Deus dá nozes a quem não tem dentes

Na sexta-feira à tarde parti um dos dentes da frente. À custa disso, passei o fim-de-semana praticamente fechado em casa, com vergonha que alguém me visse naquela triste figura. Pois, é que só hoje, pela tarde, é que consegui restaurar aquele maldito dente. Mas, a verdade é que podia ter sido bem pior, pois, até há bem pouco tempo atrás, o dentista só vinha a São Nicolau uma vez de dois em dois meses. O que vale é que agora temos uma dentista local, acabadinha de concluir o curso no Brasil. E que dentista… Arrisco mesmo a dizer que é do melhor que tenho visto por aí. E ainda por cima até percebe alguma coisa de dentes e coisas assim! Aliás, se eu soubesse que era assim, já tinha partido um dos dentes há muito tempo. Garanto-vos.

Feira de vaidades

Ao que parece, tiveram ontem início as Feiras do Livro de Lisboa e Porto. Apesar da admitir a utilidade e interesse dessas feiras, confesso que a mim me dizem muito pouco ou nada. De facto, parece-me que a maior parte das pessoas que vão lá, vai apenas numa de marcar presença, para parecer bem ou para parecer que até gosta de ler e que é culto. Eu cá, pelo menos, admito que quando vou lá, vou apenas para ver as montras e as gajas. E se comprar um livro, ou dois, acreditem que não é por ser mais barato ou qualquer coisa do género, mas sim, para poder fazer figura, com o saco da Feira do Livro, nos transportes públicos.

Livros e leituras

Aposto que já devem ter reparado que os meus índices de leitura não são nada famosos. De facto, leio pouco. Ou pelo menos, não leio tanto quanto devia. No máximo, excluindo os científicos, um livro por mês. Quanto muito. Actualmente, na minha mesa de cabeceira, tenho três livros: Os Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez; As Farpas, do Eça e o Apocalipse Nau, do Rui Zink. Porém, destes três, só estou a ler o último (por sinal, bem interessante). Os outros, abandonei-os há uns bons meses atrás. E só não os tiro daqui porque sempre vão impressionando as visitas e decorando o quarto.

A verdade é que não consigo ler só por ler. Por simples prazer. Tenho que gostar. E muito. O pior é que são poucos os livros de que gosto. Que me dão interesse. O que é uma pena, diga-se. Por exemplo, gostava imenso de ler, e perceber, os livros do António Lobo Antunes. Mas, confesso, que após tantas tentativas frustradas tive de desistir e contentar-me com umas crónicas. È demais para mim.

Além disso, tenho um problema grave de concentração. De facto, é frequente me perder, enquanto leio, em outros pensamentos bem longe do texto, ao ponto de não me lembrar de nada do que leio e de, repetidamente, ter que voltar atrás na leitura. No fundo, parece que ainda nem sequer aprendi bem a ler. E se isso é assim, muito se deve ao facto dos meus pais não me terem obrigado, enquanto criança, a ler e a fazer os respectivos resumos. Se o tivessem feito, talvez hoje tivesse níveis de concentração de leitura bem melhores, e até, quem sabe, uma credibilidade bem diferente, nem que fosse, por usar uns óculos fundo de garrafa.

Semana fértil

Esta semana soube-se que, na escola, quatro alunas estão grávidas. É o que se chama por aqui uma semana fértil. Aliás, tem sido um ano fértil. Como todos os anos, eu acho. Mas pior do que estes números é saber que as mães têm entre os 15 e os 17 anos e que pelo menos um dos pais é aluno do 7º ano e tem catorze anos. Aliás, ainda esta semana, por causa de uma destas situações, participei numa cachupada dos anjos* em favor de uma destas meninas. Apesar desta situação ser encarada com preocupação por parte das famílias, a verdade é que, por estas bandas, ninguém fica chocado com estas situações. Muito menos se sente algum tipo de descriminação ou gozo pelos alunos em causa. É a vida, diz-se. Infelizmente, e segundo o regulamento da escola, as alunas serão obrigadas a abandonar a escola. De facto, o regulamento é muito rigoroso, e talvez até injusto, nestes aspectos. Porém, e apesar de tudo, é uma das formas que a escola tem de controlar, punir, algumas situações menos desejáveis. Neste sentido, por exemplo, não é permitido que rapazes e raparigas troquem carinhos, abraços, beijos ou quaisquer outros tipos de afectos físicos, no recinto escolar. E a verdade é que os alunos, regra geral, cumprem. Até aqueles que são namorados. Mas o fruto proibido é sempre o mais apetecido, não é verdade?

