Os Mitos da crise

Se há um tempo todos se indignavam com tudo e mais alguma coisa, hoje todos parecem conformados a aceitar aquilo que antes nem imaginar podiam. Esta espécie de panaceia tem especial expressão nas conversas de café onde imperam e solidificam os novos Mitos da crise.

Mito 1: A culpa de se ter chegado a esta situação é de José Sócrates e dos seus 6 anos de governação (Ou seja, é óbvio que o sr. Engenheiro, depois de quase ter levado à falência Portugal – que como muitos devem imaginar sempre foi um país riquíssimo e com uma saúde financeira e económica invejáveis - ainda teve tempo para fazer o mesmo a países como Islândia, irlanda, Grécia, Itália,…)

Mito 2: Pedro Passos Coelho encontrou um buraco enorme (da culpa de Sócrates, claro) que mais que justificou as medidas entretanto tomadas. (Ou seja, os números da execução orçamental que desmentem isto pouco interessam e dos buracos que realmente se conhecem – BPN, Madeira, submarino e afins – não vale a pena falar. Muito menos do excedente de 2 mil milhões de euros que, depois de já se terem efectuados os cortes nos subsídios, se descobriu)

Mito 3: No tempo de Sócrates houve despesismo e não se fez nada para acabar com os privilégios injustos de alguns (Ou seja, quando, no tempo de Sócrates, todos – professores, médicos, enfermeiros, magistrados, militares, e.t.c. - protestavam, afinal, o que eles queriam era que se fosse ainda mais longe nos cortes e nas medidas de racionalização tomadas.)

Mito 4: Não há alternativa ao caminho que o governo traçou (Ou seja, isto só não funcionou na Grécia porque não e os que agora defendem outros caminhos, ainda que com os mesmos objectivos, são uns irresponsáveis e demagogos - tipo Manuela ferreira Leite, Pacheco Pereira, Cavaco Silva, Rui Rio, e.t.c.)

Mito 5: O governo tem legitimidade eleitoral de tomar as medidas que ache necessárias (Ou seja, pouco interessa o que foi prometido nas eleições. Afinal todos sabíamos que eles iam fazer exactamente o oposto do que disseram que iam fazer. Ou acham que nós não percebemos que quando falavam em desperdícios e gorduras intermédias se falavam em ordenados, em cuidados de saúde, em cortes nas pensões, em aumentos na eletricidade, gás e transportes, etc?)

Mito 6: As medidas que estão a ser tomadas são impostas pelo exterior e o governo toma medidas contra a sua vontade (Ou seja, aquilo que está escrito no memorando pouco interessa porque, como bem sabemos, quem manda são os alemães e tal. Por isso é que houve necessidade de se ir, nas medidas de austeridade, “muito além” do que a troika impôs. Até porque, se assim não fosse, até parecia que este governo se estava a aproveitar da situação calamitosa para nos impor uma ementa ideológica liberal que nunca seria aceite pelos portugueses em quaisquer eleições)

Mito 7: Este governo está a cortar nas gorduras, nos desperdícios e a fazer o que tem de ser feito (Ou seja, se é bem verdade que não se conhece nenhuma medida ou reforma estrutural de relevo – além do corte dos subsídios de férias e natal, que todos já perceberam ser para sempre – não se pode exigir ao governo que faça aquilo que os outros não fizeram, ou não é?!)

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