das suas motivações? Todas essas coisas que levam a sentir afinidades ou repulsas, prazer ou mal estar, tudo o que mostra que somos um ser humano, tudo o que traduz essa estranha vocação de professor, tudo isso é pura e simplesmente ignorado.

Defendo que se premei a qualidade. Por isso não me choca que os professores sejam avaliados, aliás, é o que acontece em qualquer empresa. Como sabemos a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Aliás, muitos professores gostam desta profissão por isso mesmo. O receio de ser despedido ou de não ser promovido de forma automática é que parece justificar esse apego desesperado à segurança por parte de tantos professores. Constato que é muito fácil cair na rotina, no comodismo, no facilitismo. Mas será isso benéfico para o ensino? Pessoalmente, para ser feliz, eu preciso que reconheçam o valor ou a ausência de valor do meu trabalho. Embora não seja isso que me faz funcionar. Embora eu não procure agradar, preciso que os outros me digam sinceramente o que pensam do que eu faço.

Português versus Crioulo

A língua oficial de Cabo Verde é o português. Contudo, é uma língua que só é usada em actos oficiais ou formais. Quase ninguém fala português informalmente. Pode-se dizer que a língua materna seja o Crioulo. As crianças só aprendem a falar português quando entram para a escola primária. Por isso, o português funciona como uma segunda língua língua. De facto, nem chegam a ser bilíngues.

Apesar de já estar em Cabo verde há um ano ainda não sei falar crioulo. Entendo algumas coisas. Mas falar, ainda não. Talvez porque não tenho necessidade de aprender, visto toda a gente me entender perfeitamente. Além disso, as pessoas são simpáticas e, normalmente, esforçam-se em falar português comigo.

O crioulo é uma linguagem simples, cheia de palavras em português ligeiramente modificadas. Não existe uma gramática. Não existem muitas regras. Porém tem um senão. O crioulo não é uniforme em todas as ilhas de Cabo verde. Há diferenças substanciais. Outra dificuldade é a escrita, pois cada um escreve como fala.

Avaliação

Ontem recebi uma encarregada de educação de uma aluna, da minha direcção de turma, muito interessada no acompanhamento escolar da filha. A aluna em questão é uma óptima aluna a matemática. Tirou 18 no teste. Tem uma boa participação na aula. Faz os T.P.C.s. Tem um comportamento exemplar. Por isto tudo foi com enorme surpresa que recebi a notícia que ela tinha tirado um 5 no teste da disciplina de Estudo Científico. Chamei a aluna e tentei perceber o porquê dessa nota. A sua timidez não permitiu tirar grandes conclusões. No entanto, a mãe dela, fez-me algumas queixas do professor. Além disso, confirmou-me que a filha tem graves problemas de audição o que não permitem captar tudo o que se passa na aula. Pelo menos naquela. Mais tarde, reparei que havia outros alunos na mesma situação. Por exemplo, o meu melhor aluno a matemática também teve um 5 no teste de Estudo científico.Como se permite que bons alunos tenham estas notas? Como não se detecta nas aulas que o aluno está com dificuldades? Porque se resume tudo a um teste?

Esta disparidade de notas fez-me reflectir sobre a avaliação. De facto, umas vezes, cometemos erros de avaliação porque não conhecemos bem os nossos alunos, outras vezes porque não usamos os critérios mais adequados. Para os alunos, tudo passa pela avaliação. Mas avaliação não deve apenas traduzir um número, uma nota. É necessário que se faça uma avaliação aula a aula, capaz de recolher informações sobre os alunos, mas também capaz de fornecer informações aos alunos de modo a poderem auto-regularem as suas aprendizagens. Por isso a tarefa de avaliar é tão importante e difícil. O acto de avaliar não se resume apenas à recolha de informações sobre os alunos é necessário também saber interpretá-los.

Apenas por amor

A minha sobrinha acaba-me de me perguntar se pretendo casar, ter filhos, constituir família. A pergunta é recorrente. Até percebo porquê. De facto, não é só a minha sobrinha. A minha mãe diz que acha que já não caso. Que ninguém me quer. Que passei da idade. Será mesmo assim? Espero que não. Espero casar e ter filhos. No entanto, o casamento não me diz nada se não for com a mulher que eu ame. Por isso, por muito que pressionem, não me conseguirão empurrar para nenhuma situação que não queira. Nem que não tenho de casar ou constituir família. Isso não me assusta. O que me assusta é não ser feliz. Casado ou não. Não tenho medo em ficar sozinho. Mas claro que penso nisso. Claro que penso. Não vivo obcecado. Talvez preocupado. Não me tornei menos exigente, muito menos prescindi de algum dos meus princípios. Nunca. No entanto, confesso que mudei de atitude em algumas coisas. Estou mais maduro. Já não fico no pedestal à espera que alguém me ganhe. Quero lutar por alguém. Quero ganhar alguém. Estou disposto a amar. A me entregar. A me expor sem medo de perder. A conquistar. A cativar.Tudo por amor. Claro.

Parágrafo solto

Dou a aula a todos os alunos, porque eles são todos da mesma turma. Mas cada aluno compreende/aprende de maneira diferente de outro aluno. Cada um tem a sua maneira de aprender e dar aulas é tão simples como falar vinte e tal línguas ao mesmo tempo. O ideal seria dar tratamento diferente para alunos diferentes. Atingir os alunos nos seus diferentes modos de funcionamento é um dos maiores desafios de um professor. Não se pode desinteressar-se daquele que achou a aula fraca e pautar a aula por aquele que achou a aula muito boa senão arrisca-se apenas a que os bons alunos se tornem melhores e que os mais fracos se tornem piores. Não posso esquecer que sou responsável pelo progresso de cada um, tanto do fraco como do brilhante.

Treuze

Tudo o que faço na aula está a ser observado pelos meus alunos. Estou em directo. Actuo sem rede. As minhas mínimas reacções são observadas, os meus erros são imediatamente apontados.

Por uma vez, disse numa aula, “treuze” em vez de treze. Valeu-me uma alcunha que me persegue por todo o São Nicolau. O “treuze”. Todos os alunos, fora da sala de aula, me chamam “treuze”. Apesar de ter origem numa gaff minha, confesso que até acho alguma piada a este nominho (alcunha em crioulo). Até ver.

Sinto que os alunos têm um grande carinho por mim. Talvez porque a minha relação com eles, fora da aula, seja também diferente. Jogo futebol com eles nos intervalos. Falo com eles de outras coisas que não a escola. Meto-me com eles quando o Porto perde. Contudo, há uma coisa que já me começa a irritar. A obsessão deles pelo meu cabelo. No percurso até à sala de aula o meu cabelo é completamente estropiado. Especialmente quando estou a abrir a porta da sala de aula com a chave. Nesse momento estou de costas para os alunos que me rodeiam, e eles, anonimamente, são incapazes de resistirem ao meu cabelo. Chego até a chatear-me e a pedir um metro de distância enquanto abro a porta. Enfim...

Escrever sem pensar

Tinha pensado escrever um post sobre Cabo Verde e as suas particularidades. Gostaria de estar a escrever sobre as promiscuidades existentes. A cultura de relacionamentos. A dissertar sobre as suas causas e consequências. Iria dar exemplos. Alguns muito engraçados. Tenho a certeza que seria muito interessante e que todos gostariam de ler. Mas, hoje não me apetece ordenar tantas ideias. Escrever frases pensadas. Aliás, devia ser sempre assim. Escrever sem pensar. De uma vez. Sem correcções.

Proibido fumar

O governo tem intenção de fazer uma lei que visa proibir o tabaco em locais públicos fechados e locais de trabalho. Ora aí está uma boa notícia. Porque raio é que eu, sendo não fumador, tenho de fumar o fumo dos outros? Porque tenho de me sujeitar ao incómodo de ficar com a roupa e cabelo a cheirar a fumo? Porque tenho de ser eu a mudar de lugar quando o fumo de um cigarro está a incomodar-me? Será que os fumadores não sabem que a sua liberdade termina quando interfere com a liberdade dos outros? Será que os fumadores não sabem que quem está mal deve-se mudar? Ou eles não sabem que estão mal?

Jorge Palma

Já devem ter-se apercebido que gosto muito do Jorge Palma. Descobri Jorge Palma aos 17 anos. Primeiro estranhei, depois entranhei. Vi mais do que 20 concertos ao vivo e tenho quase todos os seus discos. Não consigo explicar tanto devoção. A verdade é que há muita gente a cantar, mas só o Palma me consegue falar pela música.

Ao que parece vai sair um novo disco. Já ouvi dizer que não está grande coisa. Mas, como fã incondicional, não acredito. Para mim é e continuará a ser o melhor. "O Palma é o último de uma classe de artistas que não volta mais, o último dos poetas que tocam na alma de quem quer pensar, o último dos músicos que tocam por prazer de tocar, tocando em cada um de nós de uma forma diferente".

