Ainda sobre a praia e as suas complexidades

A praia, dizem, é o lugar mais democrático do mundo. Há espaço para ricos, pobres, magros, gordos, crianças, velhos. Para todos. Isto, desde que cada um fique na sua, claro. A verdade é que há muito que a praia deixou de ser um lugar democrático. Os ricos têm as suas próprias praias, assim como os homossexuais, surfistas, velhos e pretos. As praias tornaram-se clubes. Até os guias turísticos, que antes diferenciavam as praias pela paisagem, temperatura da água ou localização, identificam as praias por quem lá vai. E cada um sabe onde ir e qual o clube a que pertence. A sua praia.

Contudo, as coisas não são assim tão simples. De verdade não somos nós que escolhemos a praia para onde queremos ir. Tal qual, surpreenda-se, como não escolhemos o super mercado onde fazemos as nossas compras. Acredite ou não, mas essas escolhas já alguém fez por si. Intencionalmente. Mas, ao mesmo tempo, fazendo-nos acreditar que somos nós que decidimos.

Vejamos, então. Porque raio é que você opta por ir à praia da Fonte da Telha em vez de ir à praia da Morena, sabendo que a Fonte da Telha é uma praia feia, suja, com pouco estacionamento, muita gente e pior ambiente? Porque não vamos todos para a praia da Morena, que tem melhor ambiente, é mais organizada, limpa e sem casas clandestinas nas dunas?

Os bares e restaurantes de apoio a cada uma das praias talvez nos ajudem a responder ás questões anteriores. Por exemplo, sabia que um café na Morena custa cerca de 1,5€ enquanto na Fonte da Telha apenas 0,75€? Porque será? A nossa primeira resposta seria porque, possivelmente, na Morena as rendas são mais elevadas. O que até pode ser verdade, mas não a principal razão. De facto, o café continua a custar 1,5€ porque há clientes que estão dispostos a pagá-lo e não por causa do custo da renda. E porque preferem pagar 1,5€ por café? Não julgue que seja só porque podem fazê-lo. Poder fazê-lo não significa que uma pessoa opte por o fazer. A verdade é que as pessoas optam por fazê-lo porque não há concorrência, nas mesmas condições - por isso é que na Morena só existe um único bar-restaurante adjudicado. Mas se as pessoas sabem disso, porque continuam a ir lá? Talvez, antes de responder a esta questão, faça sentido colocar outras. Porque é que o autocarro não passa na Morena? Ou porque é que, na Morena, o preço dos chapéus, toldos e garrafas de água são tão caros? Ou porque é que a Fonte da telha continua naquela desordem com tantas casas ilegais e tanto lixo no chão? Ou porque parece haver melhores estradas para ir para a Fonte da Telha? Ou porque é que a praia da Morena tem um acesso dificil e entope tão facilmente se houver excesso de carros?

Antes de responder a tudo isto, lembre-se que, onde há dinheiro a ganhar, poucas coisas acontecem por coincidência. Note também que, se todas as praias da zona estivessem nas mesmas condições, possivelmente, o café, por exemplo, teria o preço de 1€, um preço médio, o que não seria suficientemente alto para explorar os clientes mais mãos-largas, nem suficientemente baixo para atrair os mais poupadinhos. Desta forma, talvez agora comece a achar as respostas para as questões anteriores. Talvez agora fique mais claro porque é que a praia da Morena tem condições tão diferentes da Morena. Talvez agora perceba o motivo porque é que a tranquilidade e bom ambiente está confinado à praia da Morena. Talvez agora faça sentido porque é que não interessa ter muita e qualquer gente na Morena. Talvez agora descubra porque a câmara consegue sacar uma renda alta ao proprietário do único bar-restaurante da Morena. Talvez agora compreenda porque vai à Fonte da Telha antes de ir à Morena. Talvez agora entenda porque é que todos vão à praia e não se queixam. Talvez agora aceite que, afinal, a praia não é assim tão democrática.

Ir à praia

O calor leva-nos involuntariamente à praia. O que, bem vistas as coisas, não deixa de ser curioso e paradoxal. Senão, vejamos. A ideia de ir à praia deveria ser a solução para fugir do calor, o nosso estímulo inicial. Contudo, quando vamos à praia, muito rapidamente sonegamos o incómodo do calor, entregando o nosso corpo ao sol tal qual um espeto de picanha se entrega ao assador. Claro que, de quando em vez, lá vamos à água e refrescamos. Mas, por estranho que pareça, ir à água é muito menos do que isso. Muitas vezes, só se vai à água para que não se pense que se vai à praia sem se ir à água. Ou então para suprir alguma necessidade fisiológica. Sim, porque, como toda a gente sabe, quase todos, senão todos, mictam na água. É um facto. A chatice é que todos pensam que por ser no mar, coisa grande e infindável, que não há grande problema. Afinal, tirando o quentinho do momento, e exceptuando os casos de alguns que quando entram na água se põem de cócoras a fingirem estar a ambientar-se à água, a coisa até passa despercebida. Uma gota no oceano, portanto. O pior, é que todos pensam da mesma forma o que faz com que sejam muitas gotas no mesmo oceano e, inevitavelmente, nos nossos lábios.

No fundo, vamos à praia em dias de calor, porque, em primeiro lugar, sabemos que as outras pessoas também irão lá estar. Não passa disso mesmo. Um acto social, onde a matilha se encontra e representa o seu papel de acordo com as suas expectativas e motivações. E, a grosso modo, todas essas expectativas e motivações podem ser enquadradas em dois grupos distintos de pessoas que vão à praia. Os que vão para se mostrar e os que vão para ver. Os primeiros, estão normalmente o ano inteiro no ginásio, e em frente ao espelho, a prepararem-se para o momento, sabendo que, os segundos, estarão lá a olhar para eles a invejá-los e a fazerem promessas para consigo próprios de dietas e exercício físico esforçado.

O Amor é uma coisa a vida é outra

No meio da confusão que permanecem as minhas 2 assoalhadas - e enquanto continuo a procurar um livro para levar para a praia, que seja suficientemente grosso para causar boa impressão e, a espaços, servir de almofada - dei de caras, e com os pés, com uma das crónicas do MEC que mais gosto e que não resisto em colocar aqui, em jeito de compensação pelo meu excesso de preguiça em escrever algo original.

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Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Por que se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e ao mínimo amuo entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psicosócio-bio-ecológica da camaradagem. A paixão que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade ficam "praticamente" apaixonadas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim da tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O amor é uma coisa a vida é outra. A vida que se lixe. A vida dura uma vida inteira, o amor não.

* Texto adaptado, rasurado e emendado a partir de uma crónica de Miguel Esteves Cardoso