Pretensões

Ando empenhado em aumentar o meu peso em mais 8 quilos. Um amigo, ao saber desta minha pretensão, disse-me que eu devia inscrever-me no ginásio aqui da vila, para aumentar a massa muscular. Assim, há cerca de 3 meses atrás, inscrevi-me. A verdade é que ainda não ganhei nenhum quilo. Parece que é preciso ir lá.

A felicidade não está no lugar onde estamos e muito menos naquilo que temos!

Não tenho carro nem bicicleta. Não tenho sala de jantar nem casa de banho privada. Não tenho telemóvel nem mensagens escritas. Não tenho electricidade todos os dias nem água potável na torneira. Não tenho uma TV grande nem um aparelhagem de som. Não tenho máquina de lavar roupa nem de lavar loiça. Não tenho banheira nem piscina. Não tenho cinema nem teatro. Não tenho cão nem gato. Não tenho roupa nova nem ténis de marca. Não tenho playstation nem jogos no computador. Não tenho dinheiro a render juros nem acções. Não tenho centros comerciais nem parques de diversões. Não tenho TV cabo nem rádio. Não tenho Mac Donald’s nem Pizza Hut. Não tenho jornais nem revistas. Não tenho ar condicionado nem ventoínha. Não tenho café nem gelados.

E no entanto, tenho tido os melhores tempos dos últimos anos...

Exemplos educativos III

Durante o dia de hoje e o dia de amanhã estarei numa formação para professores. O tema do primeiro dia foi sobre a indisciplina na sala de aula. Como já referi muitas vezes neste blogue, a indisciplina por aqui, comparada com a que me deparei em Portugal, é praticamente inexistente, resumindo-se a comportamentos perturbadores próprios e naturais das crianças. Aliás, hoje constatei que os professores foram mais indisciplinados na formação do que os próprios alunos o são nas aulas. De facto, é impressionante como facilmente caímos em comportamentos que nós próprios criticamos e censuramos aos nossos alunos. Mesmo agora, e a título de exemplo, ao folhear o caderno que levei para a formação, reparei que, em vez de sínteses e comentários do que foi apresentado, tinha o caderno cheio de desenhos de borboletas, casas, animais, bolinhas e de riscos que nem eu sei explicar. Agora imagine-se o que é uma criança, cheia de vontade de brincar, saltar, correr, gritar, ter que suportar 5 aulas por dia, cada uma mais chata e menos interessante que a outra, numa sala de aula insuportavelmente quente e sobrelotada?!? Haja paciência.

No que é que estás a pensar?

Hoje, num filme antigo que passou na TV, uma mulher vira-se para o marido e pergunta: “No que estás a pensar amor?” Ao que o homem, muito carinhosamente, responde: “Oh querida, se eu quisesse que você soubesse, eu estaria a falar e não a pensar, não acha?”. De facto, a pergunta “no que estás a pensar?” é recorrente. Especialmente, se for feita pela nossa mulher, namorada ou seja lá o que for. Muitas vezes, como a resposta “em nada!” não satisfaz, temos que recorrer a uma resposta padronizada. Qualquer coisa como isto: “Desculpa estar pensativo, querida. A verdade é que estava apenas reflectindo em como tu és maravilhosa, carinhosa, prestativa, inteligente e bonita, e como eu sou um sortudo em te ter encontrado”. Obviamente que, na maior parte das vezes, esta resposta nada tem que ver com o que nós estamos a pensar na realidade. De facto, ou muito me engano, ou se não estiver a pensar no jogo que o Benfica não ganhou por culpa do árbitro, ou no carro novo do vizinho, ou naquela mulher bonita com quem se cruzou no elevador, ou no como a sua mulher está gorda, o mais certo é estar a pensar na desculpa que vai dar à sua mulher para ir beber um copo sozinho com os seus amigos e assim não ter que ouvir ninguém fazer tantas perguntas!