As minhas manhãs

Diz o meu pai que é de manhã que se faz o dia. Não concordo nada. No meu caso as manhãs continuam muito curtas. Repare. Acordo por volta das 8 horas com o barulho das obras aqui no andar de baixo. Às vezes também acordo com o barulho das mulheres a falar ou com o som do pilão a "cochir" milho. Ligo a internet e, ao som do Jorge Palma ou de alguma música brasileira, fico até às 9 horas e meia a ler os jornais e os meus blogues favoritos . Depois vou tomar banho. Visto-me e como um iogurte com uma banana. Muitas vezes não como nada. Ligo a TV, mas como não dá um programa de jeito de manhã, desligo-a novamente. Com isto tudo já são 10h45. Vou à rua deixar o lixo e aproveito para apreciar a vista e ver as pessoas nas ruas. Volto ao quarto. Vejo que aulas vou dar e preparo as aulas. São 11horas e meia. Volto para a cozinha. Ligo a TV. Preparo o almoço e, ao mesmo tempo, oiço o horrível SIC 10 horas. Enquanto a comida está no lume, lavo a loiça do jantar do dia passado. Entretanto já é meio dia e enquanto ponho a mesa e vigio a comida, assisto ao Jornal da tarde da SIC. Por volta do meio dia e meia a Helga chega e nós almoçamos. Ela conta-me as novidades da escola e eu não lhe conto nada porque não tenho nada para contar. Levanto-me da mesa por volta das 12h45, ficando com 12 minutos para me arranjar, lavar os dentes e ver se tenho algum e-mail. São 12h57 e vou para a escola. Chego à escola. Toca o sino das 13 horas, e acaba a minha manhã e fico com a sensação que o dia ainda nem começou.

Confissões de um professor

Um dos problemas com que me confronto muitas vezes é explicar o simples. Acho que tenho mais dificuldades em explicar o simples do que o mais complexo. Há coisas que para mim são tão simples que nem me preocupo em saber explicar, porém são as que exigem maior preparação. Confesso que a situação que mais me incomoda numa aula é quando o aluno, apesar de se esforçar, não percebe. Fico completamente frustrado pois não consigo achar a forma mais adequada para ele perceber. Explico duas, três vezes e o aluno não consegue compreender. Nestas situações sinto-me incompetente.

Muitas vezes a solução passa por pedir a outro aluno que já percebeu, que explique a este aluno. E, não é que funciona! Parece que estava a falar uma linguagem diferente e que alguém a traduziu. Será que já me esqueci de falar a linguagem das crianças?

Contudo, também há alunos que não conseguem, não querem aprender. Parece que os estudos não são para eles. Muitas vezes estes alunos estão fisicamente na aula mas tenho duvidas se realmente estão lá. Quando os alunos não têm sucesso escolar diz-se que os alunos têm dificuldades de aprendizagem. Mas não serão os professores e a escola que estão em dificuldades?

Yasser Arafat

Yasser Arafat , finalmente, morreu. Apesar de ter sido Nobel da paz,não tenho nenhuma simpatia especial por ele. Foi um terrorista assumido durante 20 anos da sua vida. Nos últimos tempo apoiava e mantinha grupos terroristas como o Hamas e a Al Aqusa. Mais, foi um ditador corrupto que acumulou uma fortuna enorme (por exemplo, pagava uma mesada de 150 mil euros mensais à sua mulher, em Paris), ao mesmo tempo ia levando o seu povo a viver na miséria, em Gaza e na Cisjordânia. Sempre fingiu querer a paz para a rejeitar repetidamente cada vez que ela se aproximava.

Com a sua morte, dizem que se abre uma janela de oportunidade para a resolução do conflito do médio oriente. Mas, ao que me parece, ainda não vai ser desta, a não ser que Jesus volte.

Carta de uma aluna

O prometido é devido. Por isso, em baixo, está reproduzida a carta que uma aluna me enviou num destes dias. Não posso deixar de partilhar este momento, porque me causou um enorme sorriso. A menina que escreveu foi minha aluna o ano passado. Este ano não dou aulas à turma dela. Desde o ano passado que percebo que ela tem um um fraquinho por mim, pois estava sempre no meu caminho por onde quer que eu fosse. Esta carta foi-me entregue por uma outra colega dentro de um envelope fechado. Não li a carta à frente de ninguém respeitando o pedido expresso na carta. E, como é óbvio, também não lhe respondi. Mas já a encontrei na rua e disse-lhe que tinha gostado de ler a carta que me tinha enviado. Ela ficou super envergonhada e muito embaraçada. O que é certo é que agora poucas as vezes a encontro no meu caminho. Acho que me abandonou...

“João Narciso eu estou a te escrever estas duas linhas de carta para pedir-te desculpas pelas cartas que eu andei a te escrever. Eu sou muito sonhadeira e pensei muito alto, tu nuncas ias, gostar de mim, para ti ainda sou uma criança, mas prometo que vou tentar te esquecer por mais duro que seja. Espero que me perdoas e que continua a ser meu amigo. Me responde essa carta se tu continua a gostar como a tua amiga e por favor não lê essa carta à frente de ninguem. Me desculpa por favor João Narciso. Não esqueças de responder-me, essa carta é muito importante para mim.

O verdadeiro amigo não é aquele que nos alegra com mentiras mas sim aquele que nos alegra com verdades.

Sou a xxxxxx turma 9ºD"

O problema da água em São Nicolau

Confesso que já tinha saudades da chuva. Continua a chover em São Nicolau. Parece um dia de inverno de Portugal. Faz um pouco mais frio e está um vento que sacode as árvores de uma forma violenta. Sente-se o cheiro da terra molhada. Apesar da terra estar sedenta de água existem algumas poças na rua que servem de brincadeira entre os miúdos.

Imagine o que é viver sem água na torneira. De facto, a água só é distribuída na rede uma vez por mês. No entanto, quase todas as pessoas têm um depósito de água nas suas casas, que dá pelo menos para uma semana. Assim, as pessoas têm de ir buscar água à fonte todos os dias de manhã. As mulheres e crianças desempenham essa tarefa. Desde muito novas que as pessoas estão habituadas a isto, e de alguma forma, esta tarefa é também um acto social. De manhã é normal haver uma grande fila de pessoas para tirar água da fonte e ver as mulheres carregando bidões de 20 litros ou mais á cabeça. Aqui o banho toma-se com um balde, e toda a água é aproveitada sem desperdício. Eu tenho a sorte de viver numa pensão, o que me permite ter água sempre e de até ter água quente no chuveiro. Devo ser dos poucos com esse privilégio pois o dono da pensão nunca deixa a água acabar nos depósitos, comprando por mês alguns milhares de litros de água.

Além do problema da água nas casa das pessoas, existe o problema da água para a agricultura. Aqui a coisa assume dimensões ainda mais preocupantes. São Nicolau é uma ilha rural. Sem água não há agricultura, não há trabalho e, em última análise, não há comida. Quando chove as pessoas ficam todos entusiasmadas e semeiam milho e outras culturas. Tudo nasce e fica verde. Contudo, como as chuvas são esporádicas e muito raras, passadas umas semanas tudo seca, causando uma enorme frustração nas pessoas. Não é fácil.

Ao que parece amanhã também vai chover. Boa notícia , não acha?

Todo o mundo quer ir para o céu...mas não agora!

Hoje de manhã fui à igreja Nazareno. Apesar da igreja ser pequena, com cerca de 30 pessoas, tem uma grande vida e transmite uma enorme alegria. O louvor é o espaço privilegiado e não se consegue ficar indiferente às poderosas vozes que entoam lindos cânticos. A mensagem de hoje foi sobre a segunda vinda de Jesus Cristo. A este propósito lembrei-me de uma frase, politicamente incorrecta mas verdadeira na maioria dos casos, que diz “todo o mundo quer ir para o céu...mas não agora”. Talvez seja esse o nosso problema. E nesse caso, acho que é um problema sério.

Experiências da minha vida

As histórias do meu pai preenchem o meu imaginário. Talvez mais do que isso. Hoje, recordava uma história que o meu pai me contou dezenas de vezes sempre como fosse a primeira vez. A história, como sempre, tem um ensinamento, que hoje quero, assumidamente, por em causa.

O meu pai fez a tropa à cerca de 50 anos atrás. Apesar do meu pai não ter ido para nenhuma guerra, foi sujeito, enquanto militar, a manobras militares, que segundo ele, eram treinos muito parecidos com uma guerra real.

