O essencial é invisível aos olhos

Se há coisa que nunca parece bem é ter mau aspecto. Contudo, ter mau aspecto não é assim tão mau. Além de ser bastante útil para não se ser assaltado, se pensarmos bem até pode ser um elogio. Afinal, quando alguém diz de outro, que está com mau aspecto é porque no fundo sabe que ele poderia estar muito melhor. Ou seja, há uma esperança de ser algo temporário e de se poder ficar com bom aspecto caso se queira. Ora aí está a grande diferença para quando se é simplesmente feio. Esses não têm esperança. Por muito bom aspecto que tenham serão sempre feios. Não têm cura. Claro que há a ilusão de que com umas roupinhas adequadas a coisa melhore. Ou então, que com uns cremes e umas plásticas a coisa disfarce. Porém, a realidade é cada vez mais exigente e os milagres cada vez mais raros. E, por muito que custe dizer, quem nasceu para feio dificilmente o disfarçará e, mais cedo ou mais tarde, será sempre reconhecida a sua real natureza, tal qual acontece nas primeiras lavagens das camisas Ralph Lauren da feira de Carcavelos. Antigamente, segundo dizem, os homens não se queriam bonitos e as mulheres que eram bonitas tinham fama de serem estúpidas. Hoje, num mundo cada vez mais injusto, tudo mudou. Já nem aquela pertinente questão de escolher entre uma gaja bonita e burra ou uma gaja feia e inteligente faz sentido. A distribuição de beleza, ou falta dela, democratizou-se entre burros e inteligentes. Se antes as coisas estavam mal para os pobres, hoje as coisas estão muito mal para os feios. Nunca como agora foi tão triste ser feio. Por isso que deveria haver uma regra que ditasse que os feios fossem melhores pessoas que os bonitos. Ou que as pessoas bonitas fossem invariavelmente pobres, sujas, desdentadas, sei lá. O que me parece injusto é haver tanta gente bonita, rica, inteligente, cheia de saúde e de bom aspecto. Tudo ao mesmo tempo. E o pior é que com esta história da globalização a ideia romântica de haver gostos para tudo está cada vez mais ultrapassada. Agora todos querem ser bonitos como os outros e já nem os feios gostam dos feios - e quando acham que gostam é porque se conformaram e perderam a esperança. Enfim, a vida não está nada fácil. Valha-me ao menos o mau aspecto.

Dilema da semana

Apesar de objectivamente não concordar com os motivos invocados pelos sindicatos para a greve dos professores da próxima sexta-feira, acho que desta vez é inevitável e irrecusável não me mostrar solidário com os meus colegas. Afinal, não são todos os dias que se tem um fim de semana grande.

Para além da sinceridade

Se há defeito que não suporto é a sinceridade. Melhor, se há coisa que me chateia ouvir é, alguém dizer de si próprio, que o seu maior defeito é ser sincero. Mesmo aqueles que se dizem muito humildes, não conseguem ser pior que esta espécie de gente que insiste em fazer crer que são o que não são, apenas por vaidade. Aliás, se há coisa que estas pessoas demonstram é falta de humildade e de vergonha. Bastava um pouquinho de cada uma para perceberem que ninguém acredita no que dizem. Nem elas próprias. Pelo contrário, quem profere uma frase destas sabe muito bem que não está a ser sincero. Pensa apenas que desta forma se valoriza perante o seu interlocutor e que o faz acreditar em uma de duas coisas: que não tem defeitos e que é uma óptima pessoa ou que é uma pessoa geneticamente desbocada que diz tudo o que lhe vem à cabeça.

Por outro lado há pessoas que acham que a sua maior qualidade é serem sempre sinceros. E, por muito que me custe dizer, acham mal. Quem tem um mínimo de experiência de vida sabe muito bem que nem sempre ser sincero é o melhor. Obviamente que não quero dizer que mentir é preferível. Há que saber o que se diz e o que se pode e é conveniente dizer. É uma questão de motivo. Afinal, o que deve medir a nossa sinceridade não são as palavras em si, mas sim a intenção com que as dizemos. Até porque, como diz o poeta, quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.

A Pandemia do Egoísmo

Cada vez me convenço mais de que a descoberta da vacina contra a Malária só acorrerá quando, por algum meio ou forma, o vírus chegar à Europa ou América. Até porque morrer dessa forma é inadmissível. Pelo menos quando perto de nós, claro.

Antigamente é que era bom!

Um dos nossos grandes problemas é sermos muito dramáticos e pessimistas. Independentemente da situação, sentimo-nos sempre em crise. Vivemos em crise. Talvez por isso que recordamos sempre os tempos passados, que na altura também já eram de crise, como os melhores. No entanto vivemos num mundo que, de dia para dia, pula e avança de uma forma extraordinária. E, a verdade é que nunca como hoje as pessoas tiveram tão boas condições de vida. Por outro lado, também, nunca como hoje as pessoas andaram tão deprimidas, o que não deixa de ser um pouco estranho e contraditório. O pior é que nem nos apercebemos desta contradição em que vivemos. Por isso dizemos que estamos em crise. Ou seja, deitamos as culpas em algo abstracto, desculpando-nos da nossa incapacidade para conseguir traduzir em bem estar, e em felicidade, as evoluções que vamos alcançando. O mais interessante é que é essa insatisfação que nos alimenta e nos mantém vivos num ciclo vicioso. Sentimo-nos frustados e por isso ambicionamos mais. E assim, como se de uma função inversamente proporcional se tratasse, lá o mundo vai avançando num ritmo cada vez mais frenético. E por cada pulo que dá, nós afundamo-nos mais um pouco. E de pulo em pulo temos o nosso destino traçado. Enterrado.

A Gripe das Aves

A propósito da gripe das aves, não se consegue perceber esta pandemia de histeria que assola a comunicação social. O alarmismo é tal que acaba por ter mais efeitos negativos do que propriamente a gripe das aves poderá alguma vez vir a ter. De facto, não deixa de ser estranho que ande todo o mundo excessivamente preocupado com um vírus que até já existe há alguns anos na Ásia, onde vivem mais de 2 mil milhões de pessoas, e que, até hoje, apenas resultou, em zonas com condições óptimas à propogação do vírus, em residuais casos de contágio. Ainda assim, assistimos, em tempos de aperto financeiro, a um desvario de gastos em vacinas, que não sabemos serem eficazes, para vírus que sabemos ainda não se transmitirem entre humanos e que muito provavelmente nem chegarão perto de nós. E o mais triste é que, enquanto isso, como ouvia hoje na rádio, vão morrendo centenas de pessoas por cada minuto que passa, por doenças como a malária, a tuberculose, paludismo e outras , que não merecem um minuto sequer da nossa atenção e do nosso histerismo. Mas isso já não nos incomoda tanto comos os patos, gaivotas e papagaios, afinal, esses que infelizmente morrem todos os dias, não passam de aves raras com convenientes dificuldades de migração, e por isso, sem hipóteses de nos contagiarem.

As iludências aparudem

Os jovens de hoje não são tão feios como eram. Por exemplo as mulheres, especialmente as mulheres, parecem-me ter muito melhor aspecto hoje do que quando comparadas com aquelas das reportagens da RTP memória de há 15 anos atrás. Mas não é só uma questão de aspecto e de bom gosto. É mais do que isso. Basta ir a um qualquer centro comercial, excepto o Fórum Montijo onde as pessoas continuam feias todos os dias, para confirmar que a beleza física se democratizou e generalizou. Os Portugueses estão a ficar mais altos, mais direitos, mais sensuais, mais cuidados, enfim, mais bonitos. Claro que ainda continuamos a vestir muito mal e a ter o cabelo oleoso, mas, como as diferenças para os atarracados dos nossos antepassados são tão grandes, é impossível negar que, pelo menos fisicamente, fomos, estamos a ser, geneticamente apurados. Tal como Charles Darwin o fez, poder-se-ia reduzir tudo isto a uma questão de selecção natural. Talvez assim até se explicasse outro facto indesmentível que é de que, no caso dos homens, além de estarem mais bonitos, estarem, ao mesmo tempo, cada vez mais burros - afinal as mulheres sempre escolheram aqueles homens com um palminho de cara e um dedo de cérebro. Mas, por muito que nos custe, acho que no fundo tudo isto se deve apenas aos efeitos da globalização, sempre a globalização, e, claro, aos hambúrgueres, ao Clearasil e aos conselhos de beleza da Revista Maria.

Uma ideia

E de repente, começo a achar que a solução, deste problema a que chamamos Portugal, pode muito bem passar pela produção de energia eléctrica a partir de centrais nucleares nacionais. E porque não? Pelo menos sempre nos traria, além dos óbvios benefícios económicos e ambientais, algum alento, independência e auto-suficiência.

Sinto falta de ter tempo para inventar coisas para passar o tempo

Um dos meus passatempos preferidos, enquanto estive em São Nicolau, era sentar-me na única esplanada da terra e pôr-me a olhar para as pessoas que passavam na rua e adivinhar de quem eram irmãos. Pode parecer estranho mas garanto que, além de ser um jogo socialmente relevante, é super divertido. Especialmente porque, apesar de conhecer todas as pessoas da vila onde morava, não conhecia as relações familiares que tinham entre elas. Pois, como sabem, quase todos os cabo-verdianos têm mais do que 10 irmãos e, sublinhe-se, quase nunca dos mesmos dois pais. Ou seja, as combinações possíveis eram imensas, o que para o caso só aumentava a dificuldade e interesse do jogo.

Ressaca eleitoral

Todos - enfermeiros, policias, militares, juizes, magistrados, professores, funcionários públicos em geral e sei lá mais quem - protestam contra o governo. E, em muitos casos, legitimamente, pois os seus direitos, adquiridos segundo alguns, foram postos em causa. Porém acontece que, por exemplo, apesar dos professores acharem muito injustas as medidas que o governo tomou a seu respeito a verdade é que já não acham tão mal as medidas tomadas a respeito dos enfermeiros, juizes, magistrados, e.t.c. Ou seja, por muito que não se queira, todos entendem e compreendem a necessidade e a justiça destas medidas. Pelo menos para os outros, claro.

Dizem, alguns, que nunca se viu um governo, com apenas 6 meses de governação, sofrer tanta contestação - e ter, através do partido socialista, um resultado tão fraco numas eleições, como as desta semana. De facto, admito, é verdade. Nunca se viu. Mas, admitem, nunca um governo fez tanto em tão pouco tempo e, ainda por cima, sem ligar a calendários eleitorais. Isso, também, nunca se viu.

Mas o que mais me espanta são os comentadores e os partidos de direita. Há uns meses atrás defendiam reformas e mais reformas. Mais, achavam que eram os únicos capazes de o fazer. E agora, protestam, queixam-se e acham demais. Mas a verdade é que só o fazem por oportunismo e vergonha. Pois, no fundo, o que lhes dói não são as medidas em si, mas sim o facto de não terem sido eles , os de direita, a terem a coragem e a determinação de as fazerem.

Por acaso

O acaso é o reconhecimento da nossa incapacidade para controlar o conjunto de variáveis que determinam um acontecimento. O acaso define o que não conseguimos prever. Contudo, se conseguirmos repetir exactamente, em todas as suas variáveis, uma determinada situação ou experiência o acaso torna-se previsível. Por isso que, em teoria, o acaso não existe. Ou melhor, por isso que, na prática, o acaso ainda existe.

Da mesma forma, o que é uma emoção senão mais do que uma sequência de reacções químicas do nosso cérebro? Não há emoções irrepetíveis. Basta que controlemos todas as variáveis e a reproduzamos.

Tudo pode ser sintetizado. Afinal, somos pó. Simplesmente pó.

Macaquices

Durante estes dias tenho passado muito tempo a conduzir. E, de vez em vez, dou comigo a pensar e a pensar. Além de ainda não ter percebido porque é que, em tempo de crise e de queixume generalizado, todos têm um carro melhor que o meu, assaltam-me, quilómetro a quilómetro, outras dúvidas muito mais interessantes. Por exemplo, com esta história de os carros terem ar condicionado, pergunto-me repetidamente para onde é que vão os macacos do nariz do condutor que antigamente eram orgulhosamente deixados em queda livre pela janela do carro? A questão é pertinente, especialmente para quem faz muitos quilómetros diários, visto que a solução de os colar por baixo do assento tem enormes incómodos. Ou não é verdade que na tentativa de descolá-los do dedo, contra o assento em veludo, se fica, invariavelmente, com mais dois ou três colados?

O Problema das Mulheres

Faltam-me poucas páginas para acabar de ler o livro Os Meus Problemas do Miguel Esteves Cardoso. Como muitos sabem o Miguel é um dos meus autores favoritos. Por mais que uma vez já senti inveja do que escreve. Aqui fica mais um exemplo. Leve, mas bem pensado e escrito. Espero que apreciem, apesar das minhas truncagens e adaptações.

O problema dos homens são as mulheres. E o problema das mulheres também. Concretamente, são as outras mulheres o problema das mulheres.(...) Por outras palavras, as mulheres são sempre o problema. E o problema, diga-se a verdade, é uma coisa que lhes fica bem. (...) Para cada mulher, a população feminina é um exército de rivais. Não se temem nem coibem, por muito formidável que pareça a adversária. A mulher mais fraquinha, mais tolinha e feinha despreza a mais forte, inteligente e bonita, com a maior das facilidades. Não há experiência mais arrepiante do que ver uma mulher a medir outra com os olhos.(...) As mulheres usam os olhos não tanto para olhar para as outras, mas para revistá-las. Revistam-se e depois catalogam-se.(...) As mulheres, quando arranjam um namorado, dizem-lhe sempre que não têm amigas verdadeiras, e que preferem a companhia das homens à das mulheres. E só quando a coisa corre mal que as amigas (que não havia) aparecem milagrosamente para ajudar à autópsia.(...) A rivalidade entre mulheres é um jogo permanente em que os homens são peças temporárias. A maravilha é conseguirem dar aos homens a ideia de que são eles os jogadores, de que são eles os caçadores. O que as mulheres fazem é conceder licenças de caça aos homens sempre que querem caçá-los. (...) É por estas e por outras que as mulheres portuguesas não acham mal roubar os namorados umas às outras: não acham que os homens possam ser alguém.(...) No fundo os homens são vistos como uns tontos desgraçados, brutos mas puros, que existem para que as mulheres possam medir forças entre elas.(...)

Reduz as necessidades se queres passar bem...

Como no outro dia ouvi, por muito dinheiro que se tenha, parece que falta sempre mais um pouco para se ser feliz. Somos de facto, por natureza, uns eternos insatisfeitos e, também, infelizes. Talvez por isso que quando conseguimos uma coisa que queremos o sentimento de felicidade seja tão efémero. Temos sempre a ilusão de que o que não temos é que nos fará feliz. Mas, quase sempre, uma necessidade ocupa mais o coração, durante mais tempo, que uma satisfação. Por isso mesmo é que valorizamos mais o que não temos do que o que de facto temos. O nosso problema não está propriamente em ter o que não temos mas sim, em desejar o que não temos. Quem não quer, nada sofre. Até porque, ter o que se quis não é assim tão bom.

Anormalidades

Hoje, na sala de professores, uma professora falava sobre um aluno que era assim meio para o indisciplinado. Às páginas das tantas uma outra professora questiona:

- É um rapaz de cor, não é?
Resposta pronta da professora que falava sobre o aluno:
- Não, é um aluno normal.

Coisas da Escola

Para muitos, a relação entre professor e aluno deve estar assente na amizade. Assim, são colegas, camaradas, amigos e tudo o que é mais fácil encontrar no mundo. O que não são, é o que é mais raro, difícil e ingrato: educadores, disciplinadores, modelos e guias. Não quero se porreiro, nem faço questão que os alunos gostem de mim. Basta que me respeitem e que aprendam. E, já agora, que me deixem jogar à bola com eles. Claro.

Expectativas

Hoje terei o primeiro dia de aulas. E o primeiro dia de aulas é sempre especial e difícil. Desta vez, imagino mil cenários diferentes, porque, sinceramente, não faço a mínima ideia do que vou encontrar. Claro que se disser que a escola fica na Bela Vista, em Setúbal, pode-se ter uma ideia... Mas, quase aposto que me vou surpreender. Ou então não.

Pelo sim, pelo não

Porque raio é que a maior parte das pessoas se diz católiconãopraticante (assim mesmo, como se de uma só palavra se tratasse)? Não acredito que seja apenas por tradição, cultura ou educação. Ou, simplesmente, por ser mais fácil. Tem de haver uma razão de fundo. Ora, quando alguém se diz católiconãopraticante, o que realmente quer dizer é que, na teoria, até acredita em Deus, mas que, na prática, finge que Ele não existe. O que, no dia a dia, diga-se, dá imenso jeito. De facto, quase todos acreditam que Deus é capaz de ser verdade, mas que, ao mesmo tempo, talvez isso não seja assim tão provável. E é precisamente aqui, no meio desta contradição e dúvida, que está a lógica da coisa. A lógica de pensar que, pelo sim, pelo não o melhor é não arriscar. Que, pelo sim, pelo não mais vale ser católiconãopraticante do que não ser nada. Porque, afinal, se Deus não existir não se perde nada. E caso exista, garante-se uma entrada directa no reino dos céus (porque, como sabemos, Deus protege sempre os seus). É essa a razão de fundo. Por isso mesmo é que se faz questão de baptizar as criancinhas na igreja católica, mesmo quando os pais até nem acreditam muito, ou nada, em Deus. Afinal, pelo sim, pelo não mais vale não arriscar. Ora bem.

Por estes dias tenho-me sentido só. Esteja com quem estiver. Talvez a culpa até seja minha, pois, acredito que, só se sente só quem não consegue estar consigo mesmo. E se uma pessoa não se suporta a si mesmo, como não há-de ser insuportável para os outros? Não sei se é esse o meu caso. Porém, reconheço que ando desleixado e desinteressado de mim mesmo. Quem me dera que a minha própria companhia fosse tão boa que forçasse as outras pessoas a competir com ela. Talvez assim as relações fossem mais verdadeiras. E em vez de todos se darem com todos, talvez, todos dariam um pouco mais de si aos outros. Ou não será verdade que só as pessoas que têm o cuidado de estimar as suas próprias companhias, passando tempo com elas, são capazes de ser boa companhia para os outros?

O que move o homem?

Numa tarde destas juntei-me com uns colegas para uma grelhada. Às páginas das tantas, a conversa descambou para a filosofia e para a questão do que move o homem e o mundo. E, independentemente do que se discutiu, foi interessante notar que cada um tem uma perspectiva própria desta questão. E haviam opiniões para todos os gostos. Alguns, mais freudianos, defendiam que eram as mulheres e, em última análise, o sexo. Outros, mais hedonistas, diziam que era apenas a busca do prazer, nas suas diferentes formas, como vislumbre da felicidade. Havia também alguns, mais liberais, que argumentavam que era o dinheiro ou, de uma forma mais geral, o poder. E outros, mais religiosos, que defendiam que era a vaidade. Mas, apesar da diversidade de ideias, a verdade é que não se chegou a conclusão nenhuma. Nem é isso que me interessa. Pois, tenho para mim, que a questão é demasiado qualquer coisa para concluir o que quer que seja. O mais certo é nem haver uma lei geral. Porém, o que é certo, é que as pessoas, ao contrário dos animais, têm motivações que vão para além das necessidades básicas de sobrevivência. E, nesse sentido, torna-se muito interessante ouvir as opiniões dos amigos quanto a este assunto. Pois é aí que as respostas são quase sempre reveladoras das suas personalidades. Dos seus interesses. Das suas motivações.

Ainda sobre o arrastão...

Alguns amigos, ainda meio afectados pela psicose gerada pelo, suposto, “arrastão”, têm-me perguntado sobre a criminalidade aqui em Cabo Verde, como que São Nicolau fosse uma espécie de Cova da Moura e a insegurança, os assaltos e a violência fossem situações normais e frequentes. De facto, e infelizmente, existe uma ideia enraizada, na maior parte dos portugueses, que os Cabo-verdianos (como os ciganos, os guineenses e outros) estão fatalmente predestinados para o crime. Pura ignorância. Só para que conste, desde que estou em São Nicolau, nunca ouvi falar de um assalto ou de qualquer acto de violência que por aqui tenha ocorrido. E notem que só temos 6 polícias para a ilha inteira.

Só pessoas muito ignorantes é que podem associar os recentes actos de criminalidade a razões de cor ou nacionalidade. Se existe uma forte associação da pequena criminalidade às comunidades de origem cabo-verdianas, ou outras, tal se deve a um problema puro e duro de integração. Deles e, especialmente, nosso. De facto, em vez de os aceitarmos como portugueses que são, preferimos remete-los para a ilegalidade e os acantonar em autênticos ghuetos, onde, com as maiores taxas de desemprego, consumo de droga, analfabetismo e miséria, só se sobrevive dignamente se se enveredar pelo mundo do crime ou algo semelhante. Por isso, não nos devemos espantar nem surpreender com o que tem vindo a acontecer. Afinal fomos nós, orgulhosamente portugueses*, que criámos a bomba relógio que ao que parece, pelos últimos acontecimentos, está prestes a explodir.

*Já agora aconselho a leitura deste post, no Acidental, que de uma forma muito bem-humorada nos remete, os orgulhosamente portugueses, para as nossas mais fiéis origens.

Álvaro Cunhal

Aos 91 anos, Álvaro Cunhal, o pai do comunismo em Portugal, morreu. Personagem incontornável da vida política portuguesa, Álvaro Cunhal sempre cultivou uma imagem de ser superior, imutável e misterioso. Foi talvez o político português que mais paixões e ódios arrebatou. Claro que, postumamente, como sempre, quase todos são unânimes em elogios. Uns dizem que foi de uma coerência ímpar. Outros, que foi herói na luta que fez pela conquista da democracia e liberdade em Portugal, e não sei mais o quê. Mas, sejamos claros. Álvaro Cunhal não foi coerente. Foi simplesmente pouco atento, para não dizer burro, em não perceber as mudanças radicais que, ao longo do tempo, foram acontecendo no mundo e nos países que eram o seu modelo político. Mais. Por muito que custe a alguns, a verdade é que Álvaro Cunhal nunca foi pela democracia e liberdade. Não eram esses os seus ideais. O seu único ideal era o comunismo. Tudo o resto eram meios para atingir o seu fim: A substituição da ditadura Salazarista de direita por uma ditadura comunista igualzinha à da antiga Albânia. Mas, note-se, tudo em prol dos trabalhadores e da classe operária. Claro.

Constatação

O meu maior problema nas aulas* é o chulé. Dos alunos. Note-se.

* Já agora, convém que se saiba que as aulas são dadas em salas pequenas, muito quentes e sem ventilação, com cerca de 40 alunos por turma, transpirados e, ainda por cima, calçados de chinelos ou sandálias.

Não sei se isto faz sentido, mas...

Imagine se a paixão funcionasse ao contrário. Tudo começaria numa discussão. Seguir-se iam algumas traições e mentiras. Depois, alguns ciúmes e quem sabe algum interesse. Claro que, com o tempo, o interesse ia-se intensificando até ficar mais forte que nunca. Cada pequena coisa nos iria surpreender, como se fosse a primeira vez. A paixão tomaria conta de nós, aos poucos, de uma forma cada vez mais intensa e menos madura. Sempre em crescendo. Até que, por milagre, perderíamos da nossa consciência tal pessoa. Como se nunca a conhecêssemos.

Ainda o défice...

Nestes últimos dias muito se tem falado no défice e nas medidas muito chatas que o governo anunciou. Eu próprio já aqui disse qualquer coisa sobre isso. Porém, deixem-me voltar ao assunto, e em particular, à intenção do Governo de tornar públicas as declarações de rendimentos dos contribuintes. A ideia é simples. Tornar cada pessoa num informador fiscal da fraude do vizinho, conhecido ou amigo. Claro que para isto funcionar, será necessário que todos tenhamos um pouco de curiosidade, inveja, mesquinhez e vaidade. Mas isso não é problema, pois há muito que os nossos antepassados se encarregaram de colocar isso nos nossos genes.

Assim, não tenho dúvidas que muitos, por curiosidade, não deixarão de ir consultar os rendimentos dos amigos e vizinhos e de fazer dessas declarações conversas de supermercado e de maledicência. Claro que isso fará que alguns, por inveja e mesquinhez, denunciem o seu vizinho ou amigo. Ou, pelo menos, que alguns, por vaidade, passem a declarar mais qualquer coisa só para fazerem figura perante os vizinhos.

No entanto, parece-me que esta medida pode-se tormar contra producente. Ora todos sabemos que são poucos aqueles que, podendo, não fogem ao fisco. Desde que seja o estado, o desconhecido ou abstracto a lixar-se, não há culpa que nos faça sentir mal. Pelo contrário. Caso não o façamos ou é porque somos estúpidos ou ignorantes. Afinal, nós somos uns espertalhões, e o que seria trágico era se, podendo, não fugíssemos ao fisco. Está na nossa cultura. Assim, ou muito me engano ou então, as declarações fraudulentas, de acesso público, em vez de serem eventualmente denunciadas vão servir é como manuais de aprendizagem de fuga ao fisco. Até porque se outro ganha com isso porque não hei-de eu ganhar também? E desde que ganhemos todos, não há grande problema. Não é?

