Direito de Antena

Há uma franja de pessoas, comentadores políticos e jornalistas incluídos, que anseiam por qualquer coisa que cause embaraço político ao Primeiro-ministro e ao governo. Sem alternativas credíveis, fazem o que podem para garantir o seu poleiro, amplificando tudo e mais alguma coisa com a demagogia e o populismo que convém. Afinal, já perceberam que, para saírem da clandestinidade a que ficaram remetidos, não podem usar dos recorrentes chavões de ausência de reformas, falta de coragem política, medidas eleitoralistas e outras coisas parecidas a que estão habituados. Suponho que seja bom sinal. Ou não.

Ser benfiquista

Não poucas vezes, dou comigo a tentar perceber porque sou do Benfica. Na falta de uma razão melhor, suponho que, como não me lembro de ter optado por este ou aquele clube, só pode ser um problema de nascença. Nasci assim. Inteligente, bonito e, para compensar, benfiquista. Há quem nasça com o rabo* virado para a lua e depois há os infelizes dos benfiquistas. É um facto. Por isso, tenho para mim que, não fosse Adão ter comido a maça, todos seriam da Académica e felizes.

Ser do Benfica, tal como o género sexual, não se escolhe. Está predestinado. Quanto muito, revoltados, podemos nos travestir em outra coisa qualquer. E há razões para isso, pois ser do Benfica há muito que não envaidece nem dá genica. Pelo contrário. Bastava que um Aladino qualquer concedesse a um benfiquista um desejo futebolístico para rapidamente optar por um clube mais decente, como o belenenses ou assim.

Ser do Benfica é uma convicção romântica - é ter na alma uma chama imensa que nos consome e sei lá mais o quê - que pouco tem que ver com desporto ou futebol. Por isso perdura. Porque se fosse pelo qualidade do futebol praticado nem seis benfiquistas haveriam, quanto mais seis milhões. Pode-se gostar muito de futebol mas, um benfiquista, gosta muito mais do Benfica. Futebol sem Benfica é como ciclismo. Mas menos interessante. Benfica sem futebol é o dia-a-dia. Jogo-a-jogo.

Este ano está mais que visto que, impossibilitados de escolher os árbitros, nem a taça da amizade ganhamos. A ver pelos últimos jogos, que eu não vi, bem podem os nossos rivais, se é que os há neste nosso Portugal, ficarem preocupados com o Paços de Ferreira e tal. Aliás, só vejo futebol na televisão, tal como hóquei patins ou esgrima, quando o Benfica joga. Mas, como o Benfica não tem jogado nada, tenho me dedicado mais ao ciclismo e isso.

Afinal, o que se poderia esperar de umas papoilas saltitantes, ainda por cima, vestidas com camisolas berrantes?

Só se vê o que se quer ver

Num dos muitos, mas sempre únicos, momentos de contemplação de mim próprio, desta vez frente ao espelho, verifico que a acção da melanina produziu em mim, desculpem-me a imodéstia, um apresentável e bonito bronzeado. Espantam-me, por isso, as insinuações a propósito do envelhecimento precoce da pele e os comentários sobre o acentuar das minhas eventuais rugas.

Numa observação menos atenta, e com alguma má vontade, pode-se de facto, passado algum tempo, encontrar na zona dos meus olhos alguns riscos na pele de tom mais claro. Mas daí a confundi-los com rugas vai uma distância como daqui, sei lá, até à Fonte da Telha. O pior é que nem rugas de expressão são. Aliás, parece-me evidente que, sem muito esforço, facilmente se pode concluir que tais riscos na pele só podem resultar de uma disforme exposição solar, consequente do facto de não usar óculos de sol na praia e, por isso, involuntariamente, enrugar a cara aquando a exposição da minha bela carcaça ao sol.

No esplendor dos meus vinte e poucos anos, poderei, com relativa à vontade, reduzir tais comentários a simples inveja - note que, a inveja não é querer o que o outro tem (isso é cobiça), mas sim querer que o outro não tenha. E não me venham com as desculpas da ilusão de óptica e não sei quê, senão vou ter que me armar em carapau de corrida com explicações sobre a reflectância real dos objectos e sobre a instabilidade dos estímulos visuais. Até porque, como estamos fartos de saber, a percepção que temos das coisas é em grande parte auto-produzida. Isto é, o que vemos é sempre, em certa medida, uma ilusão. Mas isso, vão-me desculpar, já são outros quinhentos.

Ainda sobre a praia e as suas complexidades

A praia, dizem, é o lugar mais democrático do mundo. Há espaço para ricos, pobres, magros, gordos, crianças, velhos. Para todos. Isto, desde que cada um fique na sua, claro. A verdade é que há muito que a praia deixou de ser um lugar democrático. Os ricos têm as suas próprias praias, assim como os homossexuais, surfistas, velhos e pretos. As praias tornaram-se clubes. Até os guias turísticos, que antes diferenciavam as praias pela paisagem, temperatura da água ou localização, identificam as praias por quem lá vai. E cada um sabe onde ir e qual o clube a que pertence. A sua praia.

Contudo, as coisas não são assim tão simples. De verdade não somos nós que escolhemos a praia para onde queremos ir. Tal qual, surpreenda-se, como não escolhemos o super mercado onde fazemos as nossas compras. Acredite ou não, mas essas escolhas já alguém fez por si. Intencionalmente. Mas, ao mesmo tempo, fazendo-nos acreditar que somos nós que decidimos.

Vejamos, então. Porque raio é que você opta por ir à praia da Fonte da Telha em vez de ir à praia da Morena, sabendo que a Fonte da Telha é uma praia feia, suja, com pouco estacionamento, muita gente e pior ambiente? Porque não vamos todos para a praia da Morena, que tem melhor ambiente, é mais organizada, limpa e sem casas clandestinas nas dunas?

Os bares e restaurantes de apoio a cada uma das praias talvez nos ajudem a responder ás questões anteriores. Por exemplo, sabia que um café na Morena custa cerca de 1,5€ enquanto na Fonte da Telha apenas 0,75€? Porque será? A nossa primeira resposta seria porque, possivelmente, na Morena as rendas são mais elevadas. O que até pode ser verdade, mas não a principal razão. De facto, o café continua a custar 1,5€ porque há clientes que estão dispostos a pagá-lo e não por causa do custo da renda. E porque preferem pagar 1,5€ por café? Não julgue que seja só porque podem fazê-lo. Poder fazê-lo não significa que uma pessoa opte por o fazer. A verdade é que as pessoas optam por fazê-lo porque não há concorrência, nas mesmas condições - por isso é que na Morena só existe um único bar-restaurante adjudicado. Mas se as pessoas sabem disso, porque continuam a ir lá? Talvez, antes de responder a esta questão, faça sentido colocar outras. Porque é que o autocarro não passa na Morena? Ou porque é que, na Morena, o preço dos chapéus, toldos e garrafas de água são tão caros? Ou porque é que a Fonte da telha continua naquela desordem com tantas casas ilegais e tanto lixo no chão? Ou porque parece haver melhores estradas para ir para a Fonte da Telha? Ou porque é que a praia da Morena tem um acesso dificil e entope tão facilmente se houver excesso de carros?

Antes de responder a tudo isto, lembre-se que, onde há dinheiro a ganhar, poucas coisas acontecem por coincidência. Note também que, se todas as praias da zona estivessem nas mesmas condições, possivelmente, o café, por exemplo, teria o preço de 1€, um preço médio, o que não seria suficientemente alto para explorar os clientes mais mãos-largas, nem suficientemente baixo para atrair os mais poupadinhos. Desta forma, talvez agora comece a achar as respostas para as questões anteriores. Talvez agora fique mais claro porque é que a praia da Morena tem condições tão diferentes da Morena. Talvez agora perceba o motivo porque é que a tranquilidade e bom ambiente está confinado à praia da Morena. Talvez agora faça sentido porque é que não interessa ter muita e qualquer gente na Morena. Talvez agora descubra porque a câmara consegue sacar uma renda alta ao proprietário do único bar-restaurante da Morena. Talvez agora compreenda porque vai à Fonte da Telha antes de ir à Morena. Talvez agora entenda porque é que todos vão à praia e não se queixam. Talvez agora aceite que, afinal, a praia não é assim tão democrática.

Ir à praia

O calor leva-nos involuntariamente à praia. O que, bem vistas as coisas, não deixa de ser curioso e paradoxal. Senão, vejamos. A ideia de ir à praia deveria ser a solução para fugir do calor, o nosso estímulo inicial. Contudo, quando vamos à praia, muito rapidamente sonegamos o incómodo do calor, entregando o nosso corpo ao sol tal qual um espeto de picanha se entrega ao assador. Claro que, de quando em vez, lá vamos à água e refrescamos. Mas, por estranho que pareça, ir à água é muito menos do que isso. Muitas vezes, só se vai à água para que não se pense que se vai à praia sem se ir à água. Ou então para suprir alguma necessidade fisiológica. Sim, porque, como toda a gente sabe, quase todos, senão todos, mictam na água. É um facto. A chatice é que todos pensam que por ser no mar, coisa grande e infindável, que não há grande problema. Afinal, tirando o quentinho do momento, e exceptuando os casos de alguns que quando entram na água se põem de cócoras a fingirem estar a ambientar-se à água, a coisa até passa despercebida. Uma gota no oceano, portanto. O pior, é que todos pensam da mesma forma o que faz com que sejam muitas gotas no mesmo oceano e, inevitavelmente, nos nossos lábios.

No fundo, vamos à praia em dias de calor, porque, em primeiro lugar, sabemos que as outras pessoas também irão lá estar. Não passa disso mesmo. Um acto social, onde a matilha se encontra e representa o seu papel de acordo com as suas expectativas e motivações. E, a grosso modo, todas essas expectativas e motivações podem ser enquadradas em dois grupos distintos de pessoas que vão à praia. Os que vão para se mostrar e os que vão para ver. Os primeiros, estão normalmente o ano inteiro no ginásio, e em frente ao espelho, a prepararem-se para o momento, sabendo que, os segundos, estarão lá a olhar para eles a invejá-los e a fazerem promessas para consigo próprios de dietas e exercício físico esforçado.

O Amor é uma coisa a vida é outra

No meio da confusão que permanecem as minhas 2 assoalhadas - e enquanto continuo a procurar um livro para levar para a praia, que seja suficientemente grosso para causar boa impressão e, a espaços, servir de almofada - dei de caras, e com os pés, com uma das crónicas do MEC que mais gosto e que não resisto em colocar aqui, em jeito de compensação pelo meu excesso de preguiça em escrever algo original.

*

Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Por que se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e ao mínimo amuo entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psicosócio-bio-ecológica da camaradagem. A paixão que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade ficam "praticamente" apaixonadas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim da tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O amor é uma coisa a vida é outra. A vida que se lixe. A vida dura uma vida inteira, o amor não.

* Texto adaptado, rasurado e emendado a partir de uma crónica de Miguel Esteves Cardoso

Abriu a época de incêndios

Em jeito de aquecimento para o que nos espera nos próximos tempos, assistimos esta semana aos primeiros incêndios mediatizados. Depois da época balnear, da época de exames, da época da caça, passámos a ter, também, a época dos incêndios. Todos os anos a mesma coisa. Primeiro vem a seca. Depois as ondas de calor- este ano, vá lá, até tivemos direito a uns mosquitozinhos e tudo. E, finalmente, os incêndios. Inevitável, como o destino*.

Embarcando na moda das teorias da conspiração, tenho para mim que tudo isto é potenciado e orquestrado pelos media, em especial pelas televisões, ávidos de imagens dantescas com chamas alaranjadas a lamber o máximo de árvores e casas possíveis. Não tenho qualquer dúvida que tudo é preparado, com muitos meses de antecedência, ao ínfimo pormenor, como se de uma campanha publicitária se tratasse. Aliás, as televisões preparam-se melhor, com equipamentos sofisticados, montes de jornalistas corajosos, uns quantos helicópteros e não sei mais o quê, do que os próprios bombeiros. E depois, claro que se tem de fazer render todo esse investimento. Por isso, preparem-se para começarem a levar com, pelo menos, 20 minutos de telejornal sobre incêndios (a somar aos 30 minutos sobre o mundial), onde tudo, inevitavelmente, será sobrevalorizado, exagerado e dramático. Até parece que estou a ver: os helicópteros lançando gotas de água sobre as chamas; os bombeiros correndo de um lado para o outro, impotentes e sem camisa; as populações a queixarem-se dos aviões, ou da falta deles; as entrevistas sucessivas a gente corajosa, transpirada e suja de cinzas; os rostos de velhinhas cobertas de lágrimas, lamentando-se de que nunca viram nada assim; hectares e hectares de mato queimado, passando por floresta densa; pontos de situação e alertas coloridos; promessas de reforço de meios, campanhas de solidariedade e blábláblá ... Enfim... É de um gajo ficar farto. Enojado. Dos incêndios, é certo, mas mais ainda dos telejornais que se tornam numa verdadeira seca, e pior, na melhor publicidade para que haja mais incêndios e incendiários. Mas isso não interessa nada. Desde que as audiências estejam garantidas, claro.

*essa história do destino é uma força de expressão, entenda-se

Futebol, Futebol e Futebol*

Se há coisa que os portugueses têm a certeza é que, depois dos Descobrimentos, pouco mais podem fazer de grandioso. O problema é que, de quando em vez, nos esquecemos disso. E, por momentos, deixamos de parte a nossa condição miserabilista e armamo-nos em carapaus de corrida, convencidos que é desta que somos capazes de ser melhores que os outros.

Sem hipóteses no festival da canção, as nossas esperanças estão nestes dias centradas na selecção de futebol, o novo desígnio nacional. O parolismo patriótico instalou-se, e vive-se a histeria do mundial. Mesmo aqueles que não gostam ou não percebem nada de futebol renderam-se ao apelo da bandeirinha na janela. O mundial passou a ser pretexto para tudo e transformou-se numa novela insuportável. Todos falam, falam, falam, falam, falam, e não dizem nada. O futebol caiu na unanimidade e corre o risco de se perder nas revistas cor-de-rosa e nos programas da manha do Goucha. Por isso que, a bem do futebol e dos que gostam dele na sua essência, começa a ser desejável que Portugal seja rapidamente eliminado do mundial. Se é que ainda vamos a tempo…

* Versão actual e simplificada de “Deus, Pátria e Família”

Coisas da Escola

Há muito que queria escrever sobre educação e, especialmente, sobre as polémicas recentes que opõem grande parte dos professores às medidas anunciadas pelo ministério da educação. O assunto é sério e merece uma reflexão honesta, sem a ligeireza e retórica de ocasião que alguns insistem em ter.

Todos sabemos que a escola não vai bem. Os alunos abandonam a escola muito cedo, com níveis muito baixos de escolaridade, não conseguindo adquirir competências mínimas, indispensáveis para um mundo de trabalho globalizado e cada vez mais exigente. A falta de qualificação, quer dos jovens, quer dos adultos, torna a nossa economia menos competitiva e, desta forma, irremediavelmente afastada dos índices de desenvolvimento que ambicionamos. Por outro lado, na última década, Portugal tem feito um enorme investimento público em educação. À conta disso, Portugal é o país da OCDE que maior percentagem da despesa corrente gasta em salários de professores, e onde os rácios de aluno por professor são os mais favoráveis da União Europeia. Por isso, seria de esperar que a escola apresentasse melhores resultados. Se isso não acontece é porque o problema é muito mais do que uma questão de meios. Há muito que o problema deixou de ser o dinheiro. Essa desculpa, usada por sucessivos governos para fugirem à responsabilidade de fazer o que deveria ser feito, já não serve. Pelo contrário, num país onde o estado gasta mais do que tem, seria injusto, numa altura em que o estado tem obrigatoriamente de cortar na despesa pública, que na área de educação se deixasse tudo como está, isto é, que se continuasse a por dinheiro na escola sem dela se exigir resultados e uma melhor gestão, racionalização e optimização de meios e recursos.

Serve tudo o que acima foi dito para enquadrar a proposta do ministério de revisão do Estatuto de Carreira Docente. Porque, como é óbvio, os professores não se podem colocar à parte destes problemas, muito menos fazendo-se de vítimas.

Para além da espuma que tem ressaltado da comunicação social, nomeadamente na questão da avaliação dos professores pelos pais e noutras questões técnicas passíveis de alteração mediante negociação com os sindicatos, interessa-me discutir a questão do princípio de avaliação dos professores. Devem ou não os professores ser avaliados? Devem ou não ser distinguidos os bons dos maus professores? Deve ou não haver consequências de uma avaliação?

Não querendo gastar muitas mais linhas a retratar a situação actual, parece-me evidente que o actual Estatuto de Carreira Docente não serve. Em primeiro lugar porque é injusto para os professores, tornando os bons e os maus todos iguais, ao premiar todos. Em segundo lugar porque não assenta em nenhuma lógica de resultados e de objectivos, não estimula os que mais se empenham, torna o sistema ineficiente. Em terceiro porque é economicamente incompreensível, permitindo que, indiscriminadamente, todos cheguem, de uma forma automática, ao topo da carreira.

Para existir qualidade no ensino tem de haver uma boa avaliação dos seus intervenientes. É assim com os alunos. Deve ser assim com os professores. A qualidade tem de ser premiada e tem de haver uma clara discriminação entre os bons e os maus professores. Actualmente, a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Depois de entrar na carreira é um descanso. Para alguns, a segurança de um emprego para a vida e a certeza de uma promoção automática, são as únicas coisas que os prendem à profissão. Muitos caem na rotina, no comodismo e no facilitismo que a carreira oferece. Até os bons professores se desmotivam e acabam por entrar nesta cultura descentrada do seu objectivo principal: o sucesso dos alunos. Por isso que, para bem dos alunos e dos bons professores, é urgente mudar. A escola precisa de voltar a ser credível e isso só é compatível com uma cultura de qualidade e exigência para todos, inclusive para os professores. Porque a escola pública existe por causa dos alunos, é neles que devemos centrar as nossas atenções, ainda que isso possa resultar na perda de direitos de alguns maus professores. Por muito que custe.

Contradições da vida

Dantes vivia-se mal e a vida não era fácil, hoje vive-se bem e a vida é difícil. Dantes as pessoas nasciam em casa e sem apoio médico, hoje até tem de se ir nascer a Badajoz para que não falte nada. Dantes as crianças brincavam com carros de pinhas e ficavam todas satisfeitas, hoje brincam com Playstation’s , Gameboy’s, e sei lá mais o quê, e estão cada vez mais exigentes. Dantes os estudantes levavam reguadas por não saberem a matéria, hoje culpam os professores e têm explicadores privados. Dantes os jovens só se calçavam para ir à missa, hoje só se descalçam para ir à praia. Dantes as pessoas eram feias e casavam-se, hoje somos bonitos e divorciamo-nos. Dantes não havia televisão nem tédio, hoje há Tv cabo, dvd’s, cinema, shopping’s e passamos a vida a assoprar. Dantes não havia tempo para ter depressões, hoje não há tempo para os psicólogos nos atenderem. Dantes as mulheres faziam todo o trabalho doméstico e tinham muitos filhos, hoje, arranjam uma empregada, vêm novelas o dia todo, e, quanto muito, têm um filho. Dantes as pessoas trabalhavam de sol a sol e recebiam uma miséria, hoje não se trabalha e recebe-se um bom dinheiro por isso. Dantes os maridos não faziam nada em casa e as mulheres não se queixavam, hoje fazem quase tudo e as mulheres só reclamam. Dantes só se descansava ao domingo e não havia férias para ninguém, hoje não trabalhamos pelo menos dois dias por semana, fazemos férias no Brasil e nunca descansamos. Dantes as pessoas iam ao médico uma vez na vida, hoje levam os cães ao veterinário uma vez por semana. Dantes morria-se de fome, hoje morre-se porque comemos demais. Dantes lutava-se para sustentar a família, hoje luta-se para pagar ao banco o empréstimo para o telemóvel 3G. Dantes, com a idade, ficávamos velhos e morríamos, hoje fazemos plásticas e lifting’s e morremos na mesma.

Dizer mal é uma condição indispensável para produzir bem e obrigatória para produzir melhor

Um blogue serve, essencialmente, para dizer mal. Mas, como estamos tão habituados a ouvir falar mal de tudo, torna-se difícil ser original. Dizer mal, não é, infelizmente, uma opção. Ou melhor, é uma opção, mas irrecusável. Por muito que não se queira, há nos portugueses uma sensação de inevitabilidade em dizer mal. É algo genético, dominante, embutido e aperfeiçoado de geração em geração. Aliás, se o povo português, não dissesse mal e não se queixasse de tudo, faltava-lhe assunto. E por isso, engordava. Deixava de ir à missa. Deixava de ver os Reality Shows e de gostar do Castelo Branco. Começava a ler. Perdia a potência sexual. Extinguia-se.

Mas, do que os portugueses gostam mesmo de dizer mal é dos próprios portugueses. Esse é o nosso desporto nacional. Especialmente, apreciam-se as comparações com os estrangeiros, as estatísticas e os ranking’s a nosso desfavor. É a nossa desculpa. O nosso fado, destino, sei lá. A nossa paródia. Contudo, quando ouvimos algum estrangeiro falar mal de Portugal, ou dos portugueses, indignamo-nos, sentimo-nos injustiçados, invocamos os descobrimentos. E, durante uns minutos, vemos Portugal como o melhor país do mundo, sem compreender como alguém pode dizer mal de um país com pessoas tão maravilhosas e acolhedoras, com tão bom futebol, comida, clima e vinho barato.

Em estado de maturação

Tenho para mim que o primeiro post é sempre mais difícil que os anteriores. Por isso, não levem a mal que, na tentativa de procurar o tom certo para este post, isto soe mais a um arroto seco. A verdade é que, apesar de me apresentar n’Os Predilectos com um estatuto de bloguista experimentado e maduro, não passo de um inamovível calhau, preguiçoso quanto baste, sem, de momento, nenhum tipo de inspiração que se registe. Só não digo que sou uma pessoa desnutrida de qualquer substância, porque, finalmente, a minha barriga já não o permite. Aliás, foi hoje que, no aconchego do sofá, tomei consciência que começo a ter uma barriga digna de um homem como deve ser. Confesso, que ainda estou meio abalado com tamanho e irrepetível feito. Tanto, tanto, tanto, que em vez de me sentir mais homem, me sinto muito mais compreensível para com as mulheres, e, particularmente, muito mais interessado nas repetidas conversas sobre os benefícios da Herbalife. Contudo, parece-me que é justo exigir de todos algum tipo de respeito e reconhecimento, até porque, não é todos os dias que se atinge a fase mais importante da maturação de um homem adulto – vulgo, barriga - , ainda para mais, sem recurso das facilidades do casamento ou da vida académica em Coimbra.

Ainda sem encontrar o tom certo, resta-me fazer votos para que rapidamente se escrevam muitos outros post’s, de forma que este fique remetido à condição que merece, isto é, bem escondidinho. Note-se, que é a primeira vez que recorro, neste texto, a um diminutivo. Aliás, como ponto prévio, fica já assente que evitarei os diminutivos e, a talhe de foice, os post’s fofinhos, bonitinhos, engraçadinhos e levezinhos. Até porque, agora, já tenho uma barriga de homem-adulto-maduro, ou seja, uma barriguinha de homenzinho.

Conto mais curto, versão

Era uma vez um homem que um dia prometeu ir para a neve com a família. Até que um dia nevou e cumpriu.

Abominável Homem das Neves

Era uma vez um homem que um dia prometeu ir para a neve com a família. A sua mulher, entusiasmada com a ideia, rapidamente tratou de contar a novidade às suas amigas. E, durante um ano, andou todos os dias a fazer as malas de viagem, a vestir os filhos a rigor e a justificar-se perante as amigas na esperança que a promessa se cumprisse. Até que um dia nevou.