O bom filho à casa torna

Acabo de decidir voltar para Portugal. Em definitivo. Termina assim a minha aventura em Cabo Verde. Pelo menos por agora. De facto, tal como os Xutos dizem, a vida é sempre a perder. E eu, sinto que vou perder com este regresso. No entanto é chegada a hora. A hora de voltar à vidinha comum de que já me esqueci. Ao stress. À azáfama. Às coisas. E, também, à família. Como muitas vezes aqui referi, sinto-me muito bem em São Nicolau. Fui, sou, muito bem tratado. Neste dois anos, não tenho uma razão sequer de queixa. Um sequer problema. Um sequer mal entendido. Por todos sou respeitado e acarinhado. Por todos sinto uma enorme afectividade. Não sei se me tornei uma pessoa melhor. Talvez, apenas, um pouco diferente. Talvez, as coisas tenham deixado de ter demasiada importância para mim. Talvez o tempo seja agora menos importante. Talvez me tenha tornado mais solidário. Mais corajoso. Mais adulto. Mais preguiçoso. Mais velho. Sei lá.

Mas se isto é tão bom porque me vou embora? A resposta não é fácil, nem sei se a entenderão. A verdade é que, apesar de tudo, existe em mim a convicção que estou aqui temporariamente. Que um dia hei-de voltar às minhas raízes. E isso, quer se queira quer não, acaba por condicionar, pois faz com que não me comprometa com nada, e que vá adiando o meu futuro para o dia que hei-de voltar. Talvez seja por isso que isto é tão bom. Talvez seja por isso que eu vivo, o dia a dia, feliz, despreocupado e sem muitos problemas. Mas, no entanto, sempre com a sensação de estar a perder qualquer coisa, noutro lado que não aqui. A adiar o futuro. A desprezar o presente. Confesso, porém, que estive muito na dúvida em voltar. Se não tivesse família talvez ficasse aqui. Definitivamente. Mas a família ainda é mais importante do que eu. A sua felicidade continua a ser a minha felicidade. E por isso, como poderia recusar os insistentes pedidos da minha mãe para voltar?