O essencial é invisível aos olhos

Se há coisa que nunca parece bem é ter mau aspecto. Contudo, ter mau aspecto não é assim tão mau. Além de ser bastante útil para não se ser assaltado, se pensarmos bem até pode ser um elogio. Afinal, quando alguém diz de outro, que está com mau aspecto é porque no fundo sabe que ele poderia estar muito melhor. Ou seja, há uma esperança de ser algo temporário e de se poder ficar com bom aspecto caso se queira. Ora aí está a grande diferença para quando se é simplesmente feio. Esses não têm esperança. Por muito bom aspecto que tenham serão sempre feios. Não têm cura. Claro que há a ilusão de que com umas roupinhas adequadas a coisa melhore. Ou então, que com uns cremes e umas plásticas a coisa disfarce. Porém, a realidade é cada vez mais exigente e os milagres cada vez mais raros. E, por muito que custe dizer, quem nasceu para feio dificilmente o disfarçará e, mais cedo ou mais tarde, será sempre reconhecida a sua real natureza, tal qual acontece nas primeiras lavagens das camisas Ralph Lauren da feira de Carcavelos. Antigamente, segundo dizem, os homens não se queriam bonitos e as mulheres que eram bonitas tinham fama de serem estúpidas. Hoje, num mundo cada vez mais injusto, tudo mudou. Já nem aquela pertinente questão de escolher entre uma gaja bonita e burra ou uma gaja feia e inteligente faz sentido. A distribuição de beleza, ou falta dela, democratizou-se entre burros e inteligentes. Se antes as coisas estavam mal para os pobres, hoje as coisas estão muito mal para os feios. Nunca como agora foi tão triste ser feio. Por isso que deveria haver uma regra que ditasse que os feios fossem melhores pessoas que os bonitos. Ou que as pessoas bonitas fossem invariavelmente pobres, sujas, desdentadas, sei lá. O que me parece injusto é haver tanta gente bonita, rica, inteligente, cheia de saúde e de bom aspecto. Tudo ao mesmo tempo. E o pior é que com esta história da globalização a ideia romântica de haver gostos para tudo está cada vez mais ultrapassada. Agora todos querem ser bonitos como os outros e já nem os feios gostam dos feios - e quando acham que gostam é porque se conformaram e perderam a esperança. Enfim, a vida não está nada fácil. Valha-me ao menos o mau aspecto.

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