Cúmulo da adaptação

Hoje dei conta do quanto estou adaptado a São Nicolau, a Cabo Verde, a África. Então não é que já consigo beber dois ou três golos de água, directamente da torneira, sem ficar com uma crise de diarreia?!

* Por outro lado, andar a beber água de garrafa, durante dois anos, de uma marca com o nome Penacova também não é lá muito animador... Ainda para mais a 1 euro o litro...

Ainda as crianças

Como todos os Dias Internacionais de Qualquer Coisa, Cabo Verde, viveu o Dia Mundial da Criança de uma maneira bastante efusiva e visível. Mas este dia foi bem especial. Tão especial que o governo, ontem, decretou o dia de hoje como feriado nacional, como, ao que parece, já era no tempo de Amílcar Cabral. Mas o que foi realmente bem especial foram as actividades que as crianças realizaram. Teatro, danças, desporto, poesia, música e actividades lúdicas, tudo foi vivido com uma intensidade impressionante. De facto, elas conseguem proporcionar momentos únicos, com uma vivacidade e alegria incomparáveis, convencendo-me, cada vez mais, que, apesar de todas as dificuldades, são imensamente felizes

Deus dá nozes a quem não tem dentes

Na sexta-feira à tarde parti um dos dentes da frente. À custa disso, passei o fim-de-semana praticamente fechado em casa, com vergonha que alguém me visse naquela triste figura. Pois, é que só hoje, pela tarde, é que consegui restaurar aquele maldito dente. Mas, a verdade é que podia ter sido bem pior, pois, até há bem pouco tempo atrás, o dentista só vinha a São Nicolau uma vez de dois em dois meses. O que vale é que agora temos uma dentista local, acabadinha de concluir o curso no Brasil. E que dentista… Arrisco mesmo a dizer que é do melhor que tenho visto por aí. E ainda por cima até percebe alguma coisa de dentes e coisas assim! Aliás, se eu soubesse que era assim, já tinha partido um dos dentes há muito tempo. Garanto-vos.

Feira de vaidades

Ao que parece, tiveram ontem início as Feiras do Livro de Lisboa e Porto. Apesar da admitir a utilidade e interesse dessas feiras, confesso que a mim me dizem muito pouco ou nada. De facto, parece-me que a maior parte das pessoas que vão lá, vai apenas numa de marcar presença, para parecer bem ou para parecer que até gosta de ler e que é culto. Eu cá, pelo menos, admito que quando vou lá, vou apenas para ver as montras e as gajas. E se comprar um livro, ou dois, acreditem que não é por ser mais barato ou qualquer coisa do género, mas sim, para poder fazer figura, com o saco da Feira do Livro, nos transportes públicos.

Livros e leituras

Aposto que já devem ter reparado que os meus índices de leitura não são nada famosos. De facto, leio pouco. Ou pelo menos, não leio tanto quanto devia. No máximo, excluindo os científicos, um livro por mês. Quanto muito. Actualmente, na minha mesa de cabeceira, tenho três livros: Os Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez; As Farpas, do Eça e o Apocalipse Nau, do Rui Zink. Porém, destes três, só estou a ler o último (por sinal, bem interessante). Os outros, abandonei-os há uns bons meses atrás. E só não os tiro daqui porque sempre vão impressionando as visitas e decorando o quarto.

A verdade é que não consigo ler só por ler. Por simples prazer. Tenho que gostar. E muito. O pior é que são poucos os livros de que gosto. Que me dão interesse. O que é uma pena, diga-se. Por exemplo, gostava imenso de ler, e perceber, os livros do António Lobo Antunes. Mas, confesso, que após tantas tentativas frustradas tive de desistir e contentar-me com umas crónicas. È demais para mim.

Além disso, tenho um problema grave de concentração. De facto, é frequente me perder, enquanto leio, em outros pensamentos bem longe do texto, ao ponto de não me lembrar de nada do que leio e de, repetidamente, ter que voltar atrás na leitura. No fundo, parece que ainda nem sequer aprendi bem a ler. E se isso é assim, muito se deve ao facto dos meus pais não me terem obrigado, enquanto criança, a ler e a fazer os respectivos resumos. Se o tivessem feito, talvez hoje tivesse níveis de concentração de leitura bem melhores, e até, quem sabe, uma credibilidade bem diferente, nem que fosse, por usar uns óculos fundo de garrafa.

Semana fértil

Esta semana soube-se que, na escola, quatro alunas estão grávidas. É o que se chama por aqui uma semana fértil. Aliás, tem sido um ano fértil. Como todos os anos, eu acho. Mas pior do que estes números é saber que as mães têm entre os 15 e os 17 anos e que pelo menos um dos pais é aluno do 7º ano e tem catorze anos. Aliás, ainda esta semana, por causa de uma destas situações, participei numa cachupada dos anjos* em favor de uma destas meninas. Apesar desta situação ser encarada com preocupação por parte das famílias, a verdade é que, por estas bandas, ninguém fica chocado com estas situações. Muito menos se sente algum tipo de descriminação ou gozo pelos alunos em causa. É a vida, diz-se. Infelizmente, e segundo o regulamento da escola, as alunas serão obrigadas a abandonar a escola. De facto, o regulamento é muito rigoroso, e talvez até injusto, nestes aspectos. Porém, e apesar de tudo, é uma das formas que a escola tem de controlar, punir, algumas situações menos desejáveis. Neste sentido, por exemplo, não é permitido que rapazes e raparigas troquem carinhos, abraços, beijos ou quaisquer outros tipos de afectos físicos, no recinto escolar. E a verdade é que os alunos, regra geral, cumprem. Até aqueles que são namorados. Mas o fruto proibido é sempre o mais apetecido, não é verdade?

* Cachupada dos anjos é uma tradição local que consiste em oferecer uma cachupa guisada (comida tradicional cabo –verdiana à base de milho) a todos os amigos, vizinhos e crianças de forma a se pedir protecção para os problemas que se avizinham. De facto, tirando a superstição associada, +e uma tradição bem bonita e bem elucidativa do espírito comunitário e de entreajuda que existe em São Nicolau.

O bom filho à casa torna

Acabo de decidir voltar para Portugal. Em definitivo. Termina assim a minha aventura em Cabo Verde. Pelo menos por agora. De facto, tal como os Xutos dizem, a vida é sempre a perder. E eu, sinto que vou perder com este regresso. No entanto é chegada a hora. A hora de voltar à vidinha comum de que já me esqueci. Ao stress. À azáfama. Às coisas. E, também, à família. Como muitas vezes aqui referi, sinto-me muito bem em São Nicolau. Fui, sou, muito bem tratado. Neste dois anos, não tenho uma razão sequer de queixa. Um sequer problema. Um sequer mal entendido. Por todos sou respeitado e acarinhado. Por todos sinto uma enorme afectividade. Não sei se me tornei uma pessoa melhor. Talvez, apenas, um pouco diferente. Talvez, as coisas tenham deixado de ter demasiada importância para mim. Talvez o tempo seja agora menos importante. Talvez me tenha tornado mais solidário. Mais corajoso. Mais adulto. Mais preguiçoso. Mais velho. Sei lá.

Mas se isto é tão bom porque me vou embora? A resposta não é fácil, nem sei se a entenderão. A verdade é que, apesar de tudo, existe em mim a convicção que estou aqui temporariamente. Que um dia hei-de voltar às minhas raízes. E isso, quer se queira quer não, acaba por condicionar, pois faz com que não me comprometa com nada, e que vá adiando o meu futuro para o dia que hei-de voltar. Talvez seja por isso que isto é tão bom. Talvez seja por isso que eu vivo, o dia a dia, feliz, despreocupado e sem muitos problemas. Mas, no entanto, sempre com a sensação de estar a perder qualquer coisa, noutro lado que não aqui. A adiar o futuro. A desprezar o presente. Confesso, porém, que estive muito na dúvida em voltar. Se não tivesse família talvez ficasse aqui. Definitivamente. Mas a família ainda é mais importante do que eu. A sua felicidade continua a ser a minha felicidade. E por isso, como poderia recusar os insistentes pedidos da minha mãe para voltar?

Pequenos prazeres de fim de semana

O bom do sábado é que posso ficar na cama até às 10 horas, ouvir um CD do Palma (CD2/Acto Contínuo/1982), e ainda assim poder comer um prato de Nestum sem medo de perder o apetite para o almoço. O dia tem tudo para correr bem.

O Passageiro Português

Nestes últimos anos, tenho tido oportunidade de viajar por diversos locais e em diferentes companhias aéreas. Desta forma, já deu para perceber que os passageiros aéreos portugueses são, sem qualquer espécie de dúvida ou apelo, os piores co-passageiros do mundo. De facto, os passageiros portugueses sabem, como nenhum outro povo, embaraçar profundamente o compatriota consciente. Há certas características que automaticamente os destinguem. Mal as nádegas estabelecem contacto com o assento, já está de indicador em riste, empurrando o botão de chamada da hospedeira. Ele quer almofadas, mantas, pantufinhas de longo alcance, copos de água gelada, jornais estrangeiros em língua que desconhece completamente, e, mais que tudo, a total atenção de quem está lá só para servir, a ele, senhor passageiro. São os “reizinhos do ar”. Na terra, são seres tão insignificantes como os outros. Mas deixem levantar o trem de aterragem e vejam-nos transformarem-se em Suas Majestades. Passam cinco minutos a usufruir do jacto de ventilação, dirigindo-o às diversas partes do corpo, para grande irritação do indivíduo (estrangeiro) que está ao lado. Depois, quando já conseguiram moer a rosca ao ponto de já não ser possível parar a baforada constante de ar podre, chamam a hospedeira e exigem ser colocados noutro lugar.

Além de estarem sempre mas sempre de pé nos corredores, confundido-se natural e alegremente com a bicha para as retretes, a qualidade mais notória do passageiro português é a obstinada exigência de desfrutar de todas, mas todas as vantagens e regalias que oferece a viagem. O passageiro português raciocina “Isto vem incluído no preço do bilhete – e raios me partam se eu não hei-de comer aquilo que eu paguei cá com o meu dinheirinho.” E assim, bebem tudo o que há de grátis para beber e, independentemente de gostos e apetites, devoram integralmente o almocinho de plástico que lhes é servido, roendo religiosamente a azeitona e a fatia moribunda de ananás, sem perder uma única passagem de cafeteira.

Mal o avião aterra, levantam-se e ficam horas, dobrados, de pé, à espera que chegue o autocarro para se abrirem as escotilhas. Atropelam-se no corredor para serem os primeiros a sair, apesar de saberem que ainda durará um bom bocado antes da chegada da bagagem. Quando lhe aparecem as malas no carrocel do aeroporto, gritam “Olha a minha! Olha a minha!”, como crianças a presenciar um acto de magia.

Enfim, é por estas e por outras que, na altura de se preencher o cartão de desembarque, quando revelamos publicamente a nossa envergonhada nacionalidade, é avassalador o desejo de escrever “filandês” , “turco” ou “iraquiano que não tem nada a ver com estes gajos”.

* Post inspirado/adaptado de uma crónica, lida numa aula em que estava a dar teste, do livro " A Causa das Coisas", de Miguel Esteves Cardoso

Professorices

É nesta altura de corrigir testes que eu invejo os professores que ainda usam aquele método clássico de os atirar ao ar...

Desabafo para consumo interno

Como devem imaginar, ao estar a trabalhar fora do meu país, deparo-me com muitas situações merecedoras de um comentário. Porém, sobre Cabo Verde, e por razões contratuais e de respeito pelo país que represento, tenho evitado fazer comentários depreciativos ou de índole político. Tenho também evitado falar sobre os problemas que os professres cooperantes que aqui trabalham enfrentam. Pois, não se pense que tudo é um mar de rosas. A verdade é que a nossa situação profissional, e o próprio Projecto de Cooperação, está muito aquém do desejável. Talvez por isso, fosse normal que os mais interessados nesta situação, ou seja os cooperantes, fizessem algo para a alterar. Mas é precisamente o contrário que acontece. Coisa típica de português, eu acho. Todos têm problemas. Todos têm opiniões. Todos dizem mal. Todos acham que sim. Mas depois, todos são inconsequentes e incapazes de se unirem em redor de um objectivo comum. Muitos dizem-me, que não vale a pena e que já não estão para se chatear. No fundo, acreditam é que haverá sempre alguém a fazer o nosso papel, a lutar pelos nossos direitos. E isso incomoda-me. Aliás, confesso que este sentimento de resignação e desinteresse, mais do que me incomodar, já me começa a chatear. Parece que estão todos conformados com este fatalismo que julgam traçado. Porém, eu ainda acredito que estamos a tempo de fazer algo. Nem que seja apenas a nossa parte. Nem que seja só pelos nossos interesses pessoais...

