Educai-os ou suportai-os!

Quando eu fui aluno do ensino básico e secundário era um pouco indisciplinado. O palhaço da turma. Quase todos os dias vinha para a rua. Porém, nunca fui mal educado e até sentia uma certa simpatia dos professores por mim. Além disso, conseguia tirar boas notas nos testes o que aliviava a pressão em casa. Contudo os professores teimavam em baixar-me a nota por causa do comportamento. Recordo-me de nessas alturas discutir com os professores e defender que os comportamentos não deviam ser avaliados. A minha tese era esta: Se aprendo, mesmo não estando com atenção, o professor não tem nada a ver com isso. Imagine que é essa a minha maneira de aprender!

Agora que estou no papel de professor vejo-me confrontado com a situação de avaliar comportamentos. Se a início tinha dificuldade em compreender tal avaliação, agora compreendo e aceito-a perfeitamente. Ora se queremos que os nossos alunos aprendam mais que a simples matéria, então temos que avaliar mais do que os conhecimentos científicos. Se exigimos que os alunos tenham um comportamento adequado então também teremos que o avaliar.

Existe muitas vezes a ideia de que a disciplina não deve ser imposta aos alunos, devendo ser instaurada de uma forma que eles entendam o sentido e a razão para o qual é necessária. Contudo, se este princípio é válido para alunos mais velhos, para alunos mais novos, as coisas tornam-se mais complicadas... De facto não cabe às crianças definir as regras da disciplina. É demasiado para elas. Ao professor é que cabe enunciá-las e impô-las. Pretendo deixar marcas positivas nos meus alunos, que têm que ir muito mais além do que os simples conhecimentos matemáticos...

A diferença entre os gajos e as gajas

Durante os 6 anos que passei em Lisboa a estudar fui a muitas festas universitárias. Como vivia numa residência universitária, quando saíamos, íamos em grandes grupos. Foi nessas festas que me apercebi da real diferença entre homens e mulheres.

Os homens quando estão juntos e reparam num grupo de raparigas, normalmente, combinam entre si quem fica com quem. Normalmente, não há grandes problemas em chegar a acordo. Utiliza-se a técnica do mais feio, para a mais feia e assim sucessivamente. Sempre no maior espírito de solidariedade.

Já as mulheres quando estão em grupo e reparam num grupo de rapazes, quase sempre, escolhem o mesmo rapaz como o seu alvo. O espiríto de competição apodera-se delas. E a partir daí é um desfile de exibicionismo e atrevimento. Quase sempre a mais atrevida fica com o rapaz em causa. As outras com quem aparecer.

Também não se pode ter tudo: as férias e ordenado!

Hoje, ser professor é mais do que um desafio é um acto de coragem. As condições de vida dos professores degradaram-se, ninguém duvide. Aliás, toda a gente reconhece que o ensino está em crise. Parece-me óbvio: se quisermos um melhor ensino, temos que ter melhores professores. Ter melhores professores implica dar à profissão condições mais atractivas.

O único critério para a colocação de professores é a média. Um número. O computador trata do resto. Desta forma, a colocação de professores faz-se sem o mínimo de subjectividade. Mas isto acontece em mais alguma profissão? Mas há alguma empresa que recruta alguém sem fazer uma entrevista, sem conhecer os candidatos, sem saber das suas motivações? Todas essas coisas que levam a sentir afinidades ou repulsas, prazer ou mal estar, tudo o que mostra que somos um ser humano, tudo o que traduz essa estranha vocação de professor, tudo isso é pura e simplesmente ignorado.

Defendo que se premei a qualidade. Por isso não me choca que os professores sejam avaliados, aliás, é o que acontece em qualquer empresa. Como sabemos a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Aliás, muitos professores gostam desta profissão por isso mesmo. O receio de ser despedido ou de não ser promovido de forma automática é que parece justificar esse apego desesperado à segurança por parte de tantos professores. Constato que é muito fácil cair na rotina, no comodismo, no facilitismo. Mas será isso benéfico para o ensino? Pessoalmente, para ser feliz, eu preciso que reconheçam o valor ou a ausência de valor do meu trabalho. Embora não seja isso que me faz funcionar. Embora eu não procure agradar, preciso que os outros me digam sinceramente o que pensam do que eu faço.

