O que move o homem?

Numa tarde destas juntei-me com uns colegas para uma grelhada. Às páginas das tantas, a conversa descambou para a filosofia e para a questão do que move o homem e o mundo. E, independentemente do que se discutiu, foi interessante notar que cada um tem uma perspectiva própria desta questão. E haviam opiniões para todos os gostos. Alguns, mais freudianos, defendiam que eram as mulheres e, em última análise, o sexo. Outros, mais hedonistas, diziam que era apenas a busca do prazer, nas suas diferentes formas, como vislumbre da felicidade. Havia também alguns, mais liberais, que argumentavam que era o dinheiro ou, de uma forma mais geral, o poder. E outros, mais religiosos, que defendiam que era a vaidade. Mas, apesar da diversidade de ideias, a verdade é que não se chegou a conclusão nenhuma. Nem é isso que me interessa. Pois, tenho para mim, que a questão é demasiado qualquer coisa para concluir o que quer que seja. O mais certo é nem haver uma lei geral. Porém, o que é certo, é que as pessoas, ao contrário dos animais, têm motivações que vão para além das necessidades básicas de sobrevivência. E, nesse sentido, torna-se muito interessante ouvir as opiniões dos amigos quanto a este assunto. Pois é aí que as respostas são quase sempre reveladoras das suas personalidades. Dos seus interesses. Das suas motivações.

Ainda sobre o arrastão...

Alguns amigos, ainda meio afectados pela psicose gerada pelo, suposto, “arrastão”, têm-me perguntado sobre a criminalidade aqui em Cabo Verde, como que São Nicolau fosse uma espécie de Cova da Moura e a insegurança, os assaltos e a violência fossem situações normais e frequentes. De facto, e infelizmente, existe uma ideia enraizada, na maior parte dos portugueses, que os Cabo-verdianos (como os ciganos, os guineenses e outros) estão fatalmente predestinados para o crime. Pura ignorância. Só para que conste, desde que estou em São Nicolau, nunca ouvi falar de um assalto ou de qualquer acto de violência que por aqui tenha ocorrido. E notem que só temos 6 polícias para a ilha inteira.

Só pessoas muito ignorantes é que podem associar os recentes actos de criminalidade a razões de cor ou nacionalidade. Se existe uma forte associação da pequena criminalidade às comunidades de origem cabo-verdianas, ou outras, tal se deve a um problema puro e duro de integração. Deles e, especialmente, nosso. De facto, em vez de os aceitarmos como portugueses que são, preferimos remete-los para a ilegalidade e os acantonar em autênticos ghuetos, onde, com as maiores taxas de desemprego, consumo de droga, analfabetismo e miséria, só se sobrevive dignamente se se enveredar pelo mundo do crime ou algo semelhante. Por isso, não nos devemos espantar nem surpreender com o que tem vindo a acontecer. Afinal fomos nós, orgulhosamente portugueses*, que criámos a bomba relógio que ao que parece, pelos últimos acontecimentos, está prestes a explodir.

*Já agora aconselho a leitura deste post, no Acidental, que de uma forma muito bem-humorada nos remete, os orgulhosamente portugueses, para as nossas mais fiéis origens.

Álvaro Cunhal

Aos 91 anos, Álvaro Cunhal, o pai do comunismo em Portugal, morreu. Personagem incontornável da vida política portuguesa, Álvaro Cunhal sempre cultivou uma imagem de ser superior, imutável e misterioso. Foi talvez o político português que mais paixões e ódios arrebatou. Claro que, postumamente, como sempre, quase todos são unânimes em elogios. Uns dizem que foi de uma coerência ímpar. Outros, que foi herói na luta que fez pela conquista da democracia e liberdade em Portugal, e não sei mais o quê. Mas, sejamos claros. Álvaro Cunhal não foi coerente. Foi simplesmente pouco atento, para não dizer burro, em não perceber as mudanças radicais que, ao longo do tempo, foram acontecendo no mundo e nos países que eram o seu modelo político. Mais. Por muito que custe a alguns, a verdade é que Álvaro Cunhal nunca foi pela democracia e liberdade. Não eram esses os seus ideais. O seu único ideal era o comunismo. Tudo o resto eram meios para atingir o seu fim: A substituição da ditadura Salazarista de direita por uma ditadura comunista igualzinha à da antiga Albânia. Mas, note-se, tudo em prol dos trabalhadores e da classe operária. Claro.

