Contradições da vida

Dantes vivia-se mal e a vida não era fácil, hoje vive-se bem e a vida é difícil. Dantes as pessoas nasciam em casa e sem apoio médico, hoje até tem de se ir nascer a Badajoz para que não falte nada. Dantes as crianças brincavam com carros de pinhas e ficavam todas satisfeitas, hoje brincam com Playstation’s , Gameboy’s, e sei lá mais o quê, e estão cada vez mais exigentes. Dantes os estudantes levavam reguadas por não saberem a matéria, hoje culpam os professores e têm explicadores privados. Dantes os jovens só se calçavam para ir à missa, hoje só se descalçam para ir à praia. Dantes as pessoas eram feias e casavam-se, hoje somos bonitos e divorciamo-nos. Dantes não havia televisão nem tédio, hoje há Tv cabo, dvd’s, cinema, shopping’s e passamos a vida a assoprar. Dantes não havia tempo para ter depressões, hoje não há tempo para os psicólogos nos atenderem. Dantes as mulheres faziam todo o trabalho doméstico e tinham muitos filhos, hoje, arranjam uma empregada, vêm novelas o dia todo, e, quanto muito, têm um filho. Dantes as pessoas trabalhavam de sol a sol e recebiam uma miséria, hoje não se trabalha e recebe-se um bom dinheiro por isso. Dantes os maridos não faziam nada em casa e as mulheres não se queixavam, hoje fazem quase tudo e as mulheres só reclamam. Dantes só se descansava ao domingo e não havia férias para ninguém, hoje não trabalhamos pelo menos dois dias por semana, fazemos férias no Brasil e nunca descansamos. Dantes as pessoas iam ao médico uma vez na vida, hoje levam os cães ao veterinário uma vez por semana. Dantes morria-se de fome, hoje morre-se porque comemos demais. Dantes lutava-se para sustentar a família, hoje luta-se para pagar ao banco o empréstimo para o telemóvel 3G. Dantes, com a idade, ficávamos velhos e morríamos, hoje fazemos plásticas e lifting’s e morremos na mesma.

Dizer mal é uma condição indispensável para produzir bem e obrigatória para produzir melhor

Um blogue serve, essencialmente, para dizer mal. Mas, como estamos tão habituados a ouvir falar mal de tudo, torna-se difícil ser original. Dizer mal, não é, infelizmente, uma opção. Ou melhor, é uma opção, mas irrecusável. Por muito que não se queira, há nos portugueses uma sensação de inevitabilidade em dizer mal. É algo genético, dominante, embutido e aperfeiçoado de geração em geração. Aliás, se o povo português, não dissesse mal e não se queixasse de tudo, faltava-lhe assunto. E por isso, engordava. Deixava de ir à missa. Deixava de ver os Reality Shows e de gostar do Castelo Branco. Começava a ler. Perdia a potência sexual. Extinguia-se.

Mas, do que os portugueses gostam mesmo de dizer mal é dos próprios portugueses. Esse é o nosso desporto nacional. Especialmente, apreciam-se as comparações com os estrangeiros, as estatísticas e os ranking’s a nosso desfavor. É a nossa desculpa. O nosso fado, destino, sei lá. A nossa paródia. Contudo, quando ouvimos algum estrangeiro falar mal de Portugal, ou dos portugueses, indignamo-nos, sentimo-nos injustiçados, invocamos os descobrimentos. E, durante uns minutos, vemos Portugal como o melhor país do mundo, sem compreender como alguém pode dizer mal de um país com pessoas tão maravilhosas e acolhedoras, com tão bom futebol, comida, clima e vinho barato.

Em estado de maturação

Tenho para mim que o primeiro post é sempre mais difícil que os anteriores. Por isso, não levem a mal que, na tentativa de procurar o tom certo para este post, isto soe mais a um arroto seco. A verdade é que, apesar de me apresentar n’Os Predilectos com um estatuto de bloguista experimentado e maduro, não passo de um inamovível calhau, preguiçoso quanto baste, sem, de momento, nenhum tipo de inspiração que se registe. Só não digo que sou uma pessoa desnutrida de qualquer substância, porque, finalmente, a minha barriga já não o permite. Aliás, foi hoje que, no aconchego do sofá, tomei consciência que começo a ter uma barriga digna de um homem como deve ser. Confesso, que ainda estou meio abalado com tamanho e irrepetível feito. Tanto, tanto, tanto, que em vez de me sentir mais homem, me sinto muito mais compreensível para com as mulheres, e, particularmente, muito mais interessado nas repetidas conversas sobre os benefícios da Herbalife. Contudo, parece-me que é justo exigir de todos algum tipo de respeito e reconhecimento, até porque, não é todos os dias que se atinge a fase mais importante da maturação de um homem adulto – vulgo, barriga - , ainda para mais, sem recurso das facilidades do casamento ou da vida académica em Coimbra.

Ainda sem encontrar o tom certo, resta-me fazer votos para que rapidamente se escrevam muitos outros post’s, de forma que este fique remetido à condição que merece, isto é, bem escondidinho. Note-se, que é a primeira vez que recorro, neste texto, a um diminutivo. Aliás, como ponto prévio, fica já assente que evitarei os diminutivos e, a talhe de foice, os post’s fofinhos, bonitinhos, engraçadinhos e levezinhos. Até porque, agora, já tenho uma barriga de homem-adulto-maduro, ou seja, uma barriguinha de homenzinho.