A outra dimensão de Deus

As recorrentes leituras de C.S. Lewis são, para mim, sempre proveitosas. Gostaria de partilhar uma ideia que me ajudou muito a compreender a dimensão de Deus. O conceito tem base bíblica mas não aparece na bíblia. Por isso não aceite isto como uma doutrina. Aliás o que vem a seguir pode ser até bastante polémico.

Pensemos na dimensão de Deus. Que ideia fazemos de Deus? Porque é que para Deus um dia são como mil anos e mil anos como um dia? Será que Deus conhece o nosso amanhã? Como é possível Deus atender centenas de milhões de pessoas no mesmo instante?

A vida vem-nos momento a momento. Um momento desaparece antes de outro surgir. O tempo é assim. Desta forma, tendemos a partir do princípio que esta série temporal – esta ordenação do passado, do presente e do futuro – não só rege a nossa vida, mas a maneira como todas as coisas existem. Há em nós a convicção que o universo e o próprio Deus estão em movimento constante do passado para o futuro, tal como sucede connosco.

È quase certo que Deus é exterior ao tempo e que a sua vida não consiste em momentos sucessivos. Para Deus todos os momentos são presente. Pensem assim: Deus tem toda a eternidade para ouvir uma oração proferida, numa fracção de um segundo, de um piloto de um avião que se despenha em chamas no solo. Sei que é difícil de compreender. Por assim dizer, para Deus ainda é 1200 ou 2005. Se imaginarmos o tempo como uma linha recta ao longo da qual temos de viajar, teremos de imaginar Deus como toda a página em que a linha está traçada. Nós, temos de sair do ponto A da linha antes de chegarmos ao ponto B e não podemos alcançar o ponto C sem termos largado o ponto B. Deus, do alto, ou de fora, ou de toda a volta, contém a linha inteira e vê-a toda.

Deus não têm história. È demasiado real, absolutamente real para ter história. Para Deus não há passado, presente ou futuro. Para Deus todos os momentos são agora (mesmo os que passaram, para nós, há 2000 mil anos ou que irão acontecer, para nós, daqui a 1000 anos!).

Desta forma fica resolvida, para mim, uma outra grande dificuldade que se levanta com esta questão. Repare, toda a gente que crê em Deus, crê que Ele sabe o que nós iremos fazer amanhã. Mas se ele sabe que vou fazer isto ou aquilo, como eu posso ter a liberdade de fazer uma coisa diferente?

Ainda aqui a dificuldade está em pensarmos que Deus avança, como nós, ao longo da linha temporal. Mas para Deus o nosso amanhã é para Ele agora. Todos os dias para Ele são agora. Não se lembra que de que ontem fizemos isto ou aquilo : vê-nos simplesmente a fazê-lo.

Ele não prevê que amanha façamos determinadas coisas: vê-nos pura e simplesmente a fazê-las, porque se para nós o amanhã ainda não chegou, para Ele já. Deus não sabe dos nossos actos antes de os praticarmos. Mas o momento que os praticamos é já “agora” para Ele.

Não sei se fui claro a transmitir a ideia. Usei quase sempre o texto de C.S. Lewis. Para mim, esta ideia assume uma grande profundidade. Mas admito que seja polémico.

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