O Passageiro Português

Nestes últimos anos, tenho tido oportunidade de viajar por diversos locais e em diferentes companhias aéreas. Desta forma, já deu para perceber que os passageiros aéreos portugueses são, sem qualquer espécie de dúvida ou apelo, os piores co-passageiros do mundo. De facto, os passageiros portugueses sabem, como nenhum outro povo, embaraçar profundamente o compatriota consciente. Há certas características que automaticamente os destinguem. Mal as nádegas estabelecem contacto com o assento, já está de indicador em riste, empurrando o botão de chamada da hospedeira. Ele quer almofadas, mantas, pantufinhas de longo alcance, copos de água gelada, jornais estrangeiros em língua que desconhece completamente, e, mais que tudo, a total atenção de quem está lá só para servir, a ele, senhor passageiro. São os “reizinhos do ar”. Na terra, são seres tão insignificantes como os outros. Mas deixem levantar o trem de aterragem e vejam-nos transformarem-se em Suas Majestades. Passam cinco minutos a usufruir do jacto de ventilação, dirigindo-o às diversas partes do corpo, para grande irritação do indivíduo (estrangeiro) que está ao lado. Depois, quando já conseguiram moer a rosca ao ponto de já não ser possível parar a baforada constante de ar podre, chamam a hospedeira e exigem ser colocados noutro lugar.

Além de estarem sempre mas sempre de pé nos corredores, confundido-se natural e alegremente com a bicha para as retretes, a qualidade mais notória do passageiro português é a obstinada exigência de desfrutar de todas, mas todas as vantagens e regalias que oferece a viagem. O passageiro português raciocina “Isto vem incluído no preço do bilhete – e raios me partam se eu não hei-de comer aquilo que eu paguei cá com o meu dinheirinho.” E assim, bebem tudo o que há de grátis para beber e, independentemente de gostos e apetites, devoram integralmente o almocinho de plástico que lhes é servido, roendo religiosamente a azeitona e a fatia moribunda de ananás, sem perder uma única passagem de cafeteira.

Mal o avião aterra, levantam-se e ficam horas, dobrados, de pé, à espera que chegue o autocarro para se abrirem as escotilhas. Atropelam-se no corredor para serem os primeiros a sair, apesar de saberem que ainda durará um bom bocado antes da chegada da bagagem. Quando lhe aparecem as malas no carrocel do aeroporto, gritam “Olha a minha! Olha a minha!”, como crianças a presenciar um acto de magia.

Enfim, é por estas e por outras que, na altura de se preencher o cartão de desembarque, quando revelamos publicamente a nossa envergonhada nacionalidade, é avassalador o desejo de escrever “filandês” , “turco” ou “iraquiano que não tem nada a ver com estes gajos”.

* Post inspirado/adaptado de uma crónica, lida numa aula em que estava a dar teste, do livro " A Causa das Coisas", de Miguel Esteves Cardoso

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