Português versus Crioulo

A língua oficial de Cabo Verde é o português. Contudo, é uma língua que só é usada em actos oficiais ou formais. Quase ninguém fala português informalmente. Pode-se dizer que a língua materna seja o Crioulo. As crianças só aprendem a falar português quando entram para a escola primária. Por isso, o português funciona como uma segunda língua língua. De facto, nem chegam a ser bilíngues.

Apesar de já estar em Cabo verde há um ano ainda não sei falar crioulo. Entendo algumas coisas. Mas falar, ainda não. Talvez porque não tenho necessidade de aprender, visto toda a gente me entender perfeitamente. Além disso, as pessoas são simpáticas e, normalmente, esforçam-se em falar português comigo.

O crioulo é uma linguagem simples, cheia de palavras em português ligeiramente modificadas. Não existe uma gramática. Não existem muitas regras. Porém tem um senão. O crioulo não é uniforme em todas as ilhas de Cabo verde. Há diferenças substanciais. Outra dificuldade é a escrita, pois cada um escreve como fala.

Avaliação

Ontem recebi uma encarregada de educação de uma aluna, da minha direcção de turma, muito interessada no acompanhamento escolar da filha. A aluna em questão é uma óptima aluna a matemática. Tirou 18 no teste. Tem uma boa participação na aula. Faz os T.P.C.s. Tem um comportamento exemplar. Por isto tudo foi com enorme surpresa que recebi a notícia que ela tinha tirado um 5 no teste da disciplina de Estudo Científico. Chamei a aluna e tentei perceber o porquê dessa nota. A sua timidez não permitiu tirar grandes conclusões. No entanto, a mãe dela, fez-me algumas queixas do professor. Além disso, confirmou-me que a filha tem graves problemas de audição o que não permitem captar tudo o que se passa na aula. Pelo menos naquela. Mais tarde, reparei que havia outros alunos na mesma situação. Por exemplo, o meu melhor aluno a matemática também teve um 5 no teste de Estudo científico.Como se permite que bons alunos tenham estas notas? Como não se detecta nas aulas que o aluno está com dificuldades? Porque se resume tudo a um teste?

Esta disparidade de notas fez-me reflectir sobre a avaliação. De facto, umas vezes, cometemos erros de avaliação porque não conhecemos bem os nossos alunos, outras vezes porque não usamos os critérios mais adequados. Para os alunos, tudo passa pela avaliação. Mas avaliação não deve apenas traduzir um número, uma nota. É necessário que se faça uma avaliação aula a aula, capaz de recolher informações sobre os alunos, mas também capaz de fornecer informações aos alunos de modo a poderem auto-regularem as suas aprendizagens. Por isso a tarefa de avaliar é tão importante e difícil. O acto de avaliar não se resume apenas à recolha de informações sobre os alunos é necessário também saber interpretá-los.

Apenas por amor

A minha sobrinha acaba-me de me perguntar se pretendo casar, ter filhos, constituir família. A pergunta é recorrente. Até percebo porquê. De facto, não é só a minha sobrinha. A minha mãe diz que acha que já não caso. Que ninguém me quer. Que passei da idade. Será mesmo assim? Espero que não. Espero casar e ter filhos. No entanto, o casamento não me diz nada se não for com a mulher que eu ame. Por isso, por muito que pressionem, não me conseguirão empurrar para nenhuma situação que não queira. Nem que não tenho de casar ou constituir família. Isso não me assusta. O que me assusta é não ser feliz. Casado ou não. Não tenho medo em ficar sozinho. Mas claro que penso nisso. Claro que penso. Não vivo obcecado. Talvez preocupado. Não me tornei menos exigente, muito menos prescindi de algum dos meus princípios. Nunca. No entanto, confesso que mudei de atitude em algumas coisas. Estou mais maduro. Já não fico no pedestal à espera que alguém me ganhe. Quero lutar por alguém. Quero ganhar alguém. Estou disposto a amar. A me entregar. A me expor sem medo de perder. A conquistar. A cativar.Tudo por amor. Claro.