Após estar três dias fora do quartel, numa dessas manobras, conta o meu pai, que, quando ia na caminhada a pé de regresso para o quartel, sentiu uma fome imensa. Por sorte, encontrou uma cebola perdida no chão de um dos campos que percorrera até chegar ao quartel. Apesar da fome ser muita, o meu pai conta que guardou a cebola dentro da mochila, pois lembrou-se que tinha um bocado de pão duro dentro do cacifo no quartel.

Assim, conta ele que, quando chegou ao quartel, foi logo buscar o pão duro e bolorento que tinha guardado e que, juntamente com a cebola, fez a melhor refeição da sua vida. Pode pensar que estou a exagerar, mas o meu pai afirma, que nunca na vida comeu algo que lhe soubesse tão bem. Pão duro e bolorento com cebola e muita fome. Mais, já experimentou, por variadas vezes, repetir a ementa, mas nunca mais conseguiu ter semelhante sensação. Pelo contrário.

A história tem alguma lógica. Podemos até generalizá-la a muitas outras coisas. Eu por exemplo, sempre com esta história em mente, tento sempre obter o máximo prazer das coisas. Por exemplo, espero ter fome para poder comer. Ou aguento o máximo sem fazer chichi para depois sentir um maior prazer quando fizer. (...) Pode achar estranho, mas são experiências interessantes que valem a pena fazer.

No entanto, nesta minha busca do prazer tive, e continuo a ter, uma grande decepção. Beber água. De facto, por muita sede que tenha, beber água não me satisfaz. Pelo contrário, fico cheio mas não tiro daí nenhum prazer. Não sei se já passou pela mesma situação, mas a mim acontece-me sempre que tento saciar a minha sede. Uma sede imensa nunca é correspondido, enquanto bebemos água, por um prazer imenso. Uma desilusão. Chego sempre à conclusão que não vale a pena ter sede para beber água. Não compensa. Experimente e vai ver que tenho razão.

O que gosto

Gosto de sonhar quando já estou meio acordado. Gosto de acordar sem sono. Gosto que me digam bom dia. Gosto de sentir a brisa da manhã. Gosto de ver as pessoas a passar na rua. Gosto de ver crianças a brincar. Gosto de brincar com os meus sobrinhos. Gosto de ser criança. Gosto de rir sem motivo. Gosto de pessoas bem humoradas. Gosto de pessoas sinceras. Gosto de pessoas com personalidade. Gosto das letras do Jorge Palma. Gosto das entrevistas do Lobo Antunes. Gosto de ler C.S.Lewis. Gosto de reler o principezinho. Gosto de filmes com histórias de mafiosos. Gosto de pessoas corajosas. Gosto de pessoas perseverantes. Gosto que me cativem. Gosto de mulheres que lutem por mim. Gosto de mulheres decididas. Gosto de mulheres misteriosas. Gosto de olhar nos olhos de uma mulher. Gosto de cabelos compridos. Gosto dos meus pés. Gosto de passear. Gosto de ouvir o mar de noite. Gosto do Brasil. Gosto de música brasileira. Gosto de São Nicolau. Gosto das pessoas de São Nicolau. Gosto dos meus alunos. Gosto de ajudar os outros. Gosto de resolver problemas. Gosto de me sentir de dever cumprido. Gosto de ter ideias que ninguém teve. Gosto de ter razão. Gosto que me compreendam. Gosto de conhecer pessoas interessantes. Gosto de pessoas inteligentes. Gosto de uma boa conversa. Gosto de ser diferente. Gosto de por limão em todo o tipo de comida. Gosto de beber café acompanhado de um copo de água. Gosto de ler o jornal na cama. Gosto de internet. Gosto de estar em casa quando está frio. Gosto de ver a minha família junta. Gosto de ver a minha mãe rir. Gosto de me sentir confortável. Gosto de cozinhar. Gosto de comer marisco no verão. Gosto de gatos. Gosto de correr com os meus cães. Gosto de não ter nada para fazer. Gosto de me sentir livre. Gosto de muitas coisas que não me consigo lembrar. Gosto de ti.

