Página de um diário - 6/12/2003

Estou deitado na cama. Estou super cansado. Procuro a palavra certa para descrever o que sinto mas não encontro. A noite anterior foi muito mal dormida. A ansiedade e o medo de perder a hora do avião fizeram com que apenas dormisse 3 horas. Os meus pais, a Fernanda, a Marta, o Pedro e o meu irmão Cláudio acompanharam-me até ao aeroporto. A Helga chegou depois, e pela sua expressão, acredito que chorou muito. Na hora de embarque não consegui evitar uma lágrima, ao sentir o abraço apertado da minha mãe. Carregado de malas nas mãos, parti sem olhar para trás.

Nunca tinha andado de avião. Confesso que fiquei com medo. O avião era velho e inseguro (pelo menos para mim). A hora de descolar foi a mais difícil. Depois tudo bem. Pelo menos até á aterragem ... mas as palmas foram merecidas. Quando chegámos à Ilha do Sal, a minha primeira impressão foi a de ter entrado num filme de cowboys e de estar no western. Tudo muito calmo, um sol quente mas suportável. Um deserto. No entanto fiquei com uma boa impressão. A receber-nos estava o representante da embaixada, o Dr. Mário. Fomos com ele, de táxi, até a uma esplanada no centro, onde estava marcada uma reunião com os cooperantes do Sal. Após comermos qualquer coisa os nossos colegas chegaram. Só uma rapariga é que nos fala, os outros parecem ignorar-nos. No final já todos pareciam mais simpáticos. Senti, em quase todos, uma expressão de solidão. Será que é isso que me espera?

A hora da ligação do voo para São Nicolau aproximou-se rapidamente. Apanhámos um táxi e embarcámos num avião que ainda parecia mais velho. São Nicolau vista de cima parece um deserto montanhoso. Tudo é castanho e não parece haver vegetação. Chegados em terra rapidamente nos apercebemos que estamos numa zona pobre muito carenciada de infraestruturas. Durante alguns momentos ficámos suspensos sem saber para onde ir e o que fazer. Todos nos perguntavam se queríamos um táxi. Até que o director da escola, Luis Morais, nos aborda. Acho que é porreiro. Deve ter uns 30 anos e parece ser uma pessoa muito calma e acessível. Do aeroporto até à Vila de Ribeira Brava são 4 km de distância que são percorridos em 15 minutos. Viémos de Hiace, que são os autocarros daqui. A Ilha é muito acidentada e tem imensas montanhas. Avista-se alguma vegetação. A estrada é de calçada e com muitas curvas. Curvas que evitam enormes precipícios. Talvez seja por isso que numa dessas curvas avistei um cemitério...

Ribeira Brava comemora hoje o seu feriado municipal. De longe reparei numa bancada, de um jogo de futebol, cheia de gente. As ruas da vila são estreitas rodeadas de casas humildes quase todas inacabadas. As pessoas pareciam que nos ignoravam. Até que ficámos parados no trânsito. O jogo de futebol tinha terminado e as pessoas, essencialmente homens, ao sair do campo provocaram um caos no trânsito. Muita gente passou por nós. Confesso que foi muito intimidatório ao ponto de a Helga me pedir para a abraçar.

Chegámos à pensão onde está o nosso apartamento. Pensão Jardim, tal qual a Helga tinha apostado. Deve-lho uma lagosta. O apartamento tem as condições mínimas e tem tudo o que é necessário, excepto uma barata ... O jantar foi aqui mesmo na pensão. Peixe, claro. Eu comi garoupa grelhada e acompanhada por batatas fritas e arroz. Estava bom. Hoje, decidi dormir cedo, pois estou cansados. Continua-se a ouvir a festa e a música, mas não me parece que a oiça por muito mais tempo ...

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