Parágrafo solto

Dou a aula a todos os alunos, porque eles são todos da mesma turma. Mas cada aluno compreende/aprende de maneira diferente de outro aluno. Cada um tem a sua maneira de aprender e dar aulas é tão simples como falar vinte e tal línguas ao mesmo tempo. O ideal seria dar tratamento diferente para alunos diferentes. Atingir os alunos nos seus diferentes modos de funcionamento é um dos maiores desafios de um professor. Não se pode desinteressar-se daquele que achou a aula fraca e pautar a aula por aquele que achou a aula muito boa senão arrisca-se apenas a que os bons alunos se tornem melhores e que os mais fracos se tornem piores. Não posso esquecer que sou responsável pelo progresso de cada um, tanto do fraco como do brilhante.

Treuze

Tudo o que faço na aula está a ser observado pelos meus alunos. Estou em directo. Actuo sem rede. As minhas mínimas reacções são observadas, os meus erros são imediatamente apontados.

Por uma vez, disse numa aula, “treuze” em vez de treze. Valeu-me uma alcunha que me persegue por todo o São Nicolau. O “treuze”. Todos os alunos, fora da sala de aula, me chamam “treuze”. Apesar de ter origem numa gaff minha, confesso que até acho alguma piada a este nominho (alcunha em crioulo). Até ver.

Sinto que os alunos têm um grande carinho por mim. Talvez porque a minha relação com eles, fora da aula, seja também diferente. Jogo futebol com eles nos intervalos. Falo com eles de outras coisas que não a escola. Meto-me com eles quando o Porto perde. Contudo, há uma coisa que já me começa a irritar. A obsessão deles pelo meu cabelo. No percurso até à sala de aula o meu cabelo é completamente estropiado. Especialmente quando estou a abrir a porta da sala de aula com a chave. Nesse momento estou de costas para os alunos que me rodeiam, e eles, anonimamente, são incapazes de resistirem ao meu cabelo. Chego até a chatear-me e a pedir um metro de distância enquanto abro a porta. Enfim...

Escrever sem pensar

Tinha pensado escrever um post sobre Cabo Verde e as suas particularidades. Gostaria de estar a escrever sobre as promiscuidades existentes. A cultura de relacionamentos. A dissertar sobre as suas causas e consequências. Iria dar exemplos. Alguns muito engraçados. Tenho a certeza que seria muito interessante e que todos gostariam de ler. Mas, hoje não me apetece ordenar tantas ideias. Escrever frases pensadas. Aliás, devia ser sempre assim. Escrever sem pensar. De uma vez. Sem correcções.

Proibido fumar

O governo tem intenção de fazer uma lei que visa proibir o tabaco em locais públicos fechados e locais de trabalho. Ora aí está uma boa notícia. Porque raio é que eu, sendo não fumador, tenho de fumar o fumo dos outros? Porque tenho de me sujeitar ao incómodo de ficar com a roupa e cabelo a cheirar a fumo? Porque tenho de ser eu a mudar de lugar quando o fumo de um cigarro está a incomodar-me? Será que os fumadores não sabem que a sua liberdade termina quando interfere com a liberdade dos outros? Será que os fumadores não sabem que quem está mal deve-se mudar? Ou eles não sabem que estão mal?

Jorge Palma

Já devem ter-se apercebido que gosto muito do Jorge Palma. Descobri Jorge Palma aos 17 anos. Primeiro estranhei, depois entranhei. Vi mais do que 20 concertos ao vivo e tenho quase todos os seus discos. Não consigo explicar tanto devoção. A verdade é que há muita gente a cantar, mas só o Palma me consegue falar pela música.

Ao que parece vai sair um novo disco. Já ouvi dizer que não está grande coisa. Mas, como fã incondicional, não acredito. Para mim é e continuará a ser o melhor. "O Palma é o último de uma classe de artistas que não volta mais, o último dos poetas que tocam na alma de quem quer pensar, o último dos músicos que tocam por prazer de tocar, tocando em cada um de nós de uma forma diferente".