Não gosto

Não gosto de muito calor. Não gosto de ventoinhas. Não gosto de Ovas. Não gosto de pudim. Não gosto de whisky. Não gosto de coca-cola. Não gosto de Manga. Não gosto de Papaia. Não gosto de pessoas falsas. Não gosto de falsas humildades. Não gosto de pessoas sem objectivos. Não gosto de mulheres sem sal. Não gosto de mulheres vulgares. Não gosto de mulheres feministas. Não gosto de mulheres machistas. Não gosto de mulheres que se queixam muito. Não gosto que se façam de vitimas. Não gosto que me acusem do que não fiz. Não gosto de falar mal dos outros. Não gosto que me enganem. Não gosto que me façam de parvo. Não gosto que me ignorem. Não gosto de sofrer. Não gosto de ver sofrer ninguém. Não gosto de injustiças. Não gosto de populismos. Não gosto de pessoas sem opiniões. Não gosto que se deixam de influenciar. Não gosto de pessoas obcecadas. Não gosto de pseudo intelectuais. Não gosto do Paulo Portas. Não gosto da Celeste Cardona. Não gosto do Luís Delgado. Não gosto dos programas de Tv da manhã. Não gosto do Herman Sic. Não gosto do Fernando Rocha. Não gosto de viajar com crianças a chorar por perto. Não gosto de andar de mota. Não gosta de cenas radicais. Não gosto do Porto. Não gosto de Pinto da Costa. Não gosto de usar tanga. Não gosto de usar sapatos engraxados. Não gosto que me julguem pela aparência. Não gosto de cabelo curto. Não gosto de pessoas certinhas. Não gosto de pessoas mesquinhas. Não gosto de pessoas incompetentes. Não gosto de juntar dinheiro. Não gosto de trabalhar de manhã. Não gosto de fazer por obrigação. Não gosto de multidões. Não gosto de me sentir só. Não gosto de ter saudades.

Há greves e greves

Mesmo estando em Cabo Verde, tento acompanhar tudo o que se passa em Portugal. Além da Internet, vejo também o noticiário da SIC.

Ao que parece a Caixa Geral de Depósitos esteve hoje em greve. Aliás um óptimo dia para fazer greve, não acha? Mas não é disso que pretendo falar. Nem sequer no transtorno que uma greve no maior banco português causa. De facto, quando se faz uma greve o objectivo é mesmo incomodar, senão para que se faz uma greve?

Esta greve, no maior Banco português, fez-me lembrar o Brasil. No passado verão visitei o Brasil. E fiquei apaixonado. O Brasil é imensamente lindo. Contudo, tem algumas coisas que nem dá para acreditar. Por exemplo, você acredita que, há 15 dias atrás, os maiores bancos Brasileiros estiveram em greve um mês seguido? Você imagina o transtorno causado? Você sabe que lá não existe o sistema Multibanco? Você imagina que perdi dois dias das minhas férias no Brasil, para fazer um simples levantamento, que em Cabo Verde demora 15 minutos? Você acredita que os brasileiros já estão conformados com isto?

Como vê um dia de greve na CGD não é assim tão mau...

A Matemática

Matemática? Bragh! Detesto matemática! É só p’ra crânios! Afirmações deste tipo são comuns nos nossos jovens dos dias de hoje, muitas vezes, produto de preconceitos enraizados na sociedade. De facto, não são só os mais jovens que sofrem deste mal. Grande parte da sociedade vê na matemática um bicho de sete cabeças. Assim, considera-se normal que os miúdos não gostem, não se dediquem nem tenham aproveitamento escolar nesta disciplina. Desta forma, o papel do professor de matemática está cada vez mais dificultado.
Tem-se a ideia de que a matemática é um edifício de técnicas e teoremas. Nada mais natural que esta situação. Pois o ensino da Matemática não tem sido isso mesmo? Um treino intensivo de técnicas, um acumular de noções e conteúdos em tempos que parecem cada vez mais escassos, uma avaliação de aprendizagem que consiste, ainda hoje, essencialmente, em testes e exames escritos? Que ideia diferente poderia ter resultado de tal tratamento?
A matemática tem certamente características próprias, resultantes da sua natureza abstracta, da sua carga simbólica, dos seus métodos rigorosos. Mas será mesmo inevitável que a maioria dos jovens passem por tantas dificuldades nesta disciplina?

Meu querido Diário (II)

Hoje coloquei um aluno na rua. Inevitável. Por vezes, enquanto professores, tomamos decisões que nem sempre queremos. Esta foi uma delas. No entanto, se queremos ser justos e respeitados pelos nossos alunos, temos de tomar decisões difíceis. Mandar para a rua um aluno não me afecta muito. Essencialmente, porque acredito que, pelo menos aqui, funciona. O aluno sente o castigo e nas próximas aulas modifica a atitude. Possivelmente noutros lugares não é assim, o que torna esta questão algo de mais discutível.
Custou-me mandar este aluno para a rua, porque me revi, quando era da sua idade, nas suas atitudes. De facto, ele foi para a rua por uma sucessão de piadas, que por acaso até tinham graça. Quantas vezes eu fui para a rua assim. Quantas vezes eu achei tal decisão injusta...

