O caso das escutas 2 - descrição cronológica dos factos

Após os últimos desenvolvimentos deste caso das "escutas", senti necessidade de fazer uma cronologia dos factos que estão por detrás desta história. Aqui vai:


1. Cavaco, após o caso dos Açores e da sua misteriosa comunicação ao país, perde a confiança no governo e deixa cair a ideia de cooperação estratégica.

2. Em Abril de 2008, o homem de confiança do Presidente, e segundo o e-mail a mando do Presidente, marca um encontro com um jornalista do jornal Público e "planta" uma notícia de suspeição de vigilância do governo à presidência, entregando um dossier sobre um assessor do 1ºministro e montando uma história de vigilância de forma a consubstanciar as tais suspeitas.

3. A 23 de Abril de 2008, o jornalista do Público contacta outro jornalista que está na Madeira, pede-lhe que investigue a situação e, segundo o e-mail, chega à conclusão que a história não tem fundamento.

4. Em princípios de Agosto de 2009, surgem notícias, na comunicação social, que assessores de Belém participaram na elaboração do programa do PSD e alguns deputados do Partido Socialista pedem esclarecimentos a Belém.

5. O Presidente fica incomodado com estas notícias e não percebe como vem a público essa participação dos assessores no programa do PSD e permite que, através das suas fontes anónimas, a comunicação social seja "informada" das suspeitas de vigilância que a Presidência tem.

6. A 18 de Agosto de 2009, sai uma notícia no Jornal Público que a Presidência suspeita que está a ser vigiada pelo governo.

7. O Presidente não desmente a notícia e permite que o caso seja alimentado e aproveitado politicamente pelo PSD e pelo tema da asfixia democrática.

8. O Público, no dia a seguir, faz uma notícia com as suspeitas que tinham sido levantadas pelo homem de confiança do Presidente quanto ao tal assessor na viajem à Madeira e que o próprio Público já tinha confirmado serem infundadas.

9. Em plena campanha eleitoral, Francisco Louça acusa que Fernando Lima, o tal homem da confiança de Cavaco, está por detrás das notícias das suspeitas,

10. O Provedor do Público escreve que o jornal Público deu, no caso das suspeitas de vigilância, notícias infundadas e põe em causa as fontes que os jornalistas invocam.

11. Um e-mail interno do Público é publicado no Diário de Notícias onde é revelado os pormenores de como, há 17 meses atrás, Fernando Lima tentou "plantar" uma notícia de suspeitas de vigilância à Presidência.

12. O Director do Público acusa o SIS de interceptarem correspondência interna do seu jornal.

13. O Presidente recusa comentar o e-mail exposto no Diário de Notícias, mas dá a entender que há problemas de segurança.

14. Manuela Ferreira Leite usa as palavras do Director do Público e reforça a ideia de asfixia democrática com as suspeitas de escutas que o SIS faz a alguns jornais.

15. Na mesma noite, o director do Público, confrontado com os resultados públicos de uma auditoria interna aos sistemas informáticos, informa que o e-mail não foi interceptado por fontes externas e nega o envolvimento do SIS.

16. O provedor do Público escreve novamente e insinua que o jornal Público tem uma agenda oculta para prejudicar o governo e beneficiar o PSD.

17. Um deputado do PS, com base no desmentido do próprio director do Público, exige um pedido de desculpas de alguns dirigentes do PSD que insinuaram que o SIS estava a mando do governo a fazer escutas à comunicação social.

18. Cavaco Silva afasta Fernando Lima da assessoria para a comunicação social.

19. Cavaco fala ao país e diz que nunca teve suspeitas de escutas e que Fernando Lima não fala pelo seu nome e que tudo o que se passou não foi mais do que uma manipulação do Partido Socialista para colar o Presidente ao PSD.

20. Pedro Silva Pereira, falando em nome do governo e do PS, desmente ponto por ponto as acusações de manipulação do Presidente da República e sugere que o mal tem de ser resolvido pela raiz.


Penso que não preciso de fazer nenhum comentário. Tirem as vossa próprias conclusões...