As minhas manhãs

Diz o meu pai que é de manhã que se faz o dia. Não concordo nada. No meu caso as manhãs continuam muito curtas. Repare. Acordo por volta das 8 horas com o barulho das obras aqui no andar de baixo. Às vezes também acordo com o barulho das mulheres a falar ou com o som do pilão a "cochir" milho. Ligo a internet e, ao som do Jorge Palma ou de alguma música brasileira, fico até às 9 horas e meia a ler os jornais e os meus blogues favoritos . Depois vou tomar banho. Visto-me e como um iogurte com uma banana. Muitas vezes não como nada. Ligo a TV, mas como não dá um programa de jeito de manhã, desligo-a novamente. Com isto tudo já são 10h45. Vou à rua deixar o lixo e aproveito para apreciar a vista e ver as pessoas nas ruas. Volto ao quarto. Vejo que aulas vou dar e preparo as aulas. São 11horas e meia. Volto para a cozinha. Ligo a TV. Preparo o almoço e, ao mesmo tempo, oiço o horrível SIC 10 horas. Enquanto a comida está no lume, lavo a loiça do jantar do dia passado. Entretanto já é meio dia e enquanto ponho a mesa e vigio a comida, assisto ao Jornal da tarde da SIC. Por volta do meio dia e meia a Helga chega e nós almoçamos. Ela conta-me as novidades da escola e eu não lhe conto nada porque não tenho nada para contar. Levanto-me da mesa por volta das 12h45, ficando com 12 minutos para me arranjar, lavar os dentes e ver se tenho algum e-mail. São 12h57 e vou para a escola. Chego à escola. Toca o sino das 13 horas, e acaba a minha manhã e fico com a sensação que o dia ainda nem começou.

Confissões de um professor

Um dos problemas com que me confronto muitas vezes é explicar o simples. Acho que tenho mais dificuldades em explicar o simples do que o mais complexo. Há coisas que para mim são tão simples que nem me preocupo em saber explicar, porém são as que exigem maior preparação. Confesso que a situação que mais me incomoda numa aula é quando o aluno, apesar de se esforçar, não percebe. Fico completamente frustrado pois não consigo achar a forma mais adequada para ele perceber. Explico duas, três vezes e o aluno não consegue compreender. Nestas situações sinto-me incompetente.

Muitas vezes a solução passa por pedir a outro aluno que já percebeu, que explique a este aluno. E, não é que funciona! Parece que estava a falar uma linguagem diferente e que alguém a traduziu. Será que já me esqueci de falar a linguagem das crianças?

Contudo, também há alunos que não conseguem, não querem aprender. Parece que os estudos não são para eles. Muitas vezes estes alunos estão fisicamente na aula mas tenho duvidas se realmente estão lá. Quando os alunos não têm sucesso escolar diz-se que os alunos têm dificuldades de aprendizagem. Mas não serão os professores e a escola que estão em dificuldades?

Yasser Arafat

Yasser Arafat , finalmente, morreu. Apesar de ter sido Nobel da paz,não tenho nenhuma simpatia especial por ele. Foi um terrorista assumido durante 20 anos da sua vida. Nos últimos tempo apoiava e mantinha grupos terroristas como o Hamas e a Al Aqusa. Mais, foi um ditador corrupto que acumulou uma fortuna enorme (por exemplo, pagava uma mesada de 150 mil euros mensais à sua mulher, em Paris), ao mesmo tempo ia levando o seu povo a viver na miséria, em Gaza e na Cisjordânia. Sempre fingiu querer a paz para a rejeitar repetidamente cada vez que ela se aproximava.

Com a sua morte, dizem que se abre uma janela de oportunidade para a resolução do conflito do médio oriente. Mas, ao que me parece, ainda não vai ser desta, a não ser que Jesus volte.

Carta de uma aluna

O prometido é devido. Por isso, em baixo, está reproduzida a carta que uma aluna me enviou num destes dias. Não posso deixar de partilhar este momento, porque me causou um enorme sorriso. A menina que escreveu foi minha aluna o ano passado. Este ano não dou aulas à turma dela. Desde o ano passado que percebo que ela tem um um fraquinho por mim, pois estava sempre no meu caminho por onde quer que eu fosse. Esta carta foi-me entregue por uma outra colega dentro de um envelope fechado. Não li a carta à frente de ninguém respeitando o pedido expresso na carta. E, como é óbvio, também não lhe respondi. Mas já a encontrei na rua e disse-lhe que tinha gostado de ler a carta que me tinha enviado. Ela ficou super envergonhada e muito embaraçada. O que é certo é que agora poucas as vezes a encontro no meu caminho. Acho que me abandonou...