Passados alguns minutos do aluno sair da sala de aula, vou dar com este aluno, de joelhos, com o caderno no chão a ouvir o resto da aula e a passar tudo o que eu escrevia no quadro (dou as aulas de porta aberta). Claro, que não contive o riso em frente a todos os alunos, o que provocou uma gargalhada geral.

A outra dimensão de Deus

As recorrentes leituras de C.S. Lewis são, para mim, sempre proveitosas. Gostaria de partilhar uma ideia que me ajudou muito a compreender a dimensão de Deus. O conceito tem base bíblica mas não aparece na bíblia. Por isso não aceite isto como uma doutrina. Aliás o que vem a seguir pode ser até bastante polémico.

Pensemos na dimensão de Deus. Que ideia fazemos de Deus? Porque é que para Deus um dia são como mil anos e mil anos como um dia? Será que Deus conhece o nosso amanhã? Como é possível Deus atender centenas de milhões de pessoas no mesmo instante?

A vida vem-nos momento a momento. Um momento desaparece antes de outro surgir. O tempo é assim. Desta forma, tendemos a partir do princípio que esta série temporal – esta ordenação do passado, do presente e do futuro – não só rege a nossa vida, mas a maneira como todas as coisas existem. Há em nós a convicção que o universo e o próprio Deus estão em movimento constante do passado para o futuro, tal como sucede connosco.

È quase certo que Deus é exterior ao tempo e que a sua vida não consiste em momentos sucessivos. Para Deus todos os momentos são presente. Pensem assim: Deus tem toda a eternidade para ouvir uma oração proferida, numa fracção de um segundo, de um piloto de um avião que se despenha em chamas no solo. Sei que é difícil de compreender. Por assim dizer, para Deus ainda é 1200 ou 2005. Se imaginarmos o tempo como uma linha recta ao longo da qual temos de viajar, teremos de imaginar Deus como toda a página em que a linha está traçada. Nós, temos de sair do ponto A da linha antes de chegarmos ao ponto B e não podemos alcançar o ponto C sem termos largado o ponto B. Deus, do alto, ou de fora, ou de toda a volta, contém a linha inteira e vê-a toda.

Deus não têm história. È demasiado real, absolutamente real para ter história. Para Deus não há passado, presente ou futuro. Para Deus todos os momentos são agora (mesmo os que passaram, para nós, há 2000 mil anos ou que irão acontecer, para nós, daqui a 1000 anos!).

Desta forma fica resolvida, para mim, uma outra grande dificuldade que se levanta com esta questão. Repare, toda a gente que crê em Deus, crê que Ele sabe o que nós iremos fazer amanhã. Mas se ele sabe que vou fazer isto ou aquilo, como eu posso ter a liberdade de fazer uma coisa diferente?

Ainda aqui a dificuldade está em pensarmos que Deus avança, como nós, ao longo da linha temporal. Mas para Deus o nosso amanhã é para Ele agora. Todos os dias para Ele são agora. Não se lembra que de que ontem fizemos isto ou aquilo : vê-nos simplesmente a fazê-lo.

Ele não prevê que amanha façamos determinadas coisas: vê-nos pura e simplesmente a fazê-las, porque se para nós o amanhã ainda não chegou, para Ele já. Deus não sabe dos nossos actos antes de os praticarmos. Mas o momento que os praticamos é já “agora” para Ele.

Não sei se fui claro a transmitir a ideia. Usei quase sempre o texto de C.S. Lewis. Para mim, esta ideia assume uma grande profundidade. Mas admito que seja polémico.

Meu querido diário

O calor está insuportável. Não sei se este calor se pode quantificar em graus, mas parece-me que estão uns 50 graus. Por causa disto, não tenho dormido bem. Contudo, a vida continua. Ontem à noite fui comer uma lagosta. Ainda não foi desta que fiquei um apreciador. Este sábado tem sido bastante monótono. Há um problema conexão da internet e na Tv só passa futebol. Três jogos seguidos do campeonato Inglês. Mesmo para mim, é demais. O pior é que não temos escolha, pois todos os canais estão a dar o mesmo. Ainda pensei ir passear, mas o calor não deixa. O curioso é que apesar de estar numa ilha, não tenho uma praia aqui perto! Resta-me ler e escrever um pouco.