Vidas reais

Na escola, o intervalo grande, na sala de professores, é sempre muito animado. Especialmente quando os professores partilham as estórias que acontecem na sala de aula. Desta vez, a estória aconteceu numa aula, de inglês do 7º ano, de uma Peace Corp americana. Contava ela que pediu a um aluno para ir ao quadro completar umas frases de um diálogo. Mas que o aluno se recusou em ir. O que para ela foi uma surpresa, pois tratava-se de um aluno bastante participativo. A verdade é que ela insistia e o aluno recusava. Até que, depois de ameaçá-lo em colocar-lhe uma falta disciplinar, ele anuiu em ir. Quando, finalmente, o aluno se dirigia para o quadro, reparou que ele levava o caderno nas mãos. Como o exercício era para resolver sem caderno, a professora pediu-lhe para lhe entregar o caderno. Mais uma vez, o aluno recusou em atender ao pedido da professora. Chegando mesmo a fazer birra. O que, segundo a professora, se revelava muito estranho, pois o aluno não era de ter estes comportamentos. O facto é que, nem por nada, queria deixar o caderno, que rigidamente segurava sobre a cintura. Até que, depois de novamente ameaçá-lo em colocar-lhe uma falta disciplinar, o aluno lá, a muito custo, deu o caderno à professora. E foi aí que toda a gente compreendeu o comportamento estranho do rapaz. Pois, no preciso momento em que dá o caderno à professora, todos reparam que afinal o que rapaz tinha, não era medo de não saber fazer o exercício ou algo do género, mas sim, segundo as palavras da professora, uma enorme erecção. Que aulas excitantes, hei!

Habemus Papam

Quem costuma passar por aqui, sabe que tenho convicções protestantes*. Por isso mesmo, esta euforia à volta do novo papa não me entusiasma. Aliás, esta euforia toda, primeiro com a morte do papa e agora com esta eleição, tem sido, na minha opinião, um autêntico exagero, tornando-se assim numa enorme campanha publicitária, quiçá, a maior que a igreja católica teve em todos os tempos. Talvez por isso, não seja inocente o facto de o novo papa ter 78 anos. Afinal se esta história se repetir daqui a uns 6 ou 7 anos não será assim tão mau...*já agora, de forma a fazer uma breve destrinça entre protestantismo e catolicismo, recordo o teólogo Karl Barth, protestante, que, de uma forma muito sucinta, disse, que a diferença entre o Catolicismo e o Protestantismo se resumia apenas à conjunção e. O Protestantismo diz: "Jesus Cristo"; o Catolicismo acrescenta: "e Maria". O Protestantismo afirma: "a Bíblia"; o Catolicismo junta: "e a Tradição". O Protestantismo declara: "a fé"; o Catolicismo diz: "e as obras".

Casa da Música

Finalmente a Casa da Música foi inaugurada. Apesar de estar a alguns milhares de quilómetros de distância, confesso que fico sempre orgulhoso quando em Portugal se faz alguma coisa acima da média. Parece-me ser o caso, pois, segundo dizem, a Casa da Música é uma das salas com melhor acústica do mundo. Talvez seja por isso que as críticas do conceituado Rui Veloso têm sido tão ferozes. A sala realça demais a sua voz.