Constatação

O meu maior problema nas aulas* é o chulé. Dos alunos. Note-se.

* Já agora, convém que se saiba que as aulas são dadas em salas pequenas, muito quentes e sem ventilação, com cerca de 40 alunos por turma, transpirados e, ainda por cima, calçados de chinelos ou sandálias.

Não sei se isto faz sentido, mas...

Imagine se a paixão funcionasse ao contrário. Tudo começaria numa discussão. Seguir-se iam algumas traições e mentiras. Depois, alguns ciúmes e quem sabe algum interesse. Claro que, com o tempo, o interesse ia-se intensificando até ficar mais forte que nunca. Cada pequena coisa nos iria surpreender, como se fosse a primeira vez. A paixão tomaria conta de nós, aos poucos, de uma forma cada vez mais intensa e menos madura. Sempre em crescendo. Até que, por milagre, perderíamos da nossa consciência tal pessoa. Como se nunca a conhecêssemos.

Ainda o défice...

Nestes últimos dias muito se tem falado no défice e nas medidas muito chatas que o governo anunciou. Eu próprio já aqui disse qualquer coisa sobre isso. Porém, deixem-me voltar ao assunto, e em particular, à intenção do Governo de tornar públicas as declarações de rendimentos dos contribuintes. A ideia é simples. Tornar cada pessoa num informador fiscal da fraude do vizinho, conhecido ou amigo. Claro que para isto funcionar, será necessário que todos tenhamos um pouco de curiosidade, inveja, mesquinhez e vaidade. Mas isso não é problema, pois há muito que os nossos antepassados se encarregaram de colocar isso nos nossos genes.

Assim, não tenho dúvidas que muitos, por curiosidade, não deixarão de ir consultar os rendimentos dos amigos e vizinhos e de fazer dessas declarações conversas de supermercado e de maledicência. Claro que isso fará que alguns, por inveja e mesquinhez, denunciem o seu vizinho ou amigo. Ou, pelo menos, que alguns, por vaidade, passem a declarar mais qualquer coisa só para fazerem figura perante os vizinhos.

No entanto, parece-me que esta medida pode-se tormar contra producente. Ora todos sabemos que são poucos aqueles que, podendo, não fogem ao fisco. Desde que seja o estado, o desconhecido ou abstracto a lixar-se, não há culpa que nos faça sentir mal. Pelo contrário. Caso não o façamos ou é porque somos estúpidos ou ignorantes. Afinal, nós somos uns espertalhões, e o que seria trágico era se, podendo, não fugíssemos ao fisco. Está na nossa cultura. Assim, ou muito me engano ou então, as declarações fraudulentas, de acesso público, em vez de serem eventualmente denunciadas vão servir é como manuais de aprendizagem de fuga ao fisco. Até porque se outro ganha com isso porque não hei-de eu ganhar também? E desde que ganhemos todos, não há grande problema. Não é?

Cúmulo da adaptação

Hoje dei conta do quanto estou adaptado a São Nicolau, a Cabo Verde, a África. Então não é que já consigo beber dois ou três golos de água, directamente da torneira, sem ficar com uma crise de diarreia?!

* Por outro lado, andar a beber água de garrafa, durante dois anos, de uma marca com o nome Penacova também não é lá muito animador... Ainda para mais a 1 euro o litro...

Ainda as crianças

Como todos os Dias Internacionais de Qualquer Coisa, Cabo Verde, viveu o Dia Mundial da Criança de uma maneira bastante efusiva e visível. Mas este dia foi bem especial. Tão especial que o governo, ontem, decretou o dia de hoje como feriado nacional, como, ao que parece, já era no tempo de Amílcar Cabral. Mas o que foi realmente bem especial foram as actividades que as crianças realizaram. Teatro, danças, desporto, poesia, música e actividades lúdicas, tudo foi vivido com uma intensidade impressionante. De facto, elas conseguem proporcionar momentos únicos, com uma vivacidade e alegria incomparáveis, convencendo-me, cada vez mais, que, apesar de todas as dificuldades, são imensamente felizes