Para além da sinceridade

Se há defeito que não suporto é a sinceridade. Melhor, se há coisa que me chateia ouvir é, alguém dizer de si próprio, que o seu maior defeito é ser sincero. Mesmo aqueles que se dizem muito humildes, não conseguem ser pior que esta espécie de gente que insiste em fazer crer que são o que não são, apenas por vaidade. Aliás, se há coisa que estas pessoas demonstram é falta de humildade e de vergonha. Bastava um pouquinho de cada uma para perceberem que ninguém acredita no que dizem. Nem elas próprias. Pelo contrário, quem profere uma frase destas sabe muito bem que não está a ser sincero. Pensa apenas que desta forma se valoriza perante o seu interlocutor e que o faz acreditar em uma de duas coisas: que não tem defeitos e que é uma óptima pessoa ou que é uma pessoa geneticamente desbocada que diz tudo o que lhe vem à cabeça.

Por outro lado há pessoas que acham que a sua maior qualidade é serem sempre sinceros. E, por muito que me custe dizer, acham mal. Quem tem um mínimo de experiência de vida sabe muito bem que nem sempre ser sincero é o melhor. Obviamente que não quero dizer que mentir é preferível. Há que saber o que se diz e o que se pode e é conveniente dizer. É uma questão de motivo. Afinal, o que deve medir a nossa sinceridade não são as palavras em si, mas sim a intenção com que as dizemos. Até porque, como diz o poeta, quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.

Sem comentários: