Os testes

Ontem dei os testes no 8º ano. Quatro horas seguidas a vigiar os alunos. O que é uma grande seca. O relógio parece que não avança. Pelo menos para mim. Mas, o mais chato vem agora. A correcção. 4 turmas. 160 testes. Vai ser um fim de semana em cheio.

Contudo, enquanto vigio os testes, acabo por observar coisas muito interessantes. Uma delas é o uso do corrector. Os alunos adoram usá-lo. Acho que até se enganam de propósito. Quem fica a perder são os, dois ou três, donos dos correctores. Porém, nunca vi um aluno recusar emprestar, o que quer que fosse, a um colega.

A este propósito dos testes, recordo-me da primeira vez que usei cábulas na minha vida. 8º ano, teste de biologia. As cábulas eram daquelas pequeninas que se colocam na palma da mão. A verdade é que nem as consegui usar de tão nervoso que estava. O pior foi quando o professor foi recolher o meu teste, fui um dos últimos a sair, e me pediu para abrir a mão e mostrar o que estava a esconder. Recordo-me perfeitamente de ele olhar para mim e dizer – Fecha a mão e não digas nada a ninguém.

Talvez o meu amigo esteja certo

No outro dia, dizia-me um amigo americano que as mulheres só querem homens com poder e/ou com dinheiro e/ou com fama. Argumentei contra. Disse-lhe que possivelmente ele tinha tido más experiências e que nem todas as mulheres são assim.No entanto, não posso deixar de concordar com ele em parte. De facto, o que faz mover os homens é a ambição de ter poder. Nem que seja um poder relativo, sobre qualquer coisa ou grupo. Sob diversas formas. Através de dinheiro, de um emprego, de bom ou mau aspecto, de humor ou charme, de simpatia ou autoridade, de luxo ou bens materiais, de uma posição social ou um estilo de vida,... Esta procura de poder talvez tenha que ver com a necessidade de satisfazer o nosso eu, através de mulheres ou de elogios (vaidade, talvez), na procura desesperada da felicidade. Talvez seja por isso que existem tantos frustrados e tantas infidelidades. Não sei. Talvez.

Desabafos (II)

Lembro-me de, quando era criança, pensar que não tinha problemas. Melhor, os meus problemas eram, apenas, os problemas outros. Pensava então que se os outros não tivessem problemas eu também não teria. Hoje, além dos problemas dos outros, já tenho os meus. E, estes, chegam. Possivelmente, agora os meus problemas serão também os problemas de alguém. Porém, faço por isso não acontecer, porque sinceramente sei que os problemas de cada um são mais do que suficientes. Chego mesmo à conclusão que, por vezes, a ignorância, de certas coisas, faz de nós pessoas mais felizes. Não quero dizer que não se deva partilhar problemas e pedir ajuda. Claro que se deve. Mas só no caso de daí advir algum beneficio, para nós ou para o outro. Se não, num acto altruísta, mais vale ser egoísta e ficar com os problemas só para nós. Tenho dito.

As propinas

Acabo de sair de uma reunião de directores de turma, com o fim de esclarecer algumas questões relativas ao pagamento de propinas. Sim, porque aqui, apesar (ou por isso) de Cabo Verde ser um país pobre os alunos que querem estudar pagam propinas. Desde o 7º ano até ao 12º ano. As propinas variam entre os 12 e 180 Euros anuais. O critério é o rendimento do agregado familiar. Ou melhor, deveria ser, mas, de facto não é. À escola interessa ganhar dinheiro, pois é deste dinheiro que a escola faz o seu orçamento. Assim, considera-se como agregado familiar os que estão a viver em casa e os, eventuais, pais emigrantes (mesmo que vivam com outra família e/ou que não enviem dinheiro). A Situação é de facto muito complexa, e na maior parte dos casos injusta. Ainda para mais, não é considerado nem o número de irmãos (que, aqui, varia entre os 10 e os 15!), nem sequer o números de irmãos estudantes, nem outras variáveis importantes.

Como deve calcular, este esquema de propinas gera muitas injustiças. Pior, condiciona o ensino a apenas aqueles que têm posses. Para muitas famílias 5 Euros por mês é muito dinheiro. Ainda para mais, como só existe um liceu na ilha, muitos alunos têm de pagar transporte para se deslocarem até à escola (cerca de 2 Euros diários). Assim, muitos alunos, alguns com enormes capacidades, ficam de fora do sistema de ensino (apesar de haver um sistema de apoio social).

Neste aspecto, Cabo Verde faz-me lembrar o Portugal que o meu pai me falava existir à 50 anos atrás. Um Portugal discriminatório dos mais carenciados, incapaz de fazer justiça social. Talvez seja esta uma das diferenças entre países sub-desenvolvidos e países desenvolvidos. Em países ricos e países pobres. Ou então não.