Situações embaraçosas

Na escola, tenho uma colega que é estrábica. E como se deve calcular, por muito que se evite, acabamos sempre por cair numa situação embaraçosa. Hoje, pela manhã, ao encontrá-la na rua assim meio ensonada, tivemos o seguinte diálogo:

- Então Manuela que cara é essa?
- Estou com sono.
- Eu logo vi. Com esses olhos não enganas ninguém.

Pois.

Pretensões

Ando empenhado em aumentar o meu peso em mais 8 quilos. Um amigo, ao saber desta minha pretensão, disse-me que eu devia inscrever-me no ginásio aqui da vila, para aumentar a massa muscular. Assim, há cerca de 3 meses atrás, inscrevi-me. A verdade é que ainda não ganhei nenhum quilo. Parece que é preciso ir lá.

A felicidade não está no lugar onde estamos e muito menos naquilo que temos!

Não tenho carro nem bicicleta. Não tenho sala de jantar nem casa de banho privada. Não tenho telemóvel nem mensagens escritas. Não tenho electricidade todos os dias nem água potável na torneira. Não tenho uma TV grande nem um aparelhagem de som. Não tenho máquina de lavar roupa nem de lavar loiça. Não tenho banheira nem piscina. Não tenho cinema nem teatro. Não tenho cão nem gato. Não tenho roupa nova nem ténis de marca. Não tenho playstation nem jogos no computador. Não tenho dinheiro a render juros nem acções. Não tenho centros comerciais nem parques de diversões. Não tenho TV cabo nem rádio. Não tenho Mac Donald’s nem Pizza Hut. Não tenho jornais nem revistas. Não tenho ar condicionado nem ventoínha. Não tenho café nem gelados.

E no entanto, tenho tido os melhores tempos dos últimos anos...

Exemplos educativos III

Durante o dia de hoje e o dia de amanhã estarei numa formação para professores. O tema do primeiro dia foi sobre a indisciplina na sala de aula. Como já referi muitas vezes neste blogue, a indisciplina por aqui, comparada com a que me deparei em Portugal, é praticamente inexistente, resumindo-se a comportamentos perturbadores próprios e naturais das crianças. Aliás, hoje constatei que os professores foram mais indisciplinados na formação do que os próprios alunos o são nas aulas. De facto, é impressionante como facilmente caímos em comportamentos que nós próprios criticamos e censuramos aos nossos alunos. Mesmo agora, e a título de exemplo, ao folhear o caderno que levei para a formação, reparei que, em vez de sínteses e comentários do que foi apresentado, tinha o caderno cheio de desenhos de borboletas, casas, animais, bolinhas e de riscos que nem eu sei explicar. Agora imagine-se o que é uma criança, cheia de vontade de brincar, saltar, correr, gritar, ter que suportar 5 aulas por dia, cada uma mais chata e menos interessante que a outra, numa sala de aula insuportavelmente quente e sobrelotada?!? Haja paciência.

No que é que estás a pensar?

Hoje, num filme antigo que passou na TV, uma mulher vira-se para o marido e pergunta: “No que estás a pensar amor?” Ao que o homem, muito carinhosamente, responde: “Oh querida, se eu quisesse que você soubesse, eu estaria a falar e não a pensar, não acha?”. De facto, a pergunta “no que estás a pensar?” é recorrente. Especialmente, se for feita pela nossa mulher, namorada ou seja lá o que for. Muitas vezes, como a resposta “em nada!” não satisfaz, temos que recorrer a uma resposta padronizada. Qualquer coisa como isto: “Desculpa estar pensativo, querida. A verdade é que estava apenas reflectindo em como tu és maravilhosa, carinhosa, prestativa, inteligente e bonita, e como eu sou um sortudo em te ter encontrado”. Obviamente que, na maior parte das vezes, esta resposta nada tem que ver com o que nós estamos a pensar na realidade. De facto, ou muito me engano, ou se não estiver a pensar no jogo que o Benfica não ganhou por culpa do árbitro, ou no carro novo do vizinho, ou naquela mulher bonita com quem se cruzou no elevador, ou no como a sua mulher está gorda, o mais certo é estar a pensar na desculpa que vai dar à sua mulher para ir beber um copo sozinho com os seus amigos e assim não ter que ouvir ninguém fazer tantas perguntas!

Vidas reais

Na escola, o intervalo grande, na sala de professores, é sempre muito animado. Especialmente quando os professores partilham as estórias que acontecem na sala de aula. Desta vez, a estória aconteceu numa aula, de inglês do 7º ano, de uma Peace Corp americana. Contava ela que pediu a um aluno para ir ao quadro completar umas frases de um diálogo. Mas que o aluno se recusou em ir. O que para ela foi uma surpresa, pois tratava-se de um aluno bastante participativo. A verdade é que ela insistia e o aluno recusava. Até que, depois de ameaçá-lo em colocar-lhe uma falta disciplinar, ele anuiu em ir. Quando, finalmente, o aluno se dirigia para o quadro, reparou que ele levava o caderno nas mãos. Como o exercício era para resolver sem caderno, a professora pediu-lhe para lhe entregar o caderno. Mais uma vez, o aluno recusou em atender ao pedido da professora. Chegando mesmo a fazer birra. O que, segundo a professora, se revelava muito estranho, pois o aluno não era de ter estes comportamentos. O facto é que, nem por nada, queria deixar o caderno, que rigidamente segurava sobre a cintura. Até que, depois de novamente ameaçá-lo em colocar-lhe uma falta disciplinar, o aluno lá, a muito custo, deu o caderno à professora. E foi aí que toda a gente compreendeu o comportamento estranho do rapaz. Pois, no preciso momento em que dá o caderno à professora, todos reparam que afinal o que rapaz tinha, não era medo de não saber fazer o exercício ou algo do género, mas sim, segundo as palavras da professora, uma enorme erecção. Que aulas excitantes, hei!

Habemus Papam

Quem costuma passar por aqui, sabe que tenho convicções protestantes*. Por isso mesmo, esta euforia à volta do novo papa não me entusiasma. Aliás, esta euforia toda, primeiro com a morte do papa e agora com esta eleição, tem sido, na minha opinião, um autêntico exagero, tornando-se assim numa enorme campanha publicitária, quiçá, a maior que a igreja católica teve em todos os tempos. Talvez por isso, não seja inocente o facto de o novo papa ter 78 anos. Afinal se esta história se repetir daqui a uns 6 ou 7 anos não será assim tão mau...*já agora, de forma a fazer uma breve destrinça entre protestantismo e catolicismo, recordo o teólogo Karl Barth, protestante, que, de uma forma muito sucinta, disse, que a diferença entre o Catolicismo e o Protestantismo se resumia apenas à conjunção e. O Protestantismo diz: "Jesus Cristo"; o Catolicismo acrescenta: "e Maria". O Protestantismo afirma: "a Bíblia"; o Catolicismo junta: "e a Tradição". O Protestantismo declara: "a fé"; o Catolicismo diz: "e as obras".

Casa da Música

Finalmente a Casa da Música foi inaugurada. Apesar de estar a alguns milhares de quilómetros de distância, confesso que fico sempre orgulhoso quando em Portugal se faz alguma coisa acima da média. Parece-me ser o caso, pois, segundo dizem, a Casa da Música é uma das salas com melhor acústica do mundo. Talvez seja por isso que as críticas do conceituado Rui Veloso têm sido tão ferozes. A sala realça demais a sua voz.

Há dias assim

Hoje tive saudades dos meus pais. Tive saudades dos seus conselhos. Tive saudades de morder as orelhas da minha mãe. Tive saudades de fazer cócegas no meu pai. Tive saudades de ouvir a minha mãe a dizer-me que tenho de ser humilde. Tive saudades de andar à procura das bananas escondidas entre panelas. Tive saudades de ver, ás escondidas, os filmes com bolinha. Tive saudades de ouvir a minha mãe dizer-me para cortar o cabelo. Tive saudades de jogar à bisca dos nove com o meu pai. Tive saudades de saltar pela janela para ir brincar com os meus amigos de noite. Tive saudades de ouvir o meu pai a falar na igreja. Tive saudades da minha mãe me dar quinhentos paus por eu lavar a loiça. Tive saudades das histórias que o meu pai conta de quando ele era novo. Tive saudades das perguntas da minha mãe acerca das namoradas. Tive saudades de me acordarem quando eu mais sono tinha. Tive saudades dos avisos da minha mãe por causa das más companhias. Tive saudades do meu pai colocar comida no meu prato mesmo contra a minha vontade. Tive saudades da minha mãe se zangar por eu chegar tarde. Tive saudades do meu pai a desligar-me o esquentador por eu demorar muito no banho. Tive saudades dos seus sorrisos. Tive saudades de quando não tinha saudades. Enfim... tenho saudades deles.

Dúvidas existenciais III

Até à páscoa passada vivia com uma dúvida existencial, que julgo ser a de muitos. Porque raio é que os símbolos da páscoa são o coelhinho e os ovos coloridos? Será que, noutros tempos, os coelhinhos punham ovos? Bem, apesar de esta explicação vir fora de época, com a ajuda do google, vamos lá esclarecer isto de uma vez por todas.

Comecemos pelo ovo. Nas religiões orientais, na mitologia grega, nas tradições populares, o ovo sempre teve significado de principio de vida. O ovo aparentemente morto contém uma vida que surge repentinamente, acreditando-se por isto, que ele seja o símbolo da páscoa da ressurreição. Outro facto é que depois da quaresma e da semana santa, comer ovos era um método conveniente e nutritivo para a preparação da páscoa. Embora haja divergência sobre a origem dos ovos da páscoa sabe-se que, para alguns, os ovos enfeitados era uma tradição na Idade Média. Séculos antes, porém, os chineses já costumavam colorir ovos que eram distribuídos aos amigos na Festa da Primavera, como lembrança da continua renovação da vida. Mais tarde, no século XVIII, e para completar a história, a Igreja Católica adoptou oficialmente o ovo como símbolo da ressurreição de Cristo.

Quanto ao coelhinho a explicação é um pouco mais rebuscada. A tradição do coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães em meados de 1700. Conta-se que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se então a história de que o coelho é que trouxe os ovos. Existem ainda outras explicações, especialmente a religiosa, que tem que ver com o facto de os coelhos se reproduzirem com extrema facilidade e em grande quantidade, vindo daí a identificação com uma vida abundante, um processo de restauração, um ciclo que se renova todos os anos.

Pimenta no olho do vizinho é refresco

Este governo anda muito discreto. Porém, tem dado alguns sinais quanto às políticas que aí vêm. Primeiro, com a história da venda de medicamentos fora das farmácias. Depois com a redução das férias judiciais para apenas um mês. E por último, a proposta de os professores começarem a ter que preencher os “furos” nas aulas dos alunos. Ora ninguém pode negar que estes sinais têm sido corajosos, pois vão contra interesses corporativos instalados na nossa sociedade. Talvez sejam o impulso necessário às reformas que o país tanto espera e necessita. Por isso, não se compreende as reacções dos farmacêuticos e dos juizes. Até parece que, só porque mexeram com os seus interesses, que já não querem as benditas reformas. As únicas reacções que me parecem justas, curiosamente na parte que toca com os meus interesses, são a dos sindicatos dos professores. De facto, essa história de os professores terem que preencher os “furos” dos seus colegas parece-me um pouco despropositado. Era o que faltava um gajo ter que andar a substituir um colega só para os meninos não ficarem sem nada para fazer. Pior, era o que faltava alguém ter que me substituir quando eu faltasse. Não me digam que agora um gajo já não pode ficar com dores de cabeça ou com indisposições físicas? Pensam que somos o quê? Por este andar, qualquer dia, ainda nos tiram os três meses de férias no verão ou reduzem aquelas, bem merecidas, semanas de descanso no Natal e na Páscoa. Já não bastou nos tirarem aqueles dois dias na semana do Carnaval? O que eu vos digo é que assim, mais vale continuar tudo na mesma. Que se lixem as reformas. Pelo menos aquelas que mexam comigo. Claro

Convém que Ele cresça e que eu diminua

Aproveitando a tolerância de ponto, concedida pelo governo Cabo-verdiano a propósito da morte de João Paulo II, decidi dar uma vista de olhos nas cerimónias fúnebres que preenchem as televisões há imensos dias. E, ao observar toda aquela ostentação, riqueza e idolatria, não pude deixar de pensar na morte singular de Jesus Cristo na cruz, e lembrar que “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (Actos 4.12).

Tu es Petrus et super hank Petram aedificabo Eclessiam meam!

Vai hoje a enterrar Karol Wojtyla. O Bispo de Roma. O Primaz da Itália. O Patriarca do Ocidente. O Vigário de Jesus Cristo.O Servo dos Servos de Deus. O Sumo-Pontífice da Igreja Universal. O Sucessor do Príncipe dos Apóstolos. O Soberano do Estado da Cidade do Vaticano. O Arcebispo e Metropolita da Província Romana. O Santo Padre. Ou seja, o Papa João Paulo II.Sobre a figura do chefe da Igreja Católica não tenho muito que referir. Até porque as minhas convicções Cristãs são em tudo contrárias ao que o Papa é e representa. De facto, se por um lado, Karol Wojtyla, me merece respeito, pelos seus esforços pela paz no mundo e pela sua preocupação com os mais desfavorecidos, por outro, e por muito chocante que a afirmação possa ser, levanta em mim sérias dúvidas quanto ao facto de ser verdadeiramente um “servo de Deus, quanto mais o substituto de Jesus Cristo na terra. A verdade é que até me arrepio com tamanha heresia.

Bute?

A vida de qualquer rapaz deve ser, entre outras coisas, correr atrás de raparigas. Hoje em dia, porém, os rapazes não correm atrás das raparigas- andam com elas. Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem, laconicamente, com o ar indiferente que marca o “cool” da contemporaneidade “Vamos curtir?”. Ou simplesmente “Bora aí?”. Nos últimos tempos, esta economia de expressão atingiu o cúmulo de se cingir a um breve e boçal “Bute?”. “Bute?” significa qualquer coisa como “Acho-te muito bonita e desejável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete e framboesas”. Mas, como os rapazes só dizem “Bute?”, são as raparigas que têm de fazer todo o esforço de interpretação e de enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas “ Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?”. E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de considerações pouco líricas – foi um “Bute?” terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixonado ou desapaixonado?

Adaptado de um texto de Miguel Esteves Cardoso, in causa das coisas

Reflexos da morte do Papa

Ao regressar de férias do Brasil tive ainda de passar 3 dias na ilha do Sal à espera de voo para São Nicolau. Desta forma, além de ter feito um pouco mais de praia, aproveitei a oportunidade para estar com alguns amigos que por ali tenho. Assim, no sábado à noite combinámos sair para bebermos um copo e trocarmos umas ideias. A noite de sábado no Sal é muito animada, ainda para mais cheia de turistas, e por isso a coisa prometia. Apesar da morte do Papa ser o tema do dia nunca pensámos que ele fosse o tema dominante. A verdade é que acabou por ser, pois, para descontentamento e espanto de muitas pessoas, a polícia fechou todos os bares e discotecas da vila. Ordens superiores, diziam (parece que fizeram o mesmo em Cuba). Confesso que ainda fiquei um pouco preocupado, pois pensei que na volta ainda me iriam obrigar a chorar... Mas afinal não chegaram a tanto. O objectivo era apenas fazer cumprir, mesmo que um pouco à força, o dia de luto sem música nem divertimento. Só não compreendo é porque também não fecharam as escolas?!? Assim sim, teriam sido uns dias de luto a sério!

Porque é que os portugueses associam tanto o sexo à alimentação?

Uma das expressões mais curiosas, no nosso bom português, é aquela que se diz de uma pessoa que é atraente: “É boa como o milho!”. Mais que curiosa esta expressão é intrigante, pois o milho, temos de o reconhecer, não é assim tão bom como isso. Outra coisa irritante que se faz muito em Portugal é chamar “figos” às pessoas e esperar que as pessoas se sintam envaidecidas com isso. “Chamava-lhe um figo”, como se o figo fosse uma coisa fabulosa para estar assim a chamar às pessoas... Também só em português é que quase todos os nomes de frutos ou peixes são, por si só e por contexto, potenciais obscenidades. Os exemplos são muitos e nem vale a pena os mencionar. De facto, seja milho ou seja figo, a lição é clara: o povo português tem um tal amor à alimentação, sacralizando tanto aquilo que come, que sobrevaloriza certos alimentos, ao ponto de os confundir com objectos de paixão bastantes mais elevados, como sejam a título de exemplo, as pessoas. A pedra de toque desta inefável associação portuguesa do sexo e da alimentação, é o uso que se faz dos verbos que mais comummente se usam para designar a acção de quem se alimenta. O comer (e os seu congénere papar) não acabam nos confins da mesa do almoço ou do jantar... Ora bem, as conotações sexuais que há muito se deram a estas simples palavras fariam que um marciano, ao ouvir dois portugueses acerca de uma recente conquista, julgasse a nação portuguesa como um povo orgulhosamente canibal. A verdade é que deve haver uma explicação bem lógica para isto tudo. Talvez se deva à falta generalizada de ambas as coisas, não sei. O que vos parece?

Outros futebóis

Só agora, que recomecei a jogar futebol, é que me apercebi do contexto futebolístico no qual estou envolvido. Por aqui, os jogadores são, de uma forma geral, tecnicamente evoluídos mas muito fracos tacticamente. Até a jogar na brincadeira se nota. Além disso, têm um hábito terrível de passarem todo o jogo a discutir com os elementos da própria equipa. Outra particularidade é que ninguém gosta de ir à baliza. Por isso, os jogos que fazemos jogam-se com balizas minúsculas de um passo. Mais interessante ainda é perceber, e falo destes jogos entre amigos, que existem estratificações futebolísticas, que de alguma forma, consoante a qualidade dos jogadores, constituem autênticas divisões por categorias. Assim, pelo que me apercebi existem, pelo menos, quatro classes distintas. A primeira constituída pelos jogadores das equipas federadas de futebol 11 e que, por norma, só jogam entre eles pois julgam-se a elite futebolística da ilha. A segunda, composta também pelos jogadores das equipas de futebol 11 federado mas que não são convocados, e que são, mesmo assim, considerados bons jogadores e aqueles que melhor forma física têm. A terceira, composta por jogadores, que embora não joguem numa equipa federada de futebol 11, são considerados, por um ou outro motivo, jogadores com um certo jeito. Nesta categoria, entram várias classes de futebolistas. Desde os demasiados lentos para o futebol 11, os com mais de 30 anos, os jogadores mais ou menos bons e as jovens promessas. Por último, a quarta categoria. que é formada por aqueles jogadores que não conseguiram entrar na terceira. Ou seja, os tipos que não têm muito jeito mas que pensam que sabem jogar futebol. E a verdade é que, apesar de esforçados e dedicados, são uns autênticos cepos, lentos, sem garra e sem habilidade nenhuma. Ora bem, eu actualmente estou a jogar nesta categoria. Mas, sem falsas modéstias, já me começo a destacar. Pelo menos é o que dizem os olheiros. Até há quem diga, à boca aberta, que devo começar a treinar na terceira categoria, pois nesta já começo a atrapalhar o futebol dos meus companheiros. Por isso, quando a condição física melhorar, é possível que ocorra um salto na minha mais recente carreira futebolística. Mas muito sinceramente a ambição já começa a subir-me à cabeça... e por isso, o céu é o meu limite.

O tempo tudo cura...

Durante estes dias recomecei a jogar futebol. Talvez tenha sido uma das melhores coisas que me aconteceram ultimamente. E não estou a exagerar, pois há dois anos que não o fazia. E não porque não quisesse, mas sim porque não podia, pois tinha um joelho que me o impedia. Bastava correr apenas 5 minutos para ter que parar com dores. Os médicos especialistas nunca conseguiram detectar qualquer problema que fosse e, por isso, remeteram-me sempre para mais exames. Entretanto vim para Cabo Verde e não pude completar todos exames. No início ainda pensei que isso passasse, mas cada vez que tentava jogar, e foram muitas vezes ao longo destes dois anos, o joelho não me o permitia fazer por mais do que 5 minutos. E assim, resignei-me a esta condição de lesionado permanente qual Mantorras. E acreditem que não foi nada fácil, pois o futebol sempre foi uma grande paixão e o meu hobby favorito. Ainda para mais aqui, em Cabo Verde, onde o maior passatempo dos homens é o futebol (claro que também há as mulheres, mas adiante...). Pois bem, há uma semana atrás já tinha tido a impressão que o meu joelho estava melhor, pois, num passeio que fiz, pus-me a jogar futebol com o pessoal e a coisa aguentou-se sem dores para além dos 5 minutos da praxe. Por isso, esta semana, decidi fazer um teste para verificar o estado do meu joelho tal qual um jogador da bola a sério. Corri durante 40 minutos sem uma única queixa. Fiquei radiante. Mal podia acreditar que, assim do nada, o meu joelho se tinha curado. Para tirar as teimas, hoje decidi ir novamente correr. Mas, a convite de uns amigos, acabei por ir jogar futebol. E não é que, durante os 40 minutos que joguei, o fiz sem nenhum problema?! Ou melhor sem nenhum problema no joelho, porque quanto à condição física e à habilidade a coisa está uma lástima. Mas hei-de voltar aos velhos tempos. Ou então não.

Seca? Catástrofe?

Hoje, no telejornal da tarde da SIC, passou uma reportagem sobre a situação de seca que Portugal, em especial o Alentejo, está a viver. Alguns dos entrevistados queixavam-se nunca ter visto nada assim nos últimos 40 nos e que o que estava a acontecer era uma catástrofe, pois as colheitas já se tinham perdido, os animais já não tinham pasto para comer e que até o consumo de água teria de ser racionado.

E eu pus-me a pensar... e a lembrar que, em Cabo Verde, raramente chove, havendo locais onde não cai uma gota de água há mais de 7 anos. Mas que mesmo assim as pessoas vão vivendo. Sobrevivendo. Sem ajudas, sem subsídios, sem agricultura, sem gado, sem água... e claro, sem telejornais, sem entrevistas...

Mas com o mal dos outros podemos nós bem, não é verdade? Venham mas é os subsídios que o pessoal precisa de comprar jeeps novos.

Dia Internacional da Mulher

A forma mais digna de mostrar alguma consideração pelas mulheres seria não ter escrito nada sobre o assunto, tal é a alarvidade que, para mim, este dia internacional das mulheres representa. Mas não resisti. Não pretendo, porém, fazer nenhuma homenagem nem nada do género. Até porque este dia serve precisamente para me lembrar que a mulher ainda recebe um tratamento diferenciado da sociedade. Assim como acontece com os idosos, as crianças, os gays, os deficientes, os analfabetos, os negros,...

Conselho

Não seja redundante. Evite repetir a mesma coisa várias vezes seguidas uma depois da outra e usar mais palavras do que o necessário para expressar as suas idéias de uma forma simples e sintética, sem grandes rodeios.

Meu querido diário

Acabo de ver o jogo Porto-Benfica. O local escolhido foi a esplanada do Armindo, o despachante. O único local da Vila com ecrã gigante. Fomos para lá, eu e umas colegas, meia hora antes do jogo começar, para conseguirmos uma boa mesa. Aliás, fomos os primeiros a chegar. Mas com o aproximar da hora do jogo as pessoas foram chegando. Chegando... Até não caber mais ninguém. Pelas minhas contas deveriam estar dentro do estabelecimento umas 120 pessoas. Como existem pouco mais do que 30 cadeiras, imagine como estava o local. Não havia, nem sequer no chão, um espaço em aberto. Mais apertado do que no estádio, acho. Além disso, fora do estabelecimento, e aproveitando uns espaços abertos nas paredes, estavam aí umas 30 crianças. A maioria dos espectadores eram homens, apesar de haver 4 ou 5 mulheres. Havia mais camisolas e cachecóis do Porto do que do Benfica. Curioso é que as camisolas do Porto eram todas recentes, enquanto as do Benfica eram quase todas do século passado. Enfim, efeitos dos tempos... Por problemas na parabólica ninguém viu os primeiros 10 minutos de jogo. MAs quando a imagem veio o barulho tormou-se ensurdecedor. Os lances mais perigosos foram os mais comentados e aplaudidos. Mas os lances polémicos, de faltas ou supostas faltas, são os que levantam mais discussões. Em gritos. Mas tudo dentro da paz, claro. Chegado o intervalo aproveitei para beber mais um mazza (néctar de manga) e comer uns espetos (espetadas de porco). Interessante que das cento e muitas pessoas que estiveram a assistir ao jogo só umas 10 consumiram alguma coisa. Ilucidativo da realidade local... Segunda parte e finalmente os golos. O golo do Porto foi o mais festejado e deu para perceber que havia mais portistas presentes do que benfiquistas. Acho que era porque estavam mais confiantes. Quando o jogo terminou todos ficaram contentes e bateram palmas. Ainda se ouviram uns gritos pelo Sporting, o que por aqui é coisa rara. Claro que depois, como sempre, todos acharam que a sua equipa merecia ter ganho. Até eu.