O caso das escutas 1 - questões que me atormentam

Confesso que estou perplexo com o desenvolvimento desta história das "escutas". Por isso, e porque a situação é tão grave que tenho medo que a consigam abafar, deixem-me colocar algumas questões que me atormentam:

1. O Presidente mandou “plantar” uma notícia, há 17 meses atrás, dando conta de que tinha suspeitas que estava a ser vigiado, dando orientações (que estão expostas no e-mail) na forma de como a investigação devia prosseguir, como camuflar a fonte e, ainda, dando como fundamento das tais “suspeitas” o facto de um tipo ligado ao governo (e ao estatuto dos Açores) ter se sentado numa mesa que para o qual não tinha sido convidado (convém também saber que o jornalista do Público, noutro e-mail, diz que investigou a história e que as tais suspeitas não tinham fundamento.

2. Outro facto interessante é o Fernando Lima (assessor de cavaco) ter entregue um dossiê sobre o tal Rui Paulo Figueiredo. Será que não há ninguém que se choque com isto? Desde quando é que a Presidência produz um dossiê sobre alguém? Isto não era o que a PID fazia?

3. Se o Presidente da República suspeitou em algum momento que estava a ser “vigiado” por São bento – que é algo de uma gravidade extrema – porque não fez uma queixa na Procuraria da República?

4. Em Agosto, o Público deu a primeira notícia sobre as tais “suspeitas”, após a confirmação oficial de uma fonte de Belém, numa altura em que os assessores do Presidentes estavam sobre fogo, por terem sido acusados de colaborar na elaboração do programa do PSD e quando o tema da “Asfixia Democrática” fazia caminho.
Ora, não há aqui coincidências a mais e interesses políticos claros (nem que seja uma vingançazinha…)?

5. Francisco Louça, numa daquelas entrevistas intimistas da SIC, denunciou que o autor daquelas notícias “tontas” sobre as tais “suspeitas” a Belém era o Fernando Lima, assessor de Cavaco. Como é que o Louça sabia? Será que o SIS reporta a Louça?

6. José Manuel Fernandes, numa primeira reacção, estava convicto que aquele e-mail interno divulgado pelo Público, só poderia ter sido obtido pelo SIS (que reporta ao SIRP e este ao primeiro ministro). Há pouco, na SIC Notícias, José Manuel Fernandes já não é tão convicto na acusação, até porque, entretanto, “o Conselho Geral da Público Comunicação Social, SA, informa [de] que não tem, até à data, o mais pequeno indício que lhe permita confirmar qualquer violação dos seus sistemas de informação”.
Ou seja, sem qualquer prova, o Director do Público, lançou, mais uma vez, lama para cima da dignidade do 1º Ministro apenas para sacudir a água do capote e, assim, produzir o ruído necessário para que não se discuta o essencial. Tem José Manuel Fernandes uma agenda oculta?

7. Ao longo destes últimos tempos todos temos percebido a semelhança nos discursos de Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite. Será porque o chefe de gabinete de Manuela Ferreira Leite, o jornalista Francisco e Silva, ter sido adjunto de Fernando Lima, o tal assessor de Cavaco, na Direcção do DN? Ou será uma cooperação estratégica?

8. A propósito das notícias do Público sobre as tais “suspeitas” o provedor do leitor do Público produz uns textos muito interessantes que, só por si, levantam imensas dúvidas. Eis uns extractos:

“Salvo melhor prova, tudo não passa de um indício, sim, mas de paranóia, oriunda do Palácio de Belém. Só que tal manifestação é em si já notícia, porque revela a intenção deliberada de alguém próximo do PR minar a relação institucional (ou a “cooperação estratégica”) com o Governo.

(…)

“Pelo que o provedor percebeu, só há uma fonte, que é sempre o mesmo colaborador presidencial que tomou a iniciativa de falar ao PÚBLICO em 2008, mas este milagre da multiplicação das fontes é uma velha pecha do jornalismo político português e não vale a pena perder agora mais tempo com ela.”

(…)

“Solicitados pelo provedor a explicar por que razão os dados recolhidos há ano e meio por T.N. [Tolentino de Nóbrega], e que de algum modo contrariavam a versão do assessor de Belém, não entraram na notícia sobre o “espião” de S. Bento, nem J.M.F. [José Manuel Fernandes] nem L.A. [Luciano Alvarez] responderam.”


9. A intervenção de Cavaco Silva de hoje, a propósito deste caso, é bem medido e pensado. Por isso fica evidente a vontade que o Presidente tem em denegrir a imagem de Sócrates e assim dar mais um contributo para os seus interesses ocultos. Se há problemas de segurança que envolvem “espionagem” ao Presidente – assunto de extrema gravidade – é de aceitar esta reacção?


Afinal, o que quer Cavaco?

P.S. "Pode ser paranóia mas o melhor é não correr riscos." Luciano Alvarez