Há dias assim

Hoje tive saudades dos meus pais. Tive saudades dos seus conselhos. Tive saudades de morder as orelhas da minha mãe. Tive saudades de fazer cócegas no meu pai. Tive saudades de ouvir a minha mãe a dizer-me que tenho de ser humilde. Tive saudades de andar à procura das bananas escondidas entre panelas. Tive saudades de ver, ás escondidas, os filmes com bolinha. Tive saudades de ouvir a minha mãe dizer-me para cortar o cabelo. Tive saudades de jogar à bisca dos nove com o meu pai. Tive saudades de saltar pela janela para ir brincar com os meus amigos de noite. Tive saudades de ouvir o meu pai a falar na igreja. Tive saudades da minha mãe me dar quinhentos paus por eu lavar a loiça. Tive saudades das histórias que o meu pai conta de quando ele era novo. Tive saudades das perguntas da minha mãe acerca das namoradas. Tive saudades de me acordarem quando eu mais sono tinha. Tive saudades dos avisos da minha mãe por causa das más companhias. Tive saudades do meu pai colocar comida no meu prato mesmo contra a minha vontade. Tive saudades da minha mãe se zangar por eu chegar tarde. Tive saudades do meu pai a desligar-me o esquentador por eu demorar muito no banho. Tive saudades dos seus sorrisos. Tive saudades de quando não tinha saudades. Enfim... tenho saudades deles.

Dúvidas existenciais III

Até à páscoa passada vivia com uma dúvida existencial, que julgo ser a de muitos. Porque raio é que os símbolos da páscoa são o coelhinho e os ovos coloridos? Será que, noutros tempos, os coelhinhos punham ovos? Bem, apesar de esta explicação vir fora de época, com a ajuda do google, vamos lá esclarecer isto de uma vez por todas.

Comecemos pelo ovo. Nas religiões orientais, na mitologia grega, nas tradições populares, o ovo sempre teve significado de principio de vida. O ovo aparentemente morto contém uma vida que surge repentinamente, acreditando-se por isto, que ele seja o símbolo da páscoa da ressurreição. Outro facto é que depois da quaresma e da semana santa, comer ovos era um método conveniente e nutritivo para a preparação da páscoa. Embora haja divergência sobre a origem dos ovos da páscoa sabe-se que, para alguns, os ovos enfeitados era uma tradição na Idade Média. Séculos antes, porém, os chineses já costumavam colorir ovos que eram distribuídos aos amigos na Festa da Primavera, como lembrança da continua renovação da vida. Mais tarde, no século XVIII, e para completar a história, a Igreja Católica adoptou oficialmente o ovo como símbolo da ressurreição de Cristo.

Quanto ao coelhinho a explicação é um pouco mais rebuscada. A tradição do coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães em meados de 1700. Conta-se que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se então a história de que o coelho é que trouxe os ovos. Existem ainda outras explicações, especialmente a religiosa, que tem que ver com o facto de os coelhos se reproduzirem com extrema facilidade e em grande quantidade, vindo daí a identificação com uma vida abundante, um processo de restauração, um ciclo que se renova todos os anos.

Pimenta no olho do vizinho é refresco

Este governo anda muito discreto. Porém, tem dado alguns sinais quanto às políticas que aí vêm. Primeiro, com a história da venda de medicamentos fora das farmácias. Depois com a redução das férias judiciais para apenas um mês. E por último, a proposta de os professores começarem a ter que preencher os “furos” nas aulas dos alunos. Ora ninguém pode negar que estes sinais têm sido corajosos, pois vão contra interesses corporativos instalados na nossa sociedade. Talvez sejam o impulso necessário às reformas que o país tanto espera e necessita. Por isso, não se compreende as reacções dos farmacêuticos e dos juizes. Até parece que, só porque mexeram com os seus interesses, que já não querem as benditas reformas. As únicas reacções que me parecem justas, curiosamente na parte que toca com os meus interesses, são a dos sindicatos dos professores. De facto, essa história de os professores terem que preencher os “furos” dos seus colegas parece-me um pouco despropositado. Era o que faltava um gajo ter que andar a substituir um colega só para os meninos não ficarem sem nada para fazer. Pior, era o que faltava alguém ter que me substituir quando eu faltasse. Não me digam que agora um gajo já não pode ficar com dores de cabeça ou com indisposições físicas? Pensam que somos o quê? Por este andar, qualquer dia, ainda nos tiram os três meses de férias no verão ou reduzem aquelas, bem merecidas, semanas de descanso no Natal e na Páscoa. Já não bastou nos tirarem aqueles dois dias na semana do Carnaval? O que eu vos digo é que assim, mais vale continuar tudo na mesma. Que se lixem as reformas. Pelo menos aquelas que mexam comigo. Claro

Convém que Ele cresça e que eu diminua

Aproveitando a tolerância de ponto, concedida pelo governo Cabo-verdiano a propósito da morte de João Paulo II, decidi dar uma vista de olhos nas cerimónias fúnebres que preenchem as televisões há imensos dias. E, ao observar toda aquela ostentação, riqueza e idolatria, não pude deixar de pensar na morte singular de Jesus Cristo na cruz, e lembrar que “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (Actos 4.12).

Tu es Petrus et super hank Petram aedificabo Eclessiam meam!

Vai hoje a enterrar Karol Wojtyla. O Bispo de Roma. O Primaz da Itália. O Patriarca do Ocidente. O Vigário de Jesus Cristo.O Servo dos Servos de Deus. O Sumo-Pontífice da Igreja Universal. O Sucessor do Príncipe dos Apóstolos. O Soberano do Estado da Cidade do Vaticano. O Arcebispo e Metropolita da Província Romana. O Santo Padre. Ou seja, o Papa João Paulo II.Sobre a figura do chefe da Igreja Católica não tenho muito que referir. Até porque as minhas convicções Cristãs são em tudo contrárias ao que o Papa é e representa. De facto, se por um lado, Karol Wojtyla, me merece respeito, pelos seus esforços pela paz no mundo e pela sua preocupação com os mais desfavorecidos, por outro, e por muito chocante que a afirmação possa ser, levanta em mim sérias dúvidas quanto ao facto de ser verdadeiramente um “servo de Deus, quanto mais o substituto de Jesus Cristo na terra. A verdade é que até me arrepio com tamanha heresia.

Bute?

A vida de qualquer rapaz deve ser, entre outras coisas, correr atrás de raparigas. Hoje em dia, porém, os rapazes não correm atrás das raparigas- andam com elas. Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem, laconicamente, com o ar indiferente que marca o “cool” da contemporaneidade “Vamos curtir?”. Ou simplesmente “Bora aí?”. Nos últimos tempos, esta economia de expressão atingiu o cúmulo de se cingir a um breve e boçal “Bute?”. “Bute?” significa qualquer coisa como “Acho-te muito bonita e desejável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete e framboesas”. Mas, como os rapazes só dizem “Bute?”, são as raparigas que têm de fazer todo o esforço de interpretação e de enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas “ Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?”. E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de considerações pouco líricas – foi um “Bute?” terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixonado ou desapaixonado?

Adaptado de um texto de Miguel Esteves Cardoso, in causa das coisas

Reflexos da morte do Papa

Ao regressar de férias do Brasil tive ainda de passar 3 dias na ilha do Sal à espera de voo para São Nicolau. Desta forma, além de ter feito um pouco mais de praia, aproveitei a oportunidade para estar com alguns amigos que por ali tenho. Assim, no sábado à noite combinámos sair para bebermos um copo e trocarmos umas ideias. A noite de sábado no Sal é muito animada, ainda para mais cheia de turistas, e por isso a coisa prometia. Apesar da morte do Papa ser o tema do dia nunca pensámos que ele fosse o tema dominante. A verdade é que acabou por ser, pois, para descontentamento e espanto de muitas pessoas, a polícia fechou todos os bares e discotecas da vila. Ordens superiores, diziam (parece que fizeram o mesmo em Cuba). Confesso que ainda fiquei um pouco preocupado, pois pensei que na volta ainda me iriam obrigar a chorar... Mas afinal não chegaram a tanto. O objectivo era apenas fazer cumprir, mesmo que um pouco à força, o dia de luto sem música nem divertimento. Só não compreendo é porque também não fecharam as escolas?!? Assim sim, teriam sido uns dias de luto a sério!