Contra a corrente

Convicto que a democracia ainda não está suspensa, preparo-me para, nos próximos minutos, cumprir o meu dever e o meu horário de professor.

Pontos de discórdia

1. Os sindicatos têm-se servido da insatisfação dos professores para, com sucesso, construírem um clima de receio e boicote nas escolas baseado em argumentos enganosos, que os professores acolhem sem espírito crítico nenhum (por exemplo, muitos professores estão convencidos que nunca mais vão progredir na carreira quando, em boa verdade, apenas uma avaliação negativa o impede).

2. Os números impressionantes das manifestações assentam num conjunto de motivos que vai para além da história da avaliação docente - o bode expiatório dos professores. Contudo a maior parte dos professores não quer esta nem nenhuma avaliação. Aliás, quer a que havia, porque é a única que garante que todos cheguem, sem esforço e sem diferenciação, ao topo da carreira.

3. Apesar deste modelo de avaliação não ser perfeito e carecer de muitas melhorias é o modelo que, entre todos os disponíveis, melhor serve o interesse da escola e dos professores. Imagine-se, por exemplo, uma avaliação externa e o pandemónio que não seria nas escolas (gostaria de ver os professores a serem avaliados por um inspector que fosse à escola uma ou duas vezes por ano e que avaliasse os professores de áreas tão diferentes como Educação Visual, Alemão ou Matemática).

4. Muitos professores queixam-se da burocracia do processo de avaliação quando são os próprios, em cada escola, que definem quais os papéis que é necessário preencher e produzir. Ou seja, sempre que se dá à escolas poder decisório para fazer qualquer coisa de importante, invariavelmente, tem de haver um despacho para ensinar aos professores o que fazer exactamente, porque estes só complicam e burocratizam a coisa.

5. Quando alguns professores dizem, os avaliadores em particular, que estão sem tempo para preparar as suas aulas, não dizem a verdade. Os professores avaliadores - que são todos do 8º, 9º ou 10º escalão – têm 3 a 5 horas semanais para avaliar os 5 ou 6 professores a seu cargo (ou seja por cada ano lectivo têm no seu horário, pelo menos 150 horas para dedicar à avaliação). Note-se, no entanto, que neste início de processo é normal que se perca muito mais tempo que o disponível, afinal só agora é que as escolas estão a construir os instrumentos de avaliação.

6. Quando se diz que este processo está a afectar o normal funcionamento das aulas e a prejudicar a qualidade do ensino também não se fala a verdade. Aliás, desde que se sabe que a assiduidade é um factor de avaliação, poucos são os professores a faltar. Mais, ao contrário do que dizem, nunca como agora houve tanta preocupação com os alunos, com as suas aprendizagens e com o seu sucesso.

7. Os professores dizem também não querer hierarquias nem responsabilidades que os diferenciem, isto é, querem ser todos iguais. Mas já não se incomodavam tanto quando alguns, sem nenhum mérito além da antiguidade, chegavam ao topo da carreira ganhando o dobro (2200 euros) com metade do trabalho (12 horas lectivas semanais). Afinal, mais cedo ou mais tarde, todos lá chegariam.

Orçamento de Estado

A única característica positiva que sobressai da Dr. Manuela Ferreira Leite é a sua imagem de credibilidade e rigor. Daí que, sempre que fala, faz questão de vincar a sua postura de estado querendo fazer crer que é a única que fala a verdade e que sabe da coisa. Mas o problema é mais do que uma questão de estilo. O que é importante saber é se a Dr, Manuela tem, ou não, competência e se é, ou não, a pessoa certa para ser primeiro ministro. E, para isso, temos que analisar mais do que estilo e dissecar o que diz e, e propõe. E nesse aspecto, custa-me ouvi-la num discurso que, se o entendermos bem, denota algumas falhas de coerência, honestidade e até de soluções. Ao classificar o valor de 0.6 de crescimento do PIB de irreal, nesta conjutura, e indicar o valor de 0.2 como o mais indicado, não lhe parece que está a ser pouco honesta? Ainda para mais quando foi responsável por “prognósticos” em OE anteriores que falharam estrondosamente com diferenciais de 3%? Por outro lado, não lhe parece estranho que a promotora da “obcessão do défice” entre agora numa lógica de medidas que põem em causa o défice público? E o que dizer da sua posição quanto aos grandes investimentos públicos quando, ao mesmo tempo, diz que deve haver uma preocupação com o emprego? Será que é apoiando as empresas que têm prejuizo que se vai criar emprego e desenvolver e melhorar o tecido empresarial português? Serão estas empresas, as que dão prejuízo, que vão alterar os números de desemprego e do desenvolvimento económico? E o que dizer da acusação de que OE está cheio de truques? Será que está a pensar na titularização das dividas que entregou ao citibank? E quando diz que a crise internacional só atingiu Portugal porque Portugal já estava em crise, será que pensa o mesmo para Espanha, Reino Unido, Alemanha,França e todos os outros países? E quando o FMI diz que Portugal vai crescer 1% e muitos, que sempre cresceram mais do que Portugal, vão entrar em recessão, será que também está a vender ilusões?