Desabafos (I)

Gostava de ter o talento dos grandes escritores para poder traduzir em palavras tudo o que me passa pela minha cabeça. Ideias. Sensações. Sentimentos. Opiniões. Dizem que tenho outros talentos. Desaproveitados. Subaproveitados. De facto, não passo de um daqueles gajos que se desenrasca em quase tudo, mas que não se consegue destacar numa só coisa. Até podia. Bastava, talvez, me dedicar a uma coisa que gostasse a sério. Mas para isso é preciso perseverança. E eu sou pouco perseverante. Sempre me bastou saber que era capaz de lá chegar. Sem nunca lá chegar. Se eu provar, para mim mesmo, que sou capaz de uma coisa, isso me chega. Não preciso fazê-la. Não sou gabarolas. Talvez seja convencido. Ou então, talvez não tenha coragem de perder. Por uma vez.

Um dos poucos exemplos tristes de São Nicolau

Por viver na vila, local mais importante da ilha de São Nicolau, nem sempre me apercebo das carências e das dificuldades que as pessoas passam. Mas a vila não é um exemplo do modo de vida da maior parte dos Cabo verdianos. De facto, a realidade é muito diferente. A maior parte da população vive com enormes dificuldades, colocando muitas famílias, e até localidades, em situações de pobreza extrema.

Apesar de muitas situações estarem escondidas, há sempre algumas que se vêm a saber. Em São Nicolau, descobriu-se agora um caso de abusos sexuais com menores. Ao que parece, três meninas, de idades compreendidas entre 10 e 14 anos, actuais, foram aliciadas para terem relações sexuais com um conjunto de homens, inclusive um professor primário, de uma determinada localidade da ilha. A situação permaneceu escondida durante anos, tendo vindo a ser descoberta agora.

Esta situação agora descoberta, apesar de não ser frequente, não me espanta. Penso, no entanto, que as coisas mais graves ocorrem dentro das próprias famílias, no interior das suas casas e que só não se sabem por cumplicidades familiares, vergonha e pelo facto de a mulher ainda ter um papel menor perante a sociedade. Aliado ao problema do alcoolismo existem muitos outros factores que favorecem estas situações. Existem famílias inteiras a compartilharem apenas uma divisão ou mesmo uma só cama. Ainda para mais, aqui é muito normal uma mãe ter filhos de outros relacionamentos a viver consigo. Além disso, existe uma cultura de promiscuidade entre homens e mulheres completamente aceite e enraizada na sociedade. A vida sexual começa muito cedo, sendo a gravidez precoce uma realidade. Aqui a palavra pedofilia também tem um significado diferente, pois não está associada à idade mas sim ao corpo.

Estou certo que esta realidade não é exclusiva de África. Muito menos de Cabo Verde. Infelizmente, esta realidade está em todo a lado. No entanto, a cultura de um país, por muito diferente que seja, não pode ser desculpa, nem escape, para situações completamente reprováveis e contrárias aos direitos dos homens e das crianças.

Alunos portugueses são dos piores na Matemática

O relatório do PISA coloca, novamente, Portugal nos últimos lugares do "ranking" da OCDE. Segundo o Público, mais de metade dos alunos portugueses com 15 anos têm níveis de literacia matemática baixos, ou seja, não conseguem mais do que fazer tarefas simples.

Contudo, desconfio da forma como foram feitos estes testes. Sei muito bem como é que em Portugal funciona a escolha dos alunos que vão fazer as provas. Normalmente, são voluntários, muitos deles desinteressados, que procuram apenas uma dispensa justificada das aulas. Não sei como é nos outros países, mas tenho quase a certeza que os alunos não são seleccionados com esta leviandade.

Página de um diário - 6/12/2003

Estou deitado na cama. Estou super cansado. Procuro a palavra certa para descrever o que sinto mas não encontro. A noite anterior foi muito mal dormida. A ansiedade e o medo de perder a hora do avião fizeram com que apenas dormisse 3 horas. Os meus pais, a Fernanda, a Marta, o Pedro e o meu irmão Cláudio acompanharam-me até ao aeroporto. A Helga chegou depois, e pela sua expressão, acredito que chorou muito. Na hora de embarque não consegui evitar uma lágrima, ao sentir o abraço apertado da minha mãe. Carregado de malas nas mãos, parti sem olhar para trás.

Nunca tinha andado de avião. Confesso que fiquei com medo. O avião era velho e inseguro (pelo menos para mim). A hora de descolar foi a mais difícil. Depois tudo bem. Pelo menos até á aterragem ... mas as palmas foram merecidas. Quando chegámos à Ilha do Sal, a minha primeira impressão foi a de ter entrado num filme de cowboys e de estar no western. Tudo muito calmo, um sol quente mas suportável. Um deserto. No entanto fiquei com uma boa impressão. A receber-nos estava o representante da embaixada, o Dr. Mário. Fomos com ele, de táxi, até a uma esplanada no centro, onde estava marcada uma reunião com os cooperantes do Sal. Após comermos qualquer coisa os nossos colegas chegaram. Só uma rapariga é que nos fala, os outros parecem ignorar-nos. No final já todos pareciam mais simpáticos. Senti, em quase todos, uma expressão de solidão. Será que é isso que me espera?

A hora da ligação do voo para São Nicolau aproximou-se rapidamente. Apanhámos um táxi e embarcámos num avião que ainda parecia mais velho. São Nicolau vista de cima parece um deserto montanhoso. Tudo é castanho e não parece haver vegetação. Chegados em terra rapidamente nos apercebemos que estamos numa zona pobre muito carenciada de infraestruturas. Durante alguns momentos ficámos suspensos sem saber para onde ir e o que fazer. Todos nos perguntavam se queríamos um táxi. Até que o director da escola, Luis Morais, nos aborda. Acho que é porreiro. Deve ter uns 30 anos e parece ser uma pessoa muito calma e acessível. Do aeroporto até à Vila de Ribeira Brava são 4 km de distância que são percorridos em 15 minutos. Viémos de Hiace, que são os autocarros daqui. A Ilha é muito acidentada e tem imensas montanhas. Avista-se alguma vegetação. A estrada é de calçada e com muitas curvas. Curvas que evitam enormes precipícios. Talvez seja por isso que numa dessas curvas avistei um cemitério...

Ribeira Brava comemora hoje o seu feriado municipal. De longe reparei numa bancada, de um jogo de futebol, cheia de gente. As ruas da vila são estreitas rodeadas de casas humildes quase todas inacabadas. As pessoas pareciam que nos ignoravam. Até que ficámos parados no trânsito. O jogo de futebol tinha terminado e as pessoas, essencialmente homens, ao sair do campo provocaram um caos no trânsito. Muita gente passou por nós. Confesso que foi muito intimidatório ao ponto de a Helga me pedir para a abraçar.

Chegámos à pensão onde está o nosso apartamento. Pensão Jardim, tal qual a Helga tinha apostado. Deve-lho uma lagosta. O apartamento tem as condições mínimas e tem tudo o que é necessário, excepto uma barata ... O jantar foi aqui mesmo na pensão. Peixe, claro. Eu comi garoupa grelhada e acompanhada por batatas fritas e arroz. Estava bom. Hoje, decidi dormir cedo, pois estou cansados. Continua-se a ouvir a festa e a música, mas não me parece que a oiça por muito mais tempo ...

A Sexta-feira

Adoro os fins de tarde de sexta feira. Parece que o cansaço, acumulado ao longo da semana, se esvai com o toque do sino da última aula. A sensação de não ter nada para fazer me invade e me devolve a liberdade. Confesso, que gosto não ter nada para fazer, para poder fazer o que me apetece. E neste momento, apetece-me deitar, e ficar a olhar para o tecto até os meus olhos fecharem de vontade. Até logo.

A Sida na escola

Em Cabo verde, o dia mundial de luta contra a sida é vivido de uma maneira especial. Este ano não fugia à regra. Na escola fizeram-se algumas actividades significativas sobre a sida e a sua prevenção. Além de os alunos terem oportunidade de participar num colóquio sobre sida, com a presença de uma médica e um seropositivo, puderam, na escola, realizar o teste da Sida. A maior parte dos alunos aderiu, sem preconceitos, sem medo. Note que em Cabo Verde a vida sexual começa muito cedo (tenho alguns alunos do 8º ano que já são pais!), sendo a gravidez precoce muito frequente. Além disso, culturalmente, o povo Cabo-verdiano é muito promíscuo quanto aos relacionamentos sexuais, pois a maior parte dos homens têm várias mulheres (e as mulheres vários homens).

Na ilha de São Nicolau, são do conhecimento da delegação de saúde apenas 3 casos de pessoas infectadas com o vírus da sida. Contudo, só 1% da população se sujeitou ao teste de controlo. Aqui os preservativos são gratuitos e, pelo menos, os estudante estão bem informados quanto aos riscos que correm ao terem relações sexuais sem protecção. No entanto, isso não garante nada por si mesmo.

A este propósito, recordo-me de ter assistido ao testemunho de um homem, com cerca de 50 anos, que contava que nunca tinha usado camisinha. Dizia ele que não precisava. A razão era simples. Vivia uma vida de fidelidade com a sua esposa. Um exemplo.

Perguntas retóricas

Como devem calcular, um professor, tem a tendência para fazer perguntas retóricas enquanto explica a matéria. Pois bem, em Cabo Verde é escusado. Nenhuma pergunta que faço fica sem resposta. Seja retórica ou não. Pior, as retóricas, normalmente, são respondidas em coro. Já tentei explicar que algumas perguntas que faço não são para responderem. São perguntas para ficarem no ar. Para eles pensarem para si. Mas acho que eles não perceberam a lógica da coisa. Se é que há lógica nisso!