“João Narciso eu estou a te escrever estas duas linhas de carta para pedir-te desculpas pelas cartas que eu andei a te escrever. Eu sou muito sonhadeira e pensei muito alto, tu nuncas ias, gostar de mim, para ti ainda sou uma criança, mas prometo que vou tentar te esquecer por mais duro que seja. Espero que me perdoas e que continua a ser meu amigo. Me responde essa carta se tu continua a gostar como a tua amiga e por favor não lê essa carta à frente de ninguem. Me desculpa por favor João Narciso. Não esqueças de responder-me, essa carta é muito importante para mim.

O verdadeiro amigo não é aquele que nos alegra com mentiras mas sim aquele que nos alegra com verdades.

Sou a xxxxxx turma 9ºD"

O problema da água em São Nicolau

Confesso que já tinha saudades da chuva. Continua a chover em São Nicolau. Parece um dia de inverno de Portugal. Faz um pouco mais frio e está um vento que sacode as árvores de uma forma violenta. Sente-se o cheiro da terra molhada. Apesar da terra estar sedenta de água existem algumas poças na rua que servem de brincadeira entre os miúdos.

Imagine o que é viver sem água na torneira. De facto, a água só é distribuída na rede uma vez por mês. No entanto, quase todas as pessoas têm um depósito de água nas suas casas, que dá pelo menos para uma semana. Assim, as pessoas têm de ir buscar água à fonte todos os dias de manhã. As mulheres e crianças desempenham essa tarefa. Desde muito novas que as pessoas estão habituadas a isto, e de alguma forma, esta tarefa é também um acto social. De manhã é normal haver uma grande fila de pessoas para tirar água da fonte e ver as mulheres carregando bidões de 20 litros ou mais á cabeça. Aqui o banho toma-se com um balde, e toda a água é aproveitada sem desperdício. Eu tenho a sorte de viver numa pensão, o que me permite ter água sempre e de até ter água quente no chuveiro. Devo ser dos poucos com esse privilégio pois o dono da pensão nunca deixa a água acabar nos depósitos, comprando por mês alguns milhares de litros de água.

Além do problema da água nas casa das pessoas, existe o problema da água para a agricultura. Aqui a coisa assume dimensões ainda mais preocupantes. São Nicolau é uma ilha rural. Sem água não há agricultura, não há trabalho e, em última análise, não há comida. Quando chove as pessoas ficam todos entusiasmadas e semeiam milho e outras culturas. Tudo nasce e fica verde. Contudo, como as chuvas são esporádicas e muito raras, passadas umas semanas tudo seca, causando uma enorme frustração nas pessoas. Não é fácil.

Ao que parece amanhã também vai chover. Boa notícia , não acha?

Todo o mundo quer ir para o céu...mas não agora!

Hoje de manhã fui à igreja Nazareno. Apesar da igreja ser pequena, com cerca de 30 pessoas, tem uma grande vida e transmite uma enorme alegria. O louvor é o espaço privilegiado e não se consegue ficar indiferente às poderosas vozes que entoam lindos cânticos. A mensagem de hoje foi sobre a segunda vinda de Jesus Cristo. A este propósito lembrei-me de uma frase, politicamente incorrecta mas verdadeira na maioria dos casos, que diz “todo o mundo quer ir para o céu...mas não agora”. Talvez seja esse o nosso problema. E nesse caso, acho que é um problema sério.

Experiências da minha vida

As histórias do meu pai preenchem o meu imaginário. Talvez mais do que isso. Hoje, recordava uma história que o meu pai me contou dezenas de vezes sempre como fosse a primeira vez. A história, como sempre, tem um ensinamento, que hoje quero, assumidamente, por em causa.

O meu pai fez a tropa à cerca de 50 anos atrás. Apesar do meu pai não ter ido para nenhuma guerra, foi sujeito, enquanto militar, a manobras militares, que segundo ele, eram treinos muito parecidos com uma guerra real.

