A Gripe das Aves

A propósito da gripe das aves, não se consegue perceber esta pandemia de histeria que assola a comunicação social. O alarmismo é tal que acaba por ter mais efeitos negativos do que propriamente a gripe das aves poderá alguma vez vir a ter. De facto, não deixa de ser estranho que ande todo o mundo excessivamente preocupado com um vírus que até já existe há alguns anos na Ásia, onde vivem mais de 2 mil milhões de pessoas, e que, até hoje, apenas resultou, em zonas com condições óptimas à propogação do vírus, em residuais casos de contágio. Ainda assim, assistimos, em tempos de aperto financeiro, a um desvario de gastos em vacinas, que não sabemos serem eficazes, para vírus que sabemos ainda não se transmitirem entre humanos e que muito provavelmente nem chegarão perto de nós. E o mais triste é que, enquanto isso, como ouvia hoje na rádio, vão morrendo centenas de pessoas por cada minuto que passa, por doenças como a malária, a tuberculose, paludismo e outras , que não merecem um minuto sequer da nossa atenção e do nosso histerismo. Mas isso já não nos incomoda tanto comos os patos, gaivotas e papagaios, afinal, esses que infelizmente morrem todos os dias, não passam de aves raras com convenientes dificuldades de migração, e por isso, sem hipóteses de nos contagiarem.

As iludências aparudem

Os jovens de hoje não são tão feios como eram. Por exemplo as mulheres, especialmente as mulheres, parecem-me ter muito melhor aspecto hoje do que quando comparadas com aquelas das reportagens da RTP memória de há 15 anos atrás. Mas não é só uma questão de aspecto e de bom gosto. É mais do que isso. Basta ir a um qualquer centro comercial, excepto o Fórum Montijo onde as pessoas continuam feias todos os dias, para confirmar que a beleza física se democratizou e generalizou. Os Portugueses estão a ficar mais altos, mais direitos, mais sensuais, mais cuidados, enfim, mais bonitos. Claro que ainda continuamos a vestir muito mal e a ter o cabelo oleoso, mas, como as diferenças para os atarracados dos nossos antepassados são tão grandes, é impossível negar que, pelo menos fisicamente, fomos, estamos a ser, geneticamente apurados. Tal como Charles Darwin o fez, poder-se-ia reduzir tudo isto a uma questão de selecção natural. Talvez assim até se explicasse outro facto indesmentível que é de que, no caso dos homens, além de estarem mais bonitos, estarem, ao mesmo tempo, cada vez mais burros - afinal as mulheres sempre escolheram aqueles homens com um palminho de cara e um dedo de cérebro. Mas, por muito que nos custe, acho que no fundo tudo isto se deve apenas aos efeitos da globalização, sempre a globalização, e, claro, aos hambúrgueres, ao Clearasil e aos conselhos de beleza da Revista Maria.

Uma ideia

E de repente, começo a achar que a solução, deste problema a que chamamos Portugal, pode muito bem passar pela produção de energia eléctrica a partir de centrais nucleares nacionais. E porque não? Pelo menos sempre nos traria, além dos óbvios benefícios económicos e ambientais, algum alento, independência e auto-suficiência.

Sinto falta de ter tempo para inventar coisas para passar o tempo

Um dos meus passatempos preferidos, enquanto estive em São Nicolau, era sentar-me na única esplanada da terra e pôr-me a olhar para as pessoas que passavam na rua e adivinhar de quem eram irmãos. Pode parecer estranho mas garanto que, além de ser um jogo socialmente relevante, é super divertido. Especialmente porque, apesar de conhecer todas as pessoas da vila onde morava, não conhecia as relações familiares que tinham entre elas. Pois, como sabem, quase todos os cabo-verdianos têm mais do que 10 irmãos e, sublinhe-se, quase nunca dos mesmos dois pais. Ou seja, as combinações possíveis eram imensas, o que para o caso só aumentava a dificuldade e interesse do jogo.

Ressaca eleitoral

Todos - enfermeiros, policias, militares, juizes, magistrados, professores, funcionários públicos em geral e sei lá mais quem - protestam contra o governo. E, em muitos casos, legitimamente, pois os seus direitos, adquiridos segundo alguns, foram postos em causa. Porém acontece que, por exemplo, apesar dos professores acharem muito injustas as medidas que o governo tomou a seu respeito a verdade é que já não acham tão mal as medidas tomadas a respeito dos enfermeiros, juizes, magistrados, e.t.c. Ou seja, por muito que não se queira, todos entendem e compreendem a necessidade e a justiça destas medidas. Pelo menos para os outros, claro.

Dizem, alguns, que nunca se viu um governo, com apenas 6 meses de governação, sofrer tanta contestação - e ter, através do partido socialista, um resultado tão fraco numas eleições, como as desta semana. De facto, admito, é verdade. Nunca se viu. Mas, admitem, nunca um governo fez tanto em tão pouco tempo e, ainda por cima, sem ligar a calendários eleitorais. Isso, também, nunca se viu.

Mas o que mais me espanta são os comentadores e os partidos de direita. Há uns meses atrás defendiam reformas e mais reformas. Mais, achavam que eram os únicos capazes de o fazer. E agora, protestam, queixam-se e acham demais. Mas a verdade é que só o fazem por oportunismo e vergonha. Pois, no fundo, o que lhes dói não são as medidas em si, mas sim o facto de não terem sido eles , os de direita, a terem a coragem e a determinação de as fazerem.

Por acaso

O acaso é o reconhecimento da nossa incapacidade para controlar o conjunto de variáveis que determinam um acontecimento. O acaso define o que não conseguimos prever. Contudo, se conseguirmos repetir exactamente, em todas as suas variáveis, uma determinada situação ou experiência o acaso torna-se previsível. Por isso que, em teoria, o acaso não existe. Ou melhor, por isso que, na prática, o acaso ainda existe.

Da mesma forma, o que é uma emoção senão mais do que uma sequência de reacções químicas do nosso cérebro? Não há emoções irrepetíveis. Basta que controlemos todas as variáveis e a reproduzamos.

Tudo pode ser sintetizado. Afinal, somos pó. Simplesmente pó.

Macaquices

Durante estes dias tenho passado muito tempo a conduzir. E, de vez em vez, dou comigo a pensar e a pensar. Além de ainda não ter percebido porque é que, em tempo de crise e de queixume generalizado, todos têm um carro melhor que o meu, assaltam-me, quilómetro a quilómetro, outras dúvidas muito mais interessantes. Por exemplo, com esta história de os carros terem ar condicionado, pergunto-me repetidamente para onde é que vão os macacos do nariz do condutor que antigamente eram orgulhosamente deixados em queda livre pela janela do carro? A questão é pertinente, especialmente para quem faz muitos quilómetros diários, visto que a solução de os colar por baixo do assento tem enormes incómodos. Ou não é verdade que na tentativa de descolá-los do dedo, contra o assento em veludo, se fica, invariavelmente, com mais dois ou três colados?