A história do fim dos "chumbos"

A maneira como a ministra colocou este assunto não foi sábia e revela uma enorme falta de “jeito” para a comunicação política. Quando se fala em “acabar com os chumbos” é invariável a confusão que se gera. Obviamente que o que está em cima da mesa não é o fim das retenções por via legislativa (pelo menos no sentido em que todos “passam” independentemente do que souberem). Confundir isso com o que se pretende é distorcer tudo.

Para que se saiba do que estamos a falar e para que se recentre o debate naquilo que interessa, vejamos alguns pontos sobre este assunto:

1. A defesa da não repetência não é equivalente à defesa do facilitismo e do “passar sem saber”. A ideia é que se façam todos os possíveis para que os alunos saibam o que têm de saber e, assim, não "chumbem".

2. A repetência por si só não resolve, na maior parte das vezes, os problemas que estão por detrás das aprendizagens não concretizadas (excluindo problemas relacionados com assiduidade ou comportamento). Todos os estudos indicam que quem chumba tende a chumbar mais no futuro.

3. A existência da repetência, muitas vezes, acaba por desresponsabilizar os professores na procura e concretização das estratégias mais adequadas a cada aluno com dificuldades. A  repetência é, quase sempre, o caminho mais fácil.

4. A alternativa a não reter um aluno passa, caso assim se queira, por um trabalho árduo, de maior exigência para todos (escola, professores e aluno).

5. A escola não deve ser, como era no tempo dos meus pais, apenas para os alunos com facilidade de aprendizagem e com “jeito” para os estudos. A escola pública não deve apenas garantir o acesso a todos mas também garantir a qualidade das aprendizagens a todos.

Ou seja, apesar da retenção de um aluno acontecer (e deve continuar a acontecer) por um aluno não conseguir adquirir as aprendizagens necessárias ela deriva de um conjunto diverso de razões. Ora se há alguma lógica em reter um aluno por falta de assiduidade ou indisciplina, já não há muita lógica em reter um aluno, assíduo e “bem comportado” por dificuldades de aprendizagem. Não quer isto dizer que se deva “passar” este aluno sem ele saber o que deveria saber. Não, não é isso que se pretende. O que se defende é que, para estes alunos, a repetência não é solução e que o mais lógico seria aplicar todas as medidas e estratégias possíveis de forma a que estes alunos possam ultrapassar as dificuldades e que aprendam o que têm de aprender.

Há muito que os professores já perceberam que as medidas de recuperação que utilizamos nas nossas escolas não funcionam. Ora bem, aqui está um bom exemplo, do que devia estar em discussão. Por que, a bem da verdade, tais medidas só existem nos papéis e são poucos os professores a aplicá-las com sucesso. São ineficientes, burocráticas e contraproducentes, no sentido em que depois de supostamente aplicadas são poucos os professores que reconhecem o seu reduzido efeito (“vendendo” assim a não retenção pelo seu bom nome).  O pior é que já há uma cultura de “descrença” dos professores em quaisquer destas medidas e são poucos os que as usam em benefício dos alunos e acreditam na sua eficácia.

Pela minha parte, não estou satisfeito com o que temos. Acho que estes planos de recuperação que temos não funcionam e que se exige uma mudança radical destas práticas (especialmente na minha disciplina de matemática). Porém estou certo que não chega que se mudem as metodologias. É necessário também mudar as mentalidades e a cultura de escola de todos os agentes educativos, fazendo ver a todos que é possível levar um aluno com dificuldades ao sucesso e à aprendizagem efectiva do que lhe é exigido.

Haverá melhor coisa do essa?

1 comentário:

Jomaduro disse...

Concordo plenamente, é necessário criar espaços de criatividade e não de burocracia, senão perdemos todos.
João Rodrigues