O problema da água em São Nicolau

Confesso que já tinha saudades da chuva. Continua a chover em São Nicolau. Parece um dia de inverno de Portugal. Faz um pouco mais frio e está um vento que sacode as árvores de uma forma violenta. Sente-se o cheiro da terra molhada. Apesar da terra estar sedenta de água existem algumas poças na rua que servem de brincadeira entre os miúdos.

Imagine o que é viver sem água na torneira. De facto, a água só é distribuída na rede uma vez por mês. No entanto, quase todas as pessoas têm um depósito de água nas suas casas, que dá pelo menos para uma semana. Assim, as pessoas têm de ir buscar água à fonte todos os dias de manhã. As mulheres e crianças desempenham essa tarefa. Desde muito novas que as pessoas estão habituadas a isto, e de alguma forma, esta tarefa é também um acto social. De manhã é normal haver uma grande fila de pessoas para tirar água da fonte e ver as mulheres carregando bidões de 20 litros ou mais á cabeça. Aqui o banho toma-se com um balde, e toda a água é aproveitada sem desperdício. Eu tenho a sorte de viver numa pensão, o que me permite ter água sempre e de até ter água quente no chuveiro. Devo ser dos poucos com esse privilégio pois o dono da pensão nunca deixa a água acabar nos depósitos, comprando por mês alguns milhares de litros de água.

Além do problema da água nas casa das pessoas, existe o problema da água para a agricultura. Aqui a coisa assume dimensões ainda mais preocupantes. São Nicolau é uma ilha rural. Sem água não há agricultura, não há trabalho e, em última análise, não há comida. Quando chove as pessoas ficam todos entusiasmadas e semeiam milho e outras culturas. Tudo nasce e fica verde. Contudo, como as chuvas são esporádicas e muito raras, passadas umas semanas tudo seca, causando uma enorme frustração nas pessoas. Não é fácil.

Ao que parece amanhã também vai chover. Boa notícia , não acha?

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