Após estar três dias fora do quartel, numa dessas manobras, conta o meu pai, que, quando ia na caminhada a pé de regresso para o quartel, sentiu uma fome imensa. Por sorte, encontrou uma cebola perdida no chão de um dos campos que percorrera até chegar ao quartel. Apesar da fome ser muita, o meu pai conta que guardou a cebola dentro da mochila, pois lembrou-se que tinha um bocado de pão duro dentro do cacifo no quartel.

Assim, conta ele que, quando chegou ao quartel, foi logo buscar o pão duro e bolorento que tinha guardado e que, juntamente com a cebola, fez a melhor refeição da sua vida. Pode pensar que estou a exagerar, mas o meu pai afirma, que nunca na vida comeu algo que lhe soubesse tão bem. Pão duro e bolorento com cebola e muita fome. Mais, já experimentou, por variadas vezes, repetir a ementa, mas nunca mais conseguiu ter semelhante sensação. Pelo contrário.

A história tem alguma lógica. Podemos até generalizá-la a muitas outras coisas. Eu por exemplo, sempre com esta história em mente, tento sempre obter o máximo prazer das coisas. Por exemplo, espero ter fome para poder comer. Ou aguento o máximo sem fazer chichi para depois sentir um maior prazer quando fizer. (...) Pode achar estranho, mas são experiências interessantes que valem a pena fazer.

No entanto, nesta minha busca do prazer tive, e continuo a ter, uma grande decepção. Beber água. De facto, por muita sede que tenha, beber água não me satisfaz. Pelo contrário, fico cheio mas não tiro daí nenhum prazer. Não sei se já passou pela mesma situação, mas a mim acontece-me sempre que tento saciar a minha sede. Uma sede imensa nunca é correspondido, enquanto bebemos água, por um prazer imenso. Uma desilusão. Chego sempre à conclusão que não vale a pena ter sede para beber água. Não compensa. Experimente e vai ver que tenho razão.

O que gosto

Gosto de sonhar quando já estou meio acordado. Gosto de acordar sem sono. Gosto que me digam bom dia. Gosto de sentir a brisa da manhã. Gosto de ver as pessoas a passar na rua. Gosto de ver crianças a brincar. Gosto de brincar com os meus sobrinhos. Gosto de ser criança. Gosto de rir sem motivo. Gosto de pessoas bem humoradas. Gosto de pessoas sinceras. Gosto de pessoas com personalidade. Gosto das letras do Jorge Palma. Gosto das entrevistas do Lobo Antunes. Gosto de ler C.S.Lewis. Gosto de reler o principezinho. Gosto de filmes com histórias de mafiosos. Gosto de pessoas corajosas. Gosto de pessoas perseverantes. Gosto que me cativem. Gosto de mulheres que lutem por mim. Gosto de mulheres decididas. Gosto de mulheres misteriosas. Gosto de olhar nos olhos de uma mulher. Gosto de cabelos compridos. Gosto dos meus pés. Gosto de passear. Gosto de ouvir o mar de noite. Gosto do Brasil. Gosto de música brasileira. Gosto de São Nicolau. Gosto das pessoas de São Nicolau. Gosto dos meus alunos. Gosto de ajudar os outros. Gosto de resolver problemas. Gosto de me sentir de dever cumprido. Gosto de ter ideias que ninguém teve. Gosto de ter razão. Gosto que me compreendam. Gosto de conhecer pessoas interessantes. Gosto de pessoas inteligentes. Gosto de uma boa conversa. Gosto de ser diferente. Gosto de por limão em todo o tipo de comida. Gosto de beber café acompanhado de um copo de água. Gosto de ler o jornal na cama. Gosto de internet. Gosto de estar em casa quando está frio. Gosto de ver a minha família junta. Gosto de ver a minha mãe rir. Gosto de me sentir confortável. Gosto de cozinhar. Gosto de comer marisco no verão. Gosto de gatos. Gosto de correr com os meus cães. Gosto de não ter nada para fazer. Gosto de me sentir livre. Gosto de muitas coisas que não me consigo lembrar. Gosto de ti.