* Cachupada dos anjos é uma tradição local que consiste em oferecer uma cachupa guisada (comida tradicional cabo –verdiana à base de milho) a todos os amigos, vizinhos e crianças de forma a se pedir protecção para os problemas que se avizinham. De facto, tirando a superstição associada, +e uma tradição bem bonita e bem elucidativa do espírito comunitário e de entreajuda que existe em São Nicolau.

O bom filho à casa torna

Acabo de decidir voltar para Portugal. Em definitivo. Termina assim a minha aventura em Cabo Verde. Pelo menos por agora. De facto, tal como os Xutos dizem, a vida é sempre a perder. E eu, sinto que vou perder com este regresso. No entanto é chegada a hora. A hora de voltar à vidinha comum de que já me esqueci. Ao stress. À azáfama. Às coisas. E, também, à família. Como muitas vezes aqui referi, sinto-me muito bem em São Nicolau. Fui, sou, muito bem tratado. Neste dois anos, não tenho uma razão sequer de queixa. Um sequer problema. Um sequer mal entendido. Por todos sou respeitado e acarinhado. Por todos sinto uma enorme afectividade. Não sei se me tornei uma pessoa melhor. Talvez, apenas, um pouco diferente. Talvez, as coisas tenham deixado de ter demasiada importância para mim. Talvez o tempo seja agora menos importante. Talvez me tenha tornado mais solidário. Mais corajoso. Mais adulto. Mais preguiçoso. Mais velho. Sei lá.

Mas se isto é tão bom porque me vou embora? A resposta não é fácil, nem sei se a entenderão. A verdade é que, apesar de tudo, existe em mim a convicção que estou aqui temporariamente. Que um dia hei-de voltar às minhas raízes. E isso, quer se queira quer não, acaba por condicionar, pois faz com que não me comprometa com nada, e que vá adiando o meu futuro para o dia que hei-de voltar. Talvez seja por isso que isto é tão bom. Talvez seja por isso que eu vivo, o dia a dia, feliz, despreocupado e sem muitos problemas. Mas, no entanto, sempre com a sensação de estar a perder qualquer coisa, noutro lado que não aqui. A adiar o futuro. A desprezar o presente. Confesso, porém, que estive muito na dúvida em voltar. Se não tivesse família talvez ficasse aqui. Definitivamente. Mas a família ainda é mais importante do que eu. A sua felicidade continua a ser a minha felicidade. E por isso, como poderia recusar os insistentes pedidos da minha mãe para voltar?

Pequenos prazeres de fim de semana

O bom do sábado é que posso ficar na cama até às 10 horas, ouvir um CD do Palma (CD2/Acto Contínuo/1982), e ainda assim poder comer um prato de Nestum sem medo de perder o apetite para o almoço. O dia tem tudo para correr bem.

O Passageiro Português

Nestes últimos anos, tenho tido oportunidade de viajar por diversos locais e em diferentes companhias aéreas. Desta forma, já deu para perceber que os passageiros aéreos portugueses são, sem qualquer espécie de dúvida ou apelo, os piores co-passageiros do mundo. De facto, os passageiros portugueses sabem, como nenhum outro povo, embaraçar profundamente o compatriota consciente. Há certas características que automaticamente os destinguem. Mal as nádegas estabelecem contacto com o assento, já está de indicador em riste, empurrando o botão de chamada da hospedeira. Ele quer almofadas, mantas, pantufinhas de longo alcance, copos de água gelada, jornais estrangeiros em língua que desconhece completamente, e, mais que tudo, a total atenção de quem está lá só para servir, a ele, senhor passageiro. São os “reizinhos do ar”. Na terra, são seres tão insignificantes como os outros. Mas deixem levantar o trem de aterragem e vejam-nos transformarem-se em Suas Majestades. Passam cinco minutos a usufruir do jacto de ventilação, dirigindo-o às diversas partes do corpo, para grande irritação do indivíduo (estrangeiro) que está ao lado. Depois, quando já conseguiram moer a rosca ao ponto de já não ser possível parar a baforada constante de ar podre, chamam a hospedeira e exigem ser colocados noutro lugar.

Além de estarem sempre mas sempre de pé nos corredores, confundido-se natural e alegremente com a bicha para as retretes, a qualidade mais notória do passageiro português é a obstinada exigência de desfrutar de todas, mas todas as vantagens e regalias que oferece a viagem. O passageiro português raciocina “Isto vem incluído no preço do bilhete – e raios me partam se eu não hei-de comer aquilo que eu paguei cá com o meu dinheirinho.” E assim, bebem tudo o que há de grátis para beber e, independentemente de gostos e apetites, devoram integralmente o almocinho de plástico que lhes é servido, roendo religiosamente a azeitona e a fatia moribunda de ananás, sem perder uma única passagem de cafeteira.

Mal o avião aterra, levantam-se e ficam horas, dobrados, de pé, à espera que chegue o autocarro para se abrirem as escotilhas. Atropelam-se no corredor para serem os primeiros a sair, apesar de saberem que ainda durará um bom bocado antes da chegada da bagagem. Quando lhe aparecem as malas no carrocel do aeroporto, gritam “Olha a minha! Olha a minha!”, como crianças a presenciar um acto de magia.

Enfim, é por estas e por outras que, na altura de se preencher o cartão de desembarque, quando revelamos publicamente a nossa envergonhada nacionalidade, é avassalador o desejo de escrever “filandês” , “turco” ou “iraquiano que não tem nada a ver com estes gajos”.

* Post inspirado/adaptado de uma crónica, lida numa aula em que estava a dar teste, do livro " A Causa das Coisas", de Miguel Esteves Cardoso

Professorices

É nesta altura de corrigir testes que eu invejo os professores que ainda usam aquele método clássico de os atirar ao ar...

Desabafo para consumo interno

Como devem imaginar, ao estar a trabalhar fora do meu país, deparo-me com muitas situações merecedoras de um comentário. Porém, sobre Cabo Verde, e por razões contratuais e de respeito pelo país que represento, tenho evitado fazer comentários depreciativos ou de índole político. Tenho também evitado falar sobre os problemas que os professres cooperantes que aqui trabalham enfrentam. Pois, não se pense que tudo é um mar de rosas. A verdade é que a nossa situação profissional, e o próprio Projecto de Cooperação, está muito aquém do desejável. Talvez por isso, fosse normal que os mais interessados nesta situação, ou seja os cooperantes, fizessem algo para a alterar. Mas é precisamente o contrário que acontece. Coisa típica de português, eu acho. Todos têm problemas. Todos têm opiniões. Todos dizem mal. Todos acham que sim. Mas depois, todos são inconsequentes e incapazes de se unirem em redor de um objectivo comum. Muitos dizem-me, que não vale a pena e que já não estão para se chatear. No fundo, acreditam é que haverá sempre alguém a fazer o nosso papel, a lutar pelos nossos direitos. E isso incomoda-me. Aliás, confesso que este sentimento de resignação e desinteresse, mais do que me incomodar, já me começa a chatear. Parece que estão todos conformados com este fatalismo que julgam traçado. Porém, eu ainda acredito que estamos a tempo de fazer algo. Nem que seja apenas a nossa parte. Nem que seja só pelos nossos interesses pessoais...

Situações embaraçosas

Na escola, tenho uma colega que é estrábica. E como se deve calcular, por muito que se evite, acabamos sempre por cair numa situação embaraçosa. Hoje, pela manhã, ao encontrá-la na rua assim meio ensonada, tivemos o seguinte diálogo:

- Então Manuela que cara é essa?
- Estou com sono.
- Eu logo vi. Com esses olhos não enganas ninguém.

Pois.