As novas tendências pedagógicas

Por esta altura, em Cabo Verde, faz um calor insuportável. Agora imagine dar 5 aulas de matemática a turmas de 44 alunos. Cansativo. O ensino faz-se apenas com um pau de giz e um quadro. Não existe manual, computadores, laboratórios, giz de côr,...No entanto, deixe-me dizer que é extremamente reconfortante ser professor por aqui, porque os alunos ainda são respeitadores, trabalhadores e interessados.Em contrapartida, no nosso Portugal, as novas tendências de ensino apontam no sentido em que o aluno tem de achar a escola algo divertido. Assim não se devem fazer exercícios, os alunos não devem memorizar, não se deve dar trabalhos de casa, não devem ir para a rua quando desrespeitam o professor, ...Felizmente tenho a sorte de estas novas tendências ainda não terem chegado aqui. E você, certamente, que percebe porquê.Mas alguém acredita que sem esforço, sem disciplina, sem memorização, sem prática e força de vontade se consegue aprender alguma coisa?

A lógica da Trindade de deus

No outro dia pensava na lógica da trindade de Deus. A esse propósito, aqui fica esta pequena reflexão, baseada, em grande parte, nas ideias de C.S Lewis.Utilizando uma única dimensão, só podereis traçar uma linha recta. Utilizando duas, podereis traçar uma figura, digamos um quadrado. E um quadrado consiste em quatro linhas rectas. Utilizando três dimensões, podereis construir um sólido, um cubo, por exemplo. E um cubo consiste em seis quadrados. Repare que à medida que avançamos para planos mais reais e mais complicados, não abandonamos as coisas que encontrámos nos planos mais simples. Estão apenas combinadas de maneiras novas, as quais não poderíamos imaginar se só tivéssemos conhecimento dos planos mais simples.O principio de Deus abrange o mesmo princípio.O plano humano é um plano simples e bastante vazio. Uma pessoa é um ser (uma personalidade), e duas pessoas são dois seres distintos (duas personalidades distintas). Como em duas dimensões, por exemplo numa folha de papel, um quadrado é uma figura e dois quadrados duas figuras distintas.Na dimensão de Deus, ainda encontramos lá personalidades, mas combinadas de maneiras novas que nós, que não vivemos nesse plano somos incapazes de imaginar. Na dimensão de Deus, encontra-se um ser que sendo três pessoas permanece um Ser, assim como um cubo, sendo seis quadrados, permanece um cubo.Evidentemente que não podemos conceber um ser assim, do mesmo modo, que se fossemos feitos para perceber apenas duas dimensões no espaço, nunca poderíamos imaginar um cubo no espaço.

Comunicação

Ouvi com muita atenção o nosso Primeiro Ministro na sua comunicação ao país. A pretexto do caso Marcelo, de que nem falou, conseguiu ter todas as atenções. Apesar de não ter havido direito ao contraditório, esteve muito bem. Aliás, todos nós sabemos que a “conversa” é o seu ponto forte. Na aflição, fez promessas e uma excelente propaganda.Ao que parece, o discurso de Santana Lopes foi antecipado para as 20 horas porque um assessor lembrou-se que o horário anterior coincidia com a Quinta das Celebridades. Ainda bem que o fez, porque senão corria o risco que os portugueses pensassem que a Quinta tinha mais um concorrente. Será que não o incomoda a facilidade com que podemos imaginar o Nosso Primeiro Ministro na Quinta das Celebridades?E é precisamente neste ponto que faz sentido citar outro grande vulto da actualidade ,José Castelo Branco: “No mundo, há dois tipos de pessoas: os que mamam e os que são mamados!”.

Malucos à parte

Hoje fui à praia. Melhor, hoje fui ver o mar. No regresso, um maluco fez questão de me acompanhar. No minimo, incomodativo. O que me consola é que os malucos não têm noção das figuras que fazem. Talvez por isso sejam mais felizes que nós.

Bem Vindos

Olá caros amigos. Obrigado por visitarem este balde de lixo. Se esperam encontrar aqui algo de interessante estão completamente enganados. Aqui, quanto muito, encontrarão lugares comuns, textos roubados e, uma vez por outra, rascunhos de coisas que até têm alguma piada.

Espero que gostem. Ou não.