Bute?

A vida de qualquer rapaz deve ser, entre outras coisas, correr atrás de raparigas. Hoje em dia, porém, os rapazes não correm atrás das raparigas- andam com elas. Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem, laconicamente, com o ar indiferente que marca o “cool” da contemporaneidade “Vamos curtir?”. Ou simplesmente “Bora aí?”. Nos últimos tempos, esta economia de expressão atingiu o cúmulo de se cingir a um breve e boçal “Bute?”. “Bute?” significa qualquer coisa como “Acho-te muito bonita e desejável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete e framboesas”. Mas, como os rapazes só dizem “Bute?”, são as raparigas que têm de fazer todo o esforço de interpretação e de enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas “ Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?”. E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de considerações pouco líricas – foi um “Bute?” terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixonado ou desapaixonado?

Adaptado de um texto de Miguel Esteves Cardoso, in causa das coisas

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