O problema do lixo

Além da matemática, uma das minhas grandes lutas em Cabo Verde tem sido a consciencialização dos meus alunos para a questão do lixo. De facto, nenhum deles manifesta estar sensibilizado para tal. Exemplo disso são as salas de aula que, pelo último tempo, têm mais papéis e plásticos no chão do que todos os caixotes do lixo da escola. Aliás, para os alunos é perfeitamente natural e normal, mesmo dentro da sala de aula, mandar o lixo para o chão ou mesmo pela janela. Como se nada fosse. Poderia-se pensar que se trata apenas de uma questão de educação. Mas é bem mais que isso. É, acima de tudo, um problema cultural, enraizado em toda a sociedade, do mais novo ao mais velho. pois, ninguém se importa. Ninguém repreende ninguém. As pessoas têm outras preocupações. Outras prioridades, porventura, muito mais importantes e decisivas na sua vida. Aliás a existência de contentores e a recolha de lixo é algo muito recente em Cabo Verde. Pois, até há bem pouco tempo, cada família se desfazia do seu lixo como podia. Talvez por isso não exista essa consciência cívica, esse hábito, de colocar o lixo no lixo. Desta forma, só as novas gerações poderão modificar e alterar esta situação. Mas não é fácil alterar mentalidades e hábitos tão enraizados. Por isso batalho tanto com os meus alunos. Pois para eles, e para a sociedade, um papel no chão não tem importância nenhuma. Até porque a empregada limpa, dizem-me.

Preciso de dormir para parar de sonhar

Nestes últimos tempos raramente tenho sonhado. Só mesmo de olhos abertos. O que, convenhamos, não tem a mesma graça. Mas nem sempre foi assim. Quando era mais novo sonhava imenso. Muito mesmo. Talvez porque tinha mais tempo, mais disponibilidade e menos preocupações. Não sei. O que sei é que era muito bom. Especialmente naquela altura do sono, entre as 8 horas e o meio-dia, em que já se está meio consciente e que se consegue controlar o sonho a nosso belo prazer. E sonhar, meio consciente, é do melhor que há. Muito melhor do que qualquer filme. E bem mais real e interessante. Nem que seja porque o actor principal, realizador e argumentista somos nós próprios, tal como num bom filme do woody Allen. Ainda por cima, desta forma, tem-se a possibilidade de sonhar com as coisas mais fantásticas e impossíveis que se possa imaginar. E sempre com a garantia de um final feliz. Para o nosso lado, claro. Pelo menos se conseguirmos levar o sonho até ao fim. O que muitas vezes, por causa da hora de almoço, se torna impossível. E acordar a meio de um sonho destes é do mais bárbaro que existe. Porque, por muito que se tente, não se consegue voltar a ele. É de ficar amuado para o resto do dia. De tão bom que era.

Ora bem, hoje em dia, por muitas tentativas que faça, já não consigo sonhar desta forma. O que é uma enorme frustração, ainda para mais quando nem cinema tenho por aqui. O que quer dizer que os meus níveis de ficção, imaginação e auto-estima andam muito por baixo. E para piorar as coisas, como não consigo sonhar, perdi a motivação para dormir. O que faz com que ande com umas olheiras de todo o tamanho, mal humorado e a bocejar todo o dia. O que é muito chato. Especialmente quando o director está a falar para nós de coisas importantes. Por isso, apesar de não saber a quem me devo dirigir, quero reivindicar aqui os meus sonhos de volta, assim como, as minhas dez horas de sono por dia. Para o meu bem. E do meu próximo.

Ressaca eleitoral

Apesar de estar a meio oceano de distância de Portugal, não pude deixar de viver as emoções eleitorais da noite passada. E, obviamente, fiquei contente pelos resultados das eleições. Essencialmente porque, como sempre defendi, penso terem sido a melhor solução para Portugal. Porém, não se pense, que estou, ou que fiquei, eufórico. Pelo contrário. A hora não é de festas. É hora de governar. Seriamente.

Não pretendo fazer nenhuma análise política. As que ontem ouvimos são mais que suficientes. Deixem-me apenas dizer três coisas. A primeira vai para Paulo Portas, que pela primeira vez, teve uma atitude política honesta. Subiu na minha consideração, que, diga-se, era quase nenhuma. A segunda, é constatar que Santana Lopes não tem emenda mesmo. Ele é assim mesmo. A gente já o conhece e já não espera muito mais dele. Por isso, nem levamos muito a mal que, aquela triste figura, ainda queira, depois de ter levado Portugal e o partido a uma situação lastimável, continuar a ser líder de um partido como PSD. Certamente que o PSD, e Portugal, merecem muito melhor, pois todos já perceberam que o lugar deste senhor não é na política, mas sim numa Quinta das Celebridades qualquer. A título permanente. Claro. A terceira e última coisa que quero dizer é sobre o Bloco de Esquerda. De facto, vejo com algum, para não dizer muito, desagrado a subida eleitoral do Bloco de Esquerda. Como já referi muitas vezes, para mim, o Bloco não passa de um embuste político. Assim, só posso ficar contente pelo próximo governo não depender deles para nada.

Apesar de não ter, infelizmente, podido votar, sei que com a vitória do PS, e do Eng. Sócrates, a minha responsabilidade também aumenta, na medida que sempre fui seu apoiante. Contudo, não se pense que silenciarei a minha crítica. Muito pelo contrário. Acima de tudo sou por Portugal e nunca prescindirei dos meus princípios, o que, em alguns pontos, colidirá com as políticas que se avizinham.

Ao que parece em Portugal, hoje, começou a chover. Não chovia há 4 meses. Um bom pronuncio, eu acho.

A coisa mais estranha e absurda que escrevi. Em 5 minutos. Diga-se.

Estou sem assunto. Mas apetece-me escrever. Sem emendas. Sem correcções. Sem pensar. Apetece-me falar de alguém. Mas não posso. Apetece-me falar de mim. Mas não quero. Só me resta ir escrevendo. Começar por qualquer lado. Aguentem-se.

Gosto de pessoas com objectivos. Com capacidade de sofrimento. Perseverantes. Lutadoras. E no entanto, conheço tão poucas assim. Mas as que conheço fascinam-me. Prendem-me. Cativam-me. Uma em particular. Talvez por eu não ser assim. Talvez porque gostasse de ser assim. Não quer isso dizer que não goste de ser como sou. Gosto. Mas às vezes não chega. Parece-me faltar qualquer coisa. Que faça a diferença. A diferença entre o que faço e o que penso fazer. Entre o que sou e aquilo que podia ser. Possivelmente, se fosse aquilo que podia ser, pensaria da mesma forma. Nem daria conta da diferença. Porque nós nunca somos aquilo que podíamos ser. Há um conflito que se agudiza. Nunca estamos satisfeitos. Adaptados, talvez. Conformados. Sei lá. Parece que pertencemos a outro lado. A outras circunstâncias. Ou então não. Somos mesmo isto. Seres, por natureza, insatisfeitos. Inadaptados. Diferentes. Com características. Com gostos. Conscientes do nosso estado. Do nosso fim. E até, imagine-se, da nossa falta de jeito para escrever.

As eleições

Este é o último post político antes do dia das eleições, pois quero também fazer do dia de amanhã um dia de reflexão. Não quero fazer campanha. Todos sabem o que penso. Confesso, porém, que estou ansioso pelas eleições. Por mim bem podiam ser já hoje. As sondagens destes últimos dias parecem revelar duas coisas. Primeiro, a vitória do PS é indiscutível. Segundo, que a maioria absoluta, apesar de ser bastante provável, ainda não está garantida. Aliás, só estará garantida com todos os votos contados. Com os votos daqueles que acreditam num país melhor e mais justo. Com os votos daqueles que querem devolver Portugal à normalidade política. Com os votos daqueles que acreditam que a estabilidade política é uma alavanca essencial para se poder ter um bom governo.

Sei, contudo, que nem todos se enquadram nestes votos. Muitos votarão por outras convicções. Outros por fanatismo e seguidismo partidário. Outros por conveniência ou conivência. Outros por orgulho. Outros, até, por gosto. Como se fosse uma coisa sem importância. E isso deixa-me triste. Porque votar não pode ser uma questão de gosto e de orgulho. Porque as eleições não são um jogo de futebol. Porque os partidos não são clubes. Porque os votos não são golos. A democracia é muito mais do que isso. Tem de estar muito acima disso, pois o que está em jogo é, simplesmente, o futuro de Portugal. E quer queiramos quer não, isso está nas nossas mãos. De todos. Sem excepção.

Diário de um professor V

Anteontem, numa aula, um aluno chamou-me de maluco. Espontaneamente e, ao que me pareceu, sem me querer ofender. Contudo, e apesar de ter falado em crioulo, teve azar, pois ouvi e percebi exactamente o que disse. Como é óbvio, não tive outra alternativa senão a de colocar o aluno fora da sala de aula, com a respectiva falta disciplinar e participação ao director de turma. Inevitável. Hoje, num intervalo, apareceu-me a mãe do dito aluno para falar comigo. Depois de se apresentar, explicou que o seu filho lhe tinha contado o que se passou, e que, por isso, vinha pedir desculpa pelo seu comportamento. Apesar de o filho lhe ter dito que aquela palavra saiu sem ele querer, dizia-me que sentia-se envergonhada, e garantiu-me que o rapaz nunca mais iria ter uma atitude como aquela, pois tinha sido repreendido com uma “grande sova”. Repetiu-me isto três vezes. Como devem calcular, e apesar de compreender e aceitar as diferenças culturais, não pude deixar de ficar com a consciência um pouco pesada. Contudo, aqui, as regras são bem rígidas, e mesmo na própria escola, qualquer comportamento inadequado é punido muito severamente. Como castigo. Como exemplo. E essencialmente, como forma de preservar a autoridade da escola. Do professor. E o certo é que, quase sempre, a coisa funciona...

Vamos a banhos?

Esta semana deixei morrer um dos muitos mitos que me inculcaram desde criança. Falo, neste caso, do mito, que muitos aceitam como verdade absoluta, de não se poder tomar banho, frio ou quente, depois das refeições, pois pode parar a digestão ou, como se diz, ter-se uma congestão. Confesso, que sempre fui muito cumpridor das 3 horas de digestão antes de tomar qualquer banho, mesmo quente. Por esse facto, a minha colega Helga, que vive comigo, chamou-me à razão e lá me explicou a digestão tim-tim por tim-tim.

Ora bem é verdade que, a paragem de digestão pode ocorrer após uma refeição copiosa ou com alimentos de difícil digestão, a quem desenvolve exercício físico intenso, ingere alimentos gelados ou toma banho de água fria. E ocorre porque como o nosso corpo tem prioridades, ou melhor, funções prioritárias, o sangue é redireccionado para os órgãos e funções onde está a ser mais preciso. Ou seja, quando acabamos de comer, e mesmo quando ainda estamos na santa refeição, o sangue é redireccionado para o aparelho digestivo, que é o sítio onde ele é mais preciso. Ora, se tomarmos banho em água fria, há um choque térmico com a nossa pele, e quando isso acontece, o sangue de imediato acorre à pele para moderar a temperatura e anular esse choque térmico, e nesse caso, pode dar-se a congestão (congestão= paragem da digestão) porque o sangue sumiu-se para outro órgão do corpo, para outra função.

Explicada a parte científica vamos ás conclusões. Primeiro, na teoria, não se deve tomar banho depois das refeições com água fria. Contudo, com água quente ou à temperatura ambiente não há risco nenhum (há especialistas que dizem que, mesmo com água fria, o risco é insignificante ou nulo). Segundo, essa história de se poder tomar banho meia hora depois das refeições porque a digestão ainda não começou é uma grande treta, visto a digestão começar logo imediatamente quando colocamos a comida na boca.

Música Vs Notícias

A maior parte dos meus amigos sabe que eu não percebo nada de música. Não sei os nomes das músicas, nem sequer reconhecer quem é o seu autor. Excepção feita ao Jorge Palma. Claro. O motivo de ser assim, tão inculto musicalmente, tem que ver com o facto de desde adolescente, e ainda sem ter leitor de CDs nem gira-discos, só ligar o rádio para ouvir as notícias e programas da TSF – Rádio Jornal. A verdade é que nunca tive a paranóia de ouvir música na rádio, nem a de andar de walkman, nem de estudar a ouvir música. Muito menos de ficar horas sentado a ver a MTV ou qualquer canal do género. Preferia as notícias, os debates políticos, as entrevistas ... Não se pense, porém, que não gosto de música. Pelo contrário. Há uns anos até tentei resolver esta minha falha. Comecei a ouvir música compulsivamente para recuperar o tempo perdido. Ainda consegui recuperar algumas coisas, especialmente musica portuguesa e brasileira, mas não consegui absorver tudo, muito menos grupos como o Linkin Park, Limp Bizkit, ou coisas do género.

Vem isto a propósito pelo facto de, mesmo a partir de Cabo Verde, ter redescoberto o meu velho prazer de adolescente. Ou seja, voltei a ouvir a TSF- Rádio Jornal, diariamente, graças à internet e à ADSL. Voltei ao meu velho vício. Lá vai a música ficar novamente para trás. Mas com o que por aí anda, também não vou perder nada de mais.

Confessionário

Por crescer numa família protestante, nunca festejei o carnaval. Mesmo em criança. Até me recordo de sentir alguma inveja dos trajes carnavalescos dos meus colegas. Porém, a partir de certa idade, quando já estava firme nas minhas convicções, sentia um certo orgulho em não dar nenhuma importância ao carnaval em si. Ainda hoje, quando penso em carnaval só penso numa coisa. Nas férias. Claro.

Este ano, estando em Cabo Verde, vivi o dilema de participar ou não no carnaval local. O contexto é outro. A cultura também. É certo que carnaval é carnaval. A origem está lá. Ainda assim, este carnaval parece-me um pouco diferente dos outros. Nem que seja porque assume tradições diferentes das que estamos habituados a associar ao carnaval dos nossos dias. Não sei se isso é uma boa desculpa, mas adiante... O facto é que acabei por participar, ainda que de uma forma passiva. É certo que não me mascarei, nem sequer desfilei. Mas cantei, pulei, dancei e bati muitas palmas. Foram quatro dias de festa onde na verdade, juntamente com os meus amigos, me diverti muito.

Bem, mas arrumado que está o carnaval, voltemos à rotina. Às coisas sérias. E às coisas breves. Até já.

Carta de amor de uma aluna II

aqui publiquei uma carta de amor que recebi de uma aluna. Depois dessa carta tenho recebido muitas outras. Ao ritmo de uma por cada quinze dias. Sempre da mesma aluna, que, por acaso, já deixou de ser. Tenho sido indiferente a tudo isto e já transmiti à colega, que serve de correio, para dizer à aluna em questão que pare de mandar cartas, porque, além de isso já me andar a incomodar, eu nunca irei responder ou dar importância. Numa espécie de resposta a este meu pedido, recebi mais uma carta esta semana, a qual reproduzo aqui, palavra por palavra:

“ João Narciso em primeiro de tudo desejo-te um bom carnaval 2005. João eu já te escrevi muitas cartas, e tu já deves estar farto delas, mas eu só vou deixar de te escrever quando tu mandares-me um foto seu. Eu prometo que não te vou escrever mais, mas se tu não me mandares até dia 11 deste mês, eu não vou parar e se tu não me mandares é porque gostas das minhas cartas. Eu desejaria de ter mais do que um foto seu mas isto é impossível porque tu nunca irias querer nada comigo, por isso peço-te um foto como um amiga. Está muito difícil te esquecer tirar do meu coração, os meus olhos dá para ver. Para ti um beijo bem grande.”

E esta hein?

Outras estatísticas

No outro dia, numa das aulas sobre estatística, resolvi fazer um exercício tipo, muito comum, para praticar a elaboração de uma tabela de frequências. O exercício consistia em contar o número de alunos consoante o número de irmãos que têm. Em Portugal, recordo-me que, no máximo, tinha um ou dois alunos com 4 irmãos. Pois bem, para perceberem que a realidade em Cabo Verde é bastante diferente, digo-vos que não tive espaço suficiente no quadro para fazer a tabela de frequências, pois havia alunos com 19 irmãos. Numa das turmas, a média rondava os 6,5 irmãos por aluno. Aliás, em 150 alunos, só encontrei 5 filhos únicos. Houve até uma aluna que não soube dizer exactamente quantos irmãos tinha. Ela bem que tentou contar pelos dedos, mas perdeu-se com a falta de tanto dedo para tanto irmão. Por fim, lá acabou por dizer que seriam, 19 ou 20. Parece-me, no entanto, que a realidade está a mudar. Não só pelo uso, mais ou menos generalizado, de contraceptivos mas, essencialmente, pela chegada da televisão, e em especial das novelas e do futebol. É caso para dizer que há males que vêm por bem. Ou não. Ou não.

Constatações pedagógicas

Já repararam que um gajo para pedir aos outros para deixarem de gritar tem de o fazer aos gritos?

Já repararam que quando duas crianças se envolvem numa briga a forma de as repreender, antes de dizer que bater é feio, é mandar um estalo a cada uma?
Na falta de assunto melhor, hoje, escrevo sobre o amor. Entre um homem e uma mulher, entenda-se. Não é que eu seja um especialista na matéria. Muito pelo contrário. Mas, mesmo assim, vou arriscar em dizer umas coisas. Comuns. Sem sentido. E breves. Claro.Todos sabemos que amar não tem nada que ver com a ideia que é transmitida nos filmes. Porém, de alguma forma, os filmes, consciente ou inconscientemente, estão contribuindo para que nunca amemos ou amemos mal. Por um lado, fazem-nos confundir amor com paixão, banalizando-o, por outro, colocam o amor num estado tão idílico e perfeito que, com tanta desilusão e frustração, julgamos ser utópico, impossível de alcançar.

Mas afinal o que é amar? A resposta a esta pergunta é, obviamente, pessoal. Cada um pode falar por si. Por isso, e infelizmente, não tenho resposta. No entanto, estou cada vez mais consciente que amar é muito mais que uma paixão e muito mais do que um simples "amo-te". De facto, não posso dizer que amo só porque alguém preenche o meu vazio, satisfaz as minhas necessidades ou me faz sentir bem. Redutor e passageiro. Digo eu.

Lembro-me de uma conversa que tive há uns tempos, em que alguém me explicava o porquê dos casamentos por conveniência, especialmente os judaicos dos tempos bíblicos. Explicavam-me então que a concepção de amor era diferente, pois acreditava-se que amar dependia de uma decisão, de uma atitude. Assim como perdoar depende. Explicando melhor. Se você acredita que pode perdoar alguém, de coração sincero, então também poderá amar. Depende de si, da sua cultura, das suas expectativas. Claro, que isso hoje é muito difícil de aceitar e até compreender. Se ninguém perdoa de coração, muito menos ama. Contudo, apesar de isto me parecer algo de radical, e até polémico, acredito que tenha um pouco de verdade. E é por esse pouco que pretendo chegar ao meu ponto.

Estou certo que o amor verdadeiro é fruto, também, de uma decisão e um compromisso. Claro que terá que haver um sentimento forte, possivelmente até de paixão, não sei. Mas o que quero dizer, este é o ponto, é que muitas vezes, não estamos dispostos a amar e desejamos muito amar. Vivemos à espera da princesa encantada, como que um milagre, tal como nos filmes, acontecesse. E depois desiludimo-nos. Antes de amar é necessário decidirmos fazê-lo. Não quer isso dizer que devemos amar pela razão. Pelo contrário. No entanto, tem de haver uma atitude em nós, intencional, racional, de preservar e construir o amor, isto é, temos de comprometer-nos racionalmente com o amor e não entregar tudo à emoção, que como sabemos, é, muitas vezes, inconstante e enganadora. E p(r)onto. Tenho dito.

Nota: Após alguns protestos, decidi alterar um pouco o último parágrafo, pois concluí que acabei por transmitir uma ideia diferente da que queria. Não sei se melhorou. Mas agora vai ficar assim mesmo.

As minhas modas

Apesar de ainda ser um jovem, na flor da idade, já passaram por mim algumas modas, especialmente quanto ao vestir. A primeira que me recordo, devia ter uns 10 anos, foi a de usar as calças arregaçadas, com duas ou três dobras na bainha, de forma a se poder ver bem os ténis, quase sempre comprados nas feiras, que por sua vez tinham a pala puxada ao máximo e os atacadores atados à volta da canela em duas ou três voltas. Lembro-me , também, de a minha irmã dizer que aquilo ficava horrível e de eu não ligar nada por achar qu estava o máximo.

Depois, com 13 ou 14 anos, recordo-me da mania de usar ténis de marca. Sem contar os famosos Sanjo tipo bota, que o meu pai insistia em comprar-me, os primeiros ténis a sério que tive foram uns Le coq Sportif vermelhos, que, por acaso, já estavam completamente fora da moda. Mas, mais tarde, quando quase todos já tinham uns, lá tive os meus adidas Stan Smith. Tive dois ou três pares consecutivos e, devo dizer, que foi a altura que fiz mais sucesso com as raparigas.

Com 15 ou 16 anos, ainda nos ténis, a moda foi os All Star, vermelhos, brancos e azuis. Toda a gente os usava, por muito sujos que estivessem. Aindaandei uns anos nisso. Por essa altura, usei também as minhas primeiras calças de marca. Uniform. Quem tinha umas calças destas era logo considerado de outra forma. Além de cuatarem 10 contos, andei a trabalhar nas obras para as poder comprar, eram associadas aos meninos mais cool's e populares da escola. Por gostar tanto delas, chegava as usar de dia e lavá-las e secá-las durante a noite. Por causa disso, por duas vezes, roubaram-me as calças do estendal. Confesso, que foram as calças que gostei mais de ter, pelo menos, até começarem a aparecer as imitações nas feiras.

Dos18 até aos 20 anos, foram as calças de ganga Levis. 501, claro. Depois os sapatos de vela. Hoje não sei bem, mas certamente que daqui a uns anos me irei lembrar...e rir, tal como me rio ao recordar tudo isto, da minha linda figura actual.

Os domingos da Vila

O dia mais animado, na vila da Ribeira Brava, é o domingo. Cumprindo a tradição, toda a gente sai de casa para se reunir na praça, o local mais carismática da vila. Desde as 17 horas até à uma da manhã, a praça fica cheia de pessoas, que se reúnem em pequenos grupos, para conversar, beber e comer, tudo ao som de uma música bem alta que sai de um dos bares próximos. Quem não souber que isto se trata de uma tradição semanal, certamente que julgará que ali está a decorrer uma festa ou qualquer coisa do género. O que me tem intrigado é o facto deste acontecimento semanal ser ao domingo e não ao sábado. E a verdade é que ninguém me sabe explicar.

Ir à praça ao domingo é acima de tudo um acto social. Das crianças aos mais velhos todos têm o seu espaço. As crianças brincam à volta da praça num corrupio constante. Os mais velhos, especialmente homens, juntam-se num canto específico da praça ou então junto a algum dos bares ali existentes. Os Jovens ficam encostados ao muro, de frente para a estrada, que limita a praça. Os rapazes, obviamente, aproveitam o dia para irem mandando uns piropos às meninas, que, quase sempre, passam o dia de um lado para outro, como de um desfile se tratasse. Porém, os mais conservadores, descem ao piso inferior da praça, e aos pares, de mão dada, ficam a noite a fazer grogue, isto é, ficam horas a fazer voltas contínuas à praça num ritual de cortejamento único. Afinal, para alguns, a tradição ainda é o que era. Ou não.

Diário de um professor IV

Hoje, ser professor é muito mais do que transmitir matéria. Porém, muitos professores só pensam na tranquilidade para dar as suas aulas. Parece que todos temem as crianças e as suas turbulências próprias da idade. Fazer-se temer, impor a distância, não se deixar levar pelos alunos. Mas ensinar só se reduz a isso? Receamos a tal ponto as crianças e as suas turbulências? É realmente a tranquilidade que nos leva a ensinar? Então é para isso que queremos ser professores? No fundo o que muitos deixam transparecer é o desejo de que as suas aulas sejam como há trinta anos atrás. Será que não dá para perceber que as crianças mudaram, que tudo mudou?

Procuro sócio para negócio de futuro

Ando com uma ideia para montar um negócio. Inovador, revolucionário. A ideia é simples, mas brilhante. Apesar do segredo ser a alma do negócio, aqui vai : formar uma empresa que resolva tudo, isto é, uma empresa de prestação de serviços, que lhe proporcine uma espécie de secretária particular, assistente pessoal ou acessor da sua inteira confiança, que resolva tudo por si. Quando digo tudo é tudo mesmo. A ideia é muito forte, não acha? Acompanhe o raciocínio. Quem tem uma vida ocupada, sabe que o que custa mais é ter que perder muito do, pouco, tempo livre a resolver problemas do dia a dia. Consomem muito tempo e são uma chatice. Muito bem. Agora imagine, se tivesse uma secretária particular ou um acessor. Certamente, que essa pessoa resolveria esses assuntos por você. Ficava apenas com a missão de decidir, de escolher. O trabalho sujo alguém faria por você. Então porque é que não tem uma secretária particular? Pergunto eu. Ora, dir-me-à que isso é para os ricos e que não tem dinheiro para isso. E se não for tão caro assim? Eu insisto. Para quê ser você a fazer, se outros podem fazer por si. Ainda por cima, melhor. Imagine: quer viajar, mudar de casa, arranjar o carro, comprar um presente, fazer uma festa de aniversário, fazer uma operação, fazer o avio mensal, pintar a casa, deixar o animal nas férias, fazer um discurso, impressionar a mulher ou resolver algum assunto inesperado, telefona ao seu acessor particular, e ele faz por você. Basta um telefonema para o seu acessor e ele resolve, ainda por cima, com a garantia de confidencialidade, competência, rapidez e eficiência. Claro que você pagaria este serviço. Mas tempo é dinheiro. E você apenas estaria a pagar o seu tempo livre, mas com a vantagem de lhe evitar preocupações, estresses e assim, talvez, lhe poupar mais uns anos de vida. Sejam sinceros, quem é que não gostaria de ter a sua secretária particular?

Uma conversa de nada

Pois é... Pois é, pá. Se não fosse isso, não sei, pá. Ouve lá ... tu sabes como é. Há alturas em que uma pessoa tem de ser ela própria . Tem de decidir, pá. E depois não é só isso, ainda tem montes de outras coisas... um gajo fica às aranhas. Não dá, meu. Não dá mesmo. É que eu não tou pra isso. Tás a ver? Tu sabes que eu sou asim mesmo. Quanda tenho a dizer, digo na cara. è ou não é? Que culpa tenho eu, pá? È pá, isto é assim mesmo, ou um gajo assume ou não. Não me venham cá com histórias da carochinha, que não sei quê e não sei que mais. Ainda por cima não havia avião. A chuva é do caraças. A chuva, pá. Olha lá pró outro, pá. Ele é que fez bem... Também te digo, a vida é mesmo assim, pá. Uma linha recta, meu. Não sei tás a ver? Um gajo não se pode desviar, pá. Isto é mesmo assim. Tou-te a dizer, pá. Independência, meu. Como é que achas que o Bill Gates chegou onde chegou? Linha recta, meu. Fixa isso.

Notícias que me fazem sorrir

A primeira encontrei no diário digital e diz que Cientistas britânicos concluíram que deixar a cama por fazer é melhor e mais higiénico. Ora, como sempre, o tempo vem-me dar razão. Estás a ver mãe?

A segunda no Público, dando conta de que um estudo revela que, duas em cada cem mulheres, se consideram bonitas. Será que não têm espelho em casa? Convencidas.

A terceira, e melhor, encontrei também no Diário Digital. Ao que parece, a próxima segunda-feira vai ser o dia mais infeliz e deprimente deste inverno, a acreditar nos investigadores da Universidade de Cardiff. O cálculo é feito a partir de uma fórmula de infelicidade, 1/8W+(D-d) 3/8xTQ MxNA, onde W é o tempo, D é a quantia em dívida, menos o ordenado de Janeiro (d) e T é o tempo que passou desde o Natal. Há ainda que ter em conta Q, o período desde que se falhou numa tentativa de deixar um vício e M, níveis de motivação, assim como NA, a necessidade de agir e fazer alguma coisa quanto à situação. Bem, com isto tudo só me ocorre perguntar, se este pessoal não tem nada que fazer? Ou será que a próxima segunda-feira vai ser pior que hoje? Duvido.

Diário de um professor III

Não existem alunos iguais e o que pode resultar com um pode ter o efeito completamente contrário com outro. Essa é a grande dificuldade de ensinar mas também o grande desafio que temos pela frente. Não há fórmulas infalíveis e haverá sempre dificuldades. Como lidamos com elas, como as resolvemos, como as evitamos são respostas que nós próprios vamos encontrando e apreendendo.

Até amanhã

Hoje, estou sem paciência para escrever alguma coisa de jeito. Aliás, tenho a sensação que não escrevo nada de interessante há algum tempo. Também depois de escrever tanto post é difícil ser, todos os dias, original, engraçado, interessante, entusiasmante. Ainda para mais, aqui não se passa nada. Que dizer, hoje, até choveu. Motivo suficiente para um bom post. Mas não me apeteceu. Ou melhor, não me apetece. De qualquer maneira, ainda não é desta que vou desistir. Mais, vou continuar a postar diariamente. Mas confesso que, por vezes, perco o entusiasmo, especialmente porque tenho a sensação que ninguém me lê, e assim não vale a pena. Vaidade de vaidades. Tudo é vaidade. Com toda a certeza. O que vale é que, por vezes, aparecem uns comentários que me animam e que me renovam o entusiasmo. É o caso destes e deste. Obrigado

As crianças

Uma das coisas que mais me tem impressionado, em Cabo Verde, é a alegria das crianças. Ainda para mais porque sei que nem sempre levam uma vida fácil. Muitos, não vivem com os pais, não têm brinquedos comprados, ténis ou televisão. Alguns, nem sequer electricidade, água ou comida. Contudo, apesar de enigmático, conservam um sorriso natural, espontâneo e contagiante. Não sei explicar bem porquê, mas talvez seja porque são mais livres, no sentido em que ninguém os condiciona nas brincadeiras o que, talvez, possibilite que sejam mais naturais e ,por isso, mais alegres.

Além de me parecerem felizes, estas crianças conservam um grande espírito de solidariedade. Deixem-me dar um exemplo, para perceberem do que falo. Perto da escola, existe um campo de futebol de salão em cimento. Nesse campo, por mais do que uma vez, já assisti a 3 jogos de futebol em simultâneo, com 6 equipas, 3 bolas distintas e apenas 2 balizas. Os jogos decorrem normalmente, mas ao mesmo tempo, com os guarda redes a revezarem-se nas balizas, conforme a proximidade da bola do seu respectivo jogo. O mais incrível é que os jogos ocorrem sem problemas, onde ninguém interfere, intencionalmente, no jogo que não é o seu. Claro que, de vez em quando, uns levam umas boladas, mas ninguém se queixa, pois isso também faz parte do jogo. Parece impossível imaginar, mas de facto, é algo lindíssimo, porque tudo parece estar, de alguma forma, coordenado, como num bailado.

Um dia na América

Ontem, regressado de férias da América, chegou a São Nicolau o meu amigo Jack, Peace Corp Americano. Dizia-me ele que quando chegou à América sentiu-se um pouco estranho e incomodado, especialmente porque os amigos, que ele não via há dois anos, desde o fim da universidade e vinda para Cabo Verde, só lhe falavam do emprego, do carro, da casa, do cão, do plasma,... quando ele só tinha roupa e uma guitarra...

Contudo, parece que as suas férias foram muito animadas, cheias de jantares, festas e ... mulheres. Diz ele que descobriu uma táctica infalível para cair nas boas graças das americanas. Ao que parece, por lá, basta dizer que se faz trabalho voluntário em África, para elas ficarem logo derretidas. E eu, fiquei a pensar para mim, porque não me lembrei disso?!

10ºA / Emídio Navarro /2001-02

Quando recordo o meu ano de estágio, como professor de Matemática, na Escola Sec. Emídio Navarro, fico sempre com um sorriso nos lábios. Recordo-me do primeiro dia, ao entrar pelo portão da escola, o caminho ser-me barrado por um contínuo, pensando que eu era um aluno. Foi, de facto, um ano marcante, inesquecível, em que tive experiências muito gratificantes e enriquecedoras mas onde também, pela primeira vez, me confrontei com medos, incertezas, dificuldades e dilemas que até então eram-me totalmente desconhecidos.

Vem isto a propósito porque, recentemente, tenho tido oportunidade de falar com alguns dos meus alunos de então. Foram alunos extraordinários. Tenho para mim que só daqui a muitos anos terei uma turma tão boa como aquela. Não sei se fui bom professor ou não. Eles o dirão. Mas, não deixa de ser engraçado e recompensador revê-los. Apesar de nem sempre me conseguirem tratar por tu a diferença deles para mim é, hoje, nula. Deixaram de ser alunos, para se tornarem amigos, colegas, o que quiserem. Agora, quase todos, estão na universidade o que me deixa com um enorme orgulho. Afinal, por pequena que fosse, também fiz parte da sua formação, como alunos e, espero, como pessoas.

Hora crioula

De facto, Cabo Verde é o local indicado para desenvolver a paciência. Se existe a pontualidade britânica, aqui, em oposto, existe a hora crioula. A hora crioula é mais ou menos 45 minutos depois da hora marcada. Toda a gente rege-se pela hora crioula. Até eu, que sou o ser mais pontual que conheço. Mas, a verdade é que cansei de esperar continuamente. Pior, cansei que achassem graça de eu chegar a horas.

A hora crioula está tão enraizada nas pessoas que acaba por ter efeitos muito perversos na sociedade, especialmente na produtividade e na qualidade dos serviços. Por exemplo, estou há 6 dias à espera que me instalem a ADSL em casa. Estou farto de telefonar a reclamar e ninguém se incomoda. Haja paciência.

Vamos aos saldos?

Muita gente tem a ideia que com 5 euros, em Cabo Verde são reis e senhores. Desenganem-se. Hoje, por exemplo, fui às compras, essencialmente comida, e gastei 100 euros, sem, no entanto, trazer nada de significativo para casa. As coisas, em Cabo Verde, têm pelo menos o dobro do preço do que em Portugal. De facto, muitos dos produtos vendidos acabam por ser os mesmos, acrescidos dos custos de viagem e dos ganhos dos, pelo menos, dez intermediários.

Esta realidade acaba por ser chocante, pois a maior parte da população não trabalha e os que têm trabalho, têm um ordenado médio a rondar os 100 euros. Ainda para mais, com a enorme carência de água, já são poucos os que conseguem ter a sua própria horta ou animais. Assim, devem estar a perguntar-se, como consegue a população sobreviver? A questão é para mim recorrente. Dizem-me que é á custa do dinheiro vindo da emigração e de uma vida de sacrifício, restringida ao essencial, isenta de luxos e de custos supérfluos.

Pergunta-se o Jorge, no Africanidades, “como podemos nós, ocidentais, lidar com a nossa condição, sem nos sentirmos culpados por isso? Será que nos devemos sentir culpados? Porque temos nós tudo e outros tão pouco ou nada mesmo? O que podemos fazer para diminuir esse fosso? E como fazer para não tornar esse fosso cada vez maior?”

Efeito borboleta

Ontem revi um dos filmes que gostei mais de ver nos últimos tempos. Efeito Borboleta. Este é um daqueles filmes que põe um gajo a pensar. A história, em traços simples, é a de um rapaz (Evan) que descobre uma forma de alterar algumas coisas do seu passado. Para isso ele decide realizar uma regressão, onde volta também fisicamente ao seu corpo de criança, revivendo e alterando determinadas situações. Ele altera atitudes e muda completamente o seu destino, de sua namorada e amigos. Porém ao tentar corrigir alguns dos seus antigos problemas ele termina por criar novos, já que toda mudança que realiza gera consequências em seu futuro. Mas Evan rapidamente descobre que ter o dom de manipular o passado, não significa controlar o futuro.

Quantos de nós já não pensámos que se tivéssemos tomado, num determinado momento, uma decisão em vez de outra que hoje a nossa vida seria completamente diferente? Pois bem, o filme explora essa ideia ao limite, e faz-me pensar que, mesmo em momentos chaves da minha vida, se tivesse decidido de outra forma, não significaria que hoje estaria melhor. Nós somos o nosso passado e se o nosso passado fosse outro seríamos talvez também outros, não necessariamente melhores ou piores, simplesmente diferentes. Por outro lado, relembra-me que as decisões que tomo hoje podem ter uma grande importância no meu futuro, destino, sei lá. Mesmo as mais insignificantes.

Nota: O título deste filme tem origem na Teoria do Caos, segundo a qual pequenas diferenças nas condições iniciais de um sistema podem conduzir a diferenças bastante significativas no resultado final. Em 1961, Edward Lorenz trabalhava num modelo computacional de previsão meteorológica. Num procedimento, em vez de colocar o número inicial 0,506127, arredondou-o para 0,506. A diferença de apenas milésimos provocou resultados finais totalmente distintos e com erros catastróficos. Daí aquela frase “um bater de asas de uma borboleta em Portugal poderá provocar um tornado na Austrália”. Isto é o Efeito Borboleta.

Fazer o que tem de ser feito

Estou farto de ver o país refém de acordos de conveniência e de interesses partidários, quase sempre castradores de algum laivo reformador. Todos exigem mudanças profundas e reformas nas políticas governativas. Mas fazer reformas não é fácil. Os resultados de uma reforma não aparecem no imediato. È impopular, faz perder votos, mexe com interesses instalados e por vezes dói. Assim, para “fazer o que tem de ser feito” é necessário coragem e acima de tudo condições políticas. Ou seja, é necessário um governo de gente competente, sem medo de ser criticado ou de não ser reeleito, apoiado por uma maioria. Absoluta, para não haver desculpas. Infelizmente ainda existe um trauma pós-cavaquista quanto às maiorias absolutas. Para gáudio de alguns, pena minha e desgraça do país.