Só se vê o que se quer ver

Num dos muitos, mas sempre únicos, momentos de contemplação de mim próprio, desta vez frente ao espelho, verifico que a acção da melanina produziu em mim, desculpem-me a imodéstia, um apresentável e bonito bronzeado. Espantam-me, por isso, as insinuações a propósito do envelhecimento precoce da pele e os comentários sobre o acentuar das minhas eventuais rugas.

Numa observação menos atenta, e com alguma má vontade, pode-se de facto, passado algum tempo, encontrar na zona dos meus olhos alguns riscos na pele de tom mais claro. Mas daí a confundi-los com rugas vai uma distância como daqui, sei lá, até à Fonte da Telha. O pior é que nem rugas de expressão são. Aliás, parece-me evidente que, sem muito esforço, facilmente se pode concluir que tais riscos na pele só podem resultar de uma disforme exposição solar, consequente do facto de não usar óculos de sol na praia e, por isso, involuntariamente, enrugar a cara aquando a exposição da minha bela carcaça ao sol.

No esplendor dos meus vinte e poucos anos, poderei, com relativa à vontade, reduzir tais comentários a simples inveja - note que, a inveja não é querer o que o outro tem (isso é cobiça), mas sim querer que o outro não tenha. E não me venham com as desculpas da ilusão de óptica e não sei quê, senão vou ter que me armar em carapau de corrida com explicações sobre a reflectância real dos objectos e sobre a instabilidade dos estímulos visuais. Até porque, como estamos fartos de saber, a percepção que temos das coisas é em grande parte auto-produzida. Isto é, o que vemos é sempre, em certa medida, uma ilusão. Mas isso, vão-me desculpar, já são outros quinhentos.

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