Desconstruindo a manifestação dos professores

Ao que parece assistimos, neste último fim-de-semana, à maior manifestação de professores que há memória em Portugal. Obviamente não pretendo desvalorizar tal feito, mas, no entanto, julgo interessante tentar perceber os reais motivos de uma onda de insatisfação tão generalizada.

Antes de mais, convém perceber que a revolta dos professores não é de agora e tem que ver com muitos mais factores do que a Avaliação de Desempenho. De facto, há muito que se sentia entre os professores um mal-estar latente. Note-se que foi com este Ministério da Educação que, entre outras medidas, os professores passaram a ter um horário na escola mais alargado, as progressões na carreira congeladas, a idade da reforma adiada para os 65 anos, aulas de apoio e de substituição por sua conta e um regime de faltas e de interrupções lectivas muito mais apertado. Tudo isto medidas que, independentemente da sua justiça e urgência, infligiram aos professores perdas nos seus direitos outrora adquiridos.

Claro que, por si só, estas medidas não eram justificativas de grandes contestações, mas somadas, uma após outra, foram mais do que suficientes para que a classe docente se sentisse vitimizada e perdesse a confiança no Ministério de Educação. À custa disso, os sindicatos reforçaram o seu papel junto da classe docente e tornaram-se os principais, senão únicos, fazedores de opinião credível entre os professores, adoptando uma postura de clara oposição a tudo o que emanava do gabinete da Ministra. Está bom de ver que, a partir daí, só faltava uma boa desculpa para que a bolha da insatisfação explodisse para fora das escolas.

Os sindicatos quando pegaram na questão da Avaliação do Desempenho dos Professores fizeram-no com óbvia má fé, fazendo crer que o que aí vinha iria tornar a vida dos professores num inferno, impossibilitando que qualquer professor subisse na carreira. Os professores, completamente manietados e feridos, nem se deram ao trabalho de dar o benefício da dúvida ao Ministério da Educação em algo que, não sendo perfeito, é mais do que necessário e justo fazer. Afinal, a sua posição há muito que estava tomada.

P.S. Para quem quiser saber mais sobre a regulamentação da Avaliação de Desempenho dos Professores aconselho a consulta deste link.

Descodificando a contestação dos professores

Ao que parece, a classe docente anda revoltada. A julgar pelas conversas nas salas de professores, e pelas manifestações “espontâneas” que por aí se preparam, nunca, como hoje, a contestação a este governo e à Ministra da Educação foi tão unânime e incisiva por parte dos professores.

Nos últimos dias, a propósito da Avaliação de Desempenho dos Professores, muito se tem dito e ouvido. Há ano e meio atrás, altura em que escrevi o texto que postei anteriormente, a maior parte dos professores dizia-se contra qualquer avaliação de desempenho que fugisse dos termos da que era feita na época, ou seja, que interferisse com a progressão automática nas carreiras que, como alguns sabem, assegurava a todos, sem distinção, ao fim de uns anos o topo da carreira, isto é, um ordenado de € 2900 (ilíquidos) por 12 horas semanais de trabalho lectivo. Agora, percebendo que não têm argumentos que sustentem o facto de não quererem ser avaliados, dizem que, afinal, querem ser avaliados mas não nos moldes que a regulamentação do Ministério da Educação definiu.

Todos sabemos que a avaliação dos professores, tal como a dos alunos, é de elementar justiça e fundamental para valorizar o empenhamento e premiar o mérito, visando, dessa forma, a melhoria das aprendizagens e resultados. Contudo, isso não é suficiente para que os professores a desejem e aceitem. Muito menos para os sindicatos, através dos seus milhares de agentes impregnados nas escolas, deixarem fugir esta oportunidade de fazerem figura perante os seus líderes partidários. Afinal, qual seria o professor que aceitaria de bom grado, de um dia para outro, o incómodo e a preocupação de prestar contas pelo trabalho realizado ao longo do ano lectivo, ainda por cima com implicações na progressão na carreira? Certamente muito poucos.

Por agora, o objectivo de alguns professores e sindicatos é, tal como ouvi ontem na voz de um colega, "dar cabo da ministra antes que ela dê cabo de nós". Por isso que os argumentos contra a regulamentação da Avaliação de Desempenho dos Professores, assim como as providências cautelares interpostas pelos sindicatos e as mega manifestações previstas, são apenas fogo de artificio para nos entreter em discussões demagógicas e vãs que visam apenas e só adiar a implementação da avaliação e deixar tudo como está.

Sejamos claros, a reforma em curso na educação é difícil, com óbvios custos políticos, e envolve mudanças profundas na cultura das nossas escolas que, sem margem de dúvida, afectam os interesses e expectativas dos professores. Contudo, são reformas imperativas a bem do país, que só não foram feitas há muitos anos por falta de coragem política dos governos anteriores.

O problema de Portugal não são os políticos. São os portugueses.

Aproveitando o amuo da esposa, permito-me, durante os próximos minutos, tentar escrever uma ou duas coisas que me parecem muito pertinentes, apesar de pouco interessantes.

Já devo ter dito algures que a democracia só servia para Portugal se fossem os suecos ou os finlandeses a votar por nós. Não é que eles sejam mais espertos ou menos egoístas. Simplesmente, por estarem longe, não seriam parte interessada. E assim, talvez vissem as coisas com outro alcance, sem a mesquinhez que nos faz desejar que tudo fique na mesma e nos impede de deixar fazer aquilo que tem de ser feito.

Por issso que, enquanto professores, médicos, enfermeiros, policias, militares, juízes, magistrados, farmacêuticos, notários, funcionários públicos, cidadãos em geral, populações em particular, e sei lá mais quem, manifestarem-se na rua ou fizerem greve, este governo tem o meu apoio.

Dúvidas políticas

Em época de balanços e projecções noto que o desemprego é o tema que mais preocupação traz aos portugueses. Muitos, convenientemente, responsabilizam o governo pela situação a que chegámos. 8,2 %. Porém, são os mesmos que, quando o governo traçou como objectivo o aumento do emprego, acusaram tal promessa de completa demagogia e propaganda política, argumentando que não é o governo que cria postos de trabalho. Mas se o governo não é responsável pelo aumento do emprego, pode ser responsável pelo aumento do desemprego?

Proibido Fumar

Ao que parece, e para surpresa de muitos, a nova lei que proíbe fumar em recintos fechados está a ser bem recebida e cumprida pela generalidade dos fumadores. Portugal precisava de uma lei assim. De 1º mundo. Que, mais do que melhorar a saúde das pessoas, só se pudesse aplicar num país desenvolvido e não cá. Finalmente temos uma lei que não permite desabafos do tipo "ah se fosse na América ou na Suécia isto não era assim...". Agora cá é como lá, onde dizem que se vive bem. E isso dá-nos esperança e enche-nos o peito. Aumenta-nos a auto-estima. Aos portugueses não interessa se esta lei faz bem à saúde. Se fosse só por isso nenhum fumador a elogiava. O que interessa aos portugueses é que esta lei traz um arauto de modernidade e de desenvolvimento que, pelo menos nisto, não podem deixar escapar. Receiam passar por provincianos. Por isso são tão cumpridores, educados e compreensivos. Vaidade, apenas isso. O problema é que este tipo de sentimentos não perdura nos portugueses - somos mais invejosos do que vaidosos - e bastará um ou dois exemplos convenientes para que, mais cedo ou mais tarde, se invoque a liberdade individual e o 25 de Abril para que tudo volte ao mesmo. Afinal, não fomos feitos para isso, nem a lei foi feita para nós.

Eu acho... essencialmente... coisas perdidas

Já vai para mais de 1 ano que não escrevo aqui. A preguiça, os afazeres e a esposa (não necessariamente por esta ordem) colocaram-me num estado de letargia bloguista que só o acumular de perplexidades pôs fim - como sabemos, as perplexidades produzem opiniões e as opiniões só fazem sentido se partilhadas e confrontadas.

O português, ao contrário do que se pensa, não tem opinião sobre nada de essencial. Faltam-lhe ideias e interesse para as produzir. Quanto muito, de uma forma preguiçosa, “acha que” qualquer coisa – excepto, claro, em assuntos que tenham que ver com a vida dos outros. E quando “achamos” alguma coisa, dificilmente “achamos” bem. Achar mal está mais de acordo com a nossa natureza pessimista. Ajuda-nos a encarar a vida. Desculpa-nos.

Acho que devíamos ter opinião sobre tudo e alguma coisa. Nem que seja para cair no ridículo. Eu, parece-me, já estou